Teve um tempo da minha vida que sonhei em ser
escritora. Tinha a imaginação fértil e nenhum medo de desejar.
Minha cabeça não pensava nas praticidades. Água,
luz, telefone, casa própria, escola dos filhos, plano de saúde, essas coisas
todas que insistem no cotidiano real estavam fora dos meus devaneios.
Tinha feito plano (im)perfeito: moraria numa
varanda de Antonina, com vista para baía, passarinhos ao redor e sossego
constante de fim de tarde. Na minha casa, pouco mais que o alimento: música,
livros, imagens e umas bobagens de comer e beber.
Recolhida, muito seria necessário para me
tirar da clausura. Apenas os compromissos imprescindíveis como máquina
fotográfica, passarinho, flor, caminhada, botequinho abjeto, missa de domingo
ou samba na Carioca.
Meu maior problema seria os prazos de entrega
dos textos, sempre no último minuto, no segundo final, ao apito do juiz.
Escreveria para crianças. Somente para
crianças. Nada de croniquetas errantes ou colunas enfadonhas ou matérias que
arrastam grilhetas ou qualquer outra coisa que poderia me levar à guilhotina,
fossem os leitores menos condescendentes.
Como não sou boba nem nada, o paraíso teria ar
condicionado, internet rápida e um carro à minha disposição para visita à
capital: conversa com editor, concerto ou aeroporto para as férias europeias –
quando mudasse para Antonina, minhas primeiras férias seriam em Luxemburgo.
Receberia visitas. Família em pequena tiragem
e amigos para ficar a par de todas as bossas.
As portas também estariam abertas para as
escolas da região, estudantes e professores, para pensarmos juntos em
brincadeiras intermináveis com tudo aquilo que a grade curricular obriga.
Levaria a luneta que ganhei do meu pai, a
coleção de lanternas e muito repelente. Todas as caixinhas, girafas, quadros,
enfeitinhos e móbiles estariam lá a se espalhar com naturalidade pela casa.
Do tempo em que esse sonho voou para mim até
hoje, pouca coisa mudou. Feito princesa encastelada na própria fantasia, vez ou
outra, ainda acho que é possível. É na margem direita do São Joãozinho Feliz
que mora minha quimera de felicidade.

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