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terça-feira, 30 de setembro de 2014

elixir



há 19 consultas conheço o Dr LC; sabemos pouco um do outro, mas o fundamental para conversas prolongadas, consultas fora do padrão 20 minutos do plano de saúde, papos sobre o que lhe brota. 
ele tem mais que o dobro da minha idade e é especialista não só na sua escolha médica. sabe muito da vida e dos comportamentos. gosto de ouvi-lo. 
dia desses me contou que escorregou no banheiro e se estabacou no chão. grande perigo em qualquer tempo, aos 84 nem se fala. falou da imprudência: "o telefone estava a tocar e eu saí desembestado para atender". justificou a imprudência: "a cabeça da gente pensa de um jeito e o corpo já não responde mais como antes".

por que será que para algumas coisas a experiência é transformadora e para outras não? 
vejo por aí senhoras, avós, passadas dos 65, a desfilar em minissaias que não ficariam bem nem aos 15. homens a pintar cabelo como se fossem Silvio Santos. cinquentões em discursos pseudo-comunistas que tinham certo sentido na adolescência. motoqueiros tardios usando calças justas que lhes apertam as partes e sobressaem a barriga. 

e eu. me olho no espelho e não acredito que o tempo passou tão depressa que nem percebi que não sou mais menina. muita coisa mudou dentro de mim, mas tem uma boa porção que continua na mesma. 
é difícil saber da contagem dos hormônios, da leitura do colesterol, dos ossos com aspecto de Suflair. é estranho me olhar no espelho e ver rugas e cabelos pálidos e mesmo assim enxergar dentro dos olhos a essência de sempre. é como se eu estivesse em outro corpo...
aprender envelhecer, se preparar para a morte, ser consciente da finitude deveriam ser assuntos obrigatórios nas rodas, nas escolas, nos meios. sem nenhum tipo de tabu (detesto essa palavra!) ou depressão, só tratados com a mesma naturalidade com que falamos da profissão, da infância, do filho, do futebol. 

talvez a vida fosse mais ampla, os sonhos mais possíveis e os problemas menores se a consciência do tempo e suas marcas estivessem para nós com a mesma simplicidade dos outros assuntos que nos compõem. 

de uma forma ou de outra, estamos todos a tentar enganar os ponteiros e a acreditar que temos ainda muito tempo. 

   

sexta-feira, 25 de julho de 2014

tempo


Não brinco com o tempo.
Já sei como ele é: rápido no gatilho, traiçoeiro, não espera a gente contar até dez para puxar arma e disparar.

Apesar de sua natureza ser assim, tão indomável, procuro tratá-lo bem, com carinhos, atenções, planejamentos.

As vezes consigo enganá-lo e faço duas, três, quatro coisas numa vez só. Quando dá certo, comemoro. Quando ele descobre, me castiga, exige que eu descanse e lá se vão algumas preciosas horas pelo ralo.

Aprendi uns truques para aproveitá-lo melhor: se estou enfiada num congestionamento imenso, aproveito para escutar disco novo, reparar na paisagem, gravar pensamentos, saber das notícias, tirar sobrancelha; na sala de espera do médico, eu termino o livro, respondo emails, leio o jornal; a fila do mercado me serve para reparar ao redor, escrever os planos da próxima viagem, dar uma conferida nas capas de fofocas. E assim por diante.

Cometo também o que muitos chamam de perder tempo e que eu acho que é ganhar: tenho lugar preferido na cidade, é silencioso e solitário, gosto de ficar lá uma ou duas horas sem fazer nadinha, sem acumular função, sem leitura, sem telefone; só fico, deixo que os ponteiros girem e que o pensamento fique solto para se largar pro lado que quiser.

Sei que meu tempo é muito bem aproveitado quando converso com meus filhos, quando recebo os amigos, quando brinco com o cachorro, quando o gerente do banco concorda comigo, quando ouço pela trigésima vez a mesma história que meu pai conta, quando o jantar fica pronto.

Agora, o tempo excepcionalmente bem aproveitado é aquele que fica na cabeça, não de um evento marcante e grandioso, mas de um dia qualquer, no meio do calendário, que se solidifica para sempre nos cartões da memória como prova de uma época inteira. Para os dias especiais assim, o tempo se multiplica e se refaz toda vez que eu fecho os olhos e volto a ele: como era bom brincar no sítio da tia Sofia!


Com música fica assim.