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quarta-feira, 28 de maio de 2014

saudações aos que têm coragem



Sempre amei feito ampulheta. A areia que caía era a rotina ordinária que ia matando, devagarzinho, todo o sentimento. Umas demoraram mais a escorrer, outras deslizaram feito água. Sabia que o fim tinha hora para chegar e ficava observando o conta-gotas do tempo.
Entendi que, como tudo na vida, o amor tem começo, meio e fim.

Alegrava-me os começos: flores na porta, cartões inesperados, declarações constantes. Olhos em brilho, faces coradas, roupas novas. Corpos ardendo.

Quando alcançava o topo, a alegria absoluta, já sabia, era hora da descida. Com medo dos dias que viriam depois, me fechava e me preparava para a derrocada.

O final se aproxima lento, manhoso, cheio de artimanhas e dúvidas. Vem andando feito raiz de árvore agarrando os pés, a alma. Faz perder o sono. As unhas ficam sem esmalte e só se enxerga em mono. Ele dá voltas, mas chega um dia e se anuncia.
Lágrimas, juras inversas, o avesso. As vezes o avesso do avesso.

Mas uma ampulheta sempre pode ser virada. E o que está lá no fundo tem chance de cair de novo. Algumas vezes fiz a manobra. A lógica é a mesma quando o vidrinho alcança os 180o. A areia escorre e tudo se repete.

Cansei.

De agora em diante, a ampulheta do amor não faz mais parte de mim. Entrei numas de não ter cronômetro para o fim, de não ter fim, de embarcar no feliz para sempre. Quem se arrisca?


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

perpetuum móbile – porque nenhum amor acaba


Os amantes se separam, se vão. Somem no tempo e no espaço. Mas nenhum amor acaba.

Os amores sempre continuam e continuam sempre. O amante vai e o amor fica num objeto da sala, no cheiro de um livro, na cor do dia, numa palavra, num sotaque, na fumaça do cigarro – não há lugar em que o amor passado viva mais que na fumaça do cigarro; no primeiro gole, talvez.

A lembrança do amor é o próprio amor. E se ela vive aqui e ali, é só porque o amor também vive.

Há mais amor na coleção de não-amor do que em qualquer outro lugar.

O amor do passado, que vive no presente e que talvez se junte a outros ainda, não é do tipo que faz mal, que move montanhas ou que desassossega a alma. Ele só está por ali, por aqui, a pairar feito Gasparzinho. A contar um pouquinho sobre a vida que tivemos, lembrança não-autorizada da própria biografia.

O amor do passado as vezes provoca curiosidades: uma espiadinha na vida, uma vontade de saber, um relato de episódio, recorte de momentos...

Sempre que alguém vai embora, deixa um pouco de si no outro. E esse deixar é o amor que continua sempre e sempre continua e faz parte da gente como todas as outras coisas.    

Amor é moto-contínuo.