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quarta-feira, 28 de maio de 2014

saudações aos que têm coragem



Sempre amei feito ampulheta. A areia que caía era a rotina ordinária que ia matando, devagarzinho, todo o sentimento. Umas demoraram mais a escorrer, outras deslizaram feito água. Sabia que o fim tinha hora para chegar e ficava observando o conta-gotas do tempo.
Entendi que, como tudo na vida, o amor tem começo, meio e fim.

Alegrava-me os começos: flores na porta, cartões inesperados, declarações constantes. Olhos em brilho, faces coradas, roupas novas. Corpos ardendo.

Quando alcançava o topo, a alegria absoluta, já sabia, era hora da descida. Com medo dos dias que viriam depois, me fechava e me preparava para a derrocada.

O final se aproxima lento, manhoso, cheio de artimanhas e dúvidas. Vem andando feito raiz de árvore agarrando os pés, a alma. Faz perder o sono. As unhas ficam sem esmalte e só se enxerga em mono. Ele dá voltas, mas chega um dia e se anuncia.
Lágrimas, juras inversas, o avesso. As vezes o avesso do avesso.

Mas uma ampulheta sempre pode ser virada. E o que está lá no fundo tem chance de cair de novo. Algumas vezes fiz a manobra. A lógica é a mesma quando o vidrinho alcança os 180o. A areia escorre e tudo se repete.

Cansei.

De agora em diante, a ampulheta do amor não faz mais parte de mim. Entrei numas de não ter cronômetro para o fim, de não ter fim, de embarcar no feliz para sempre. Quem se arrisca?


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

da chegada do sublime


Eu não formei muitos pares. A inclinação de interesse na vida alheia sempre me fez preferir relacionamentos longos, com mergulho na vida do parceiro, conhecimento das particularidades, essas coisas.
Mas me envolvi com tipos variados.

Tive namorado que era perfeito para os programas de música. Se eu não lembrava o nome de um compositor, ele revelava certeiro: Vicente Barreto! Antes de eu saber dos shows que aconteceriam na cidade, ele chegava com as entradas. Disco novo no mercado?, eu conhecia todos antes do lançamento. Mas ninguém ama uma pessoa só porque ela também é fã do Tom Jobim.

Um outro me ensinou a me divertir. Me levava para dançar, saracoteávamos até o corpo não aguentar mais. Teatro, cinema, parques... a vida acontecia na hora do recreio. Mas ninguém ama um homem só porque ele sabe curtir os prazeres.

Depois veio aquele das conversas intermináveis sobre assuntos inesgotáveis. Falávamos sobre tudo e tudo nos interessava. Horas e horas de papo. Mas na prática, ninguém ama ninguém por conta de suas teorias.

Também passei pela fase de ser mantenedora da felicidade alheia. Jactância de papel importante: sem mim, a criatura não poderia ser feliz. E me esforçava em cuidados, preocupações, abdicava de minhas vontades para lhe ceder meiguices. Mas ninguém ama quem lhe empalidece os cabelos pelo prazer de ser cuidado.

Com tantos tropeços e sem os entendimentos claros na cabeça, o amor chegou. O amor chegou e pronto, se estabeleceu sem explicações, com um monte de informações contraditórias e situações antes insuperáveis. Ele não gosta de Paulo Cesar Pinheiro?, e daí? Ele não vai a festas?, ótimo, ficamos em casa. Não há teorias imensas?, melhor, sobra tempo para os beijos. E assim por diante.

Eu não sei o que define o amor, o amado, o amável, o amante. O que eu entendi é o que ele me causa, no que me transforma e como modifica minha existência. Também saquei que é assim que quero me sentir pro resto da vida e que não há outra forma de viver de agora em diante, a não ser esta, dentro do sublime.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

do amor que não se repete - e se repete sempre.


Eu tive muitas mães na minha infância. Uma rua inteirinha de mães que me chamavam pelo nome, pelo apelido, pelo sobrenome, pelo nome dos meus irmãos, dos meus colegas, me chamavam por a filha da Reny, a filha do Paulo.

As mães da minha infância eram minhas e de toda a rua. Brincávamos livres: bola, bicicleta, rolimã, bets, conversinhas, esconde-esconde. E todos obedecíamos em uníssono ao toque de recolher da primeira que chegava à janela e anunciava o relógio, o fim da zoeira. Desmontávamos cenários, carregávamos objetos e seguíamos... cada um para a própria casa, a obedecer a própria mãe que tinha ordem igual a qualquer outra: banho, jantar, dentes e cama.  

O nosso respeito era igualzinho para todas. Cada uma tinha total autoridade sobre nós. As ordens pareciam vassouras gigantes que empurravam toda gurizada de um único jeito. Fomos, na rua da minha infância, todos criados iguais. E quando um assunto grave era denunciado, uma perna quebrada no futebol, um bêbado rondando a rua, um vidro estilhaçado por bola, as mães logo se reuniam para discutir providências e anunciar nosso novo modus operandi.

Cresci. Crescemos. Cada um buscou a própria vida.

Hoje sou mãe de um casal. E tenho muitos outros filhos e filhas. Não há mais brincadeira na rua, mas nas primeiras horas do meu mais velho, eu e todas as mães organizávamos a bagunça no condomínio e cabia a cada uma de nós, e a todas, zelar pelo bem estar da turminha. As preocupações maternas se estendiam por todos aqueles que tinham altura parecida com a do Dé. Quanta preocupação com todos eles...
As amigas da Lívia viraram minhas filhas e sempre estou a pensar nelas também, no presente, no futuro, a desejar que a vida lhes seja boa e a tratar de conselhos e falas quando necessário.

Melhor é saber que os meus filhos também tiveram e têm muitas mães. O Dé já tem idade suficiente para não precisar dessas batutas, mas a Lívia ainda dança conforme nossa música. E hoje, quando preciso de cuidado especial, fora do meu controle, passo a mão no telefone e converso com a mãe substituta a entregar a cria com a certeza dos mesmos cuidados.

Mãe só tem uma e todas são iguais e são mães de todos...


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

a onda que se ergueu no mar...


Encontrei a solidão. E ela era sem cor e dura e feia e forte. Estendeu-me a mão, seca e áspera. Convidou-me para dançar e sua música era suave e seus passos tranquilos e ela me fez flutuar...


Nos entendemos bem, formamos par: dupla inseparável, proteção mútua. Eu sabia, ela não deixaria que a vida me distraísse, que o mundo girasse, que o corpo tivesse calafrios. E eu a respeitaria, protegeria, a guardaria a chaves, cadeados, correntes, redes, lençóis.

A solidão me deu presentes: livros, músicas, silêncios, calmaria, quietude.

Um dia, sem aviso nem convite, o amor chegou. Fez confusão, abriu todas as portas, destrancou os medos, libertou as vontades e rompeu nosso acordo. Tratou de nos separar.

O amor era colorido e tinha linhas diferentes, sorrisos, animação, sol, estrelas, concentração. Água fresca. O amor me seduziu porque me fazia sorrir, porque me deixava cantar e porque me desvendava para o outro, o próximo, o mais próximo.

O amor permitia a divisão e a vontade. A liberdade e a prisão. O sim, o sim, o sim.

Confiei no amor e em suas promessas. Traí a solidão e me entreguei a esse novo parceiro.

Descobri que o amor também é onipresente, acompanha e preenche todos os instantes, os espaços. O amor invade a alma. E gosta do perigo: corda bamba, beira de precipício, olhos nos olhos, corpo em chamas, passarinho solto.   

O amor não deixa espaço vazio. E quando a solidão tenta se aproximar, ela já não tem boa música e incomoda e atrapalha e perturba e enlouquece.

A solidão fica ali, escondidinha, a espiar. 
O amor não pode esperar!




sexta-feira, 1 de novembro de 2013

perpetuum móbile – porque nenhum amor acaba


Os amantes se separam, se vão. Somem no tempo e no espaço. Mas nenhum amor acaba.

Os amores sempre continuam e continuam sempre. O amante vai e o amor fica num objeto da sala, no cheiro de um livro, na cor do dia, numa palavra, num sotaque, na fumaça do cigarro – não há lugar em que o amor passado viva mais que na fumaça do cigarro; no primeiro gole, talvez.

A lembrança do amor é o próprio amor. E se ela vive aqui e ali, é só porque o amor também vive.

Há mais amor na coleção de não-amor do que em qualquer outro lugar.

O amor do passado, que vive no presente e que talvez se junte a outros ainda, não é do tipo que faz mal, que move montanhas ou que desassossega a alma. Ele só está por ali, por aqui, a pairar feito Gasparzinho. A contar um pouquinho sobre a vida que tivemos, lembrança não-autorizada da própria biografia.

O amor do passado as vezes provoca curiosidades: uma espiadinha na vida, uma vontade de saber, um relato de episódio, recorte de momentos...

Sempre que alguém vai embora, deixa um pouco de si no outro. E esse deixar é o amor que continua sempre e sempre continua e faz parte da gente como todas as outras coisas.    

Amor é moto-contínuo.


sábado, 11 de maio de 2013

ponte de riquezas

Filha, Filho,

Os acontecimentos mais importantes da minha vida têm relação direta com vocês. 
Todos os dias, todos!, eu os observo em sigilo. E vou trazendo para minha vida as lições que aprendo com vocês. O nosso amor é ponte, que leva e traz coisas. De todos tipos, todas as cores, todos os sentidos.

É privilégio dos maiores sentir o amor no grau mais alto, mais puro, mais libertador... Ter na vida um amor maior que a própria vida! As mães sentem isso.

Mas eu, eu tenho mais. Tenho vocês dois como filhos, que são pessoas muito interessantes, cada um do seu jeito, cada qual com suas especialidades. Não há sorte maior! 
Não tenho crenças, mas até chego a rezar para agradecer a beleza de ser mãe de pessoas tão bacanas. 

Braço de ouro vale dez milhões!

É impressionante como o jogo mudou e hoje eu encontro em vocês amparo, conselho, ajuda, proteção e mais uma penca de coisas que até pouco tempo era ainda via de mão única. 



Lívia, você me concede, diariamente, bom humor, inteligência, transparência, beleza, carinho. Sentidos abertos para a leveza!



Dé, todos os dias você me emociona, me alerta, me acalma, me intriga, me coloca em debates. Mente atenta para as mais profundas reflexões! 




Vocês dois são complementares - duas vidas que dão sentido e completam a minha.

Não sei o que seria se não fosse mãe. Teria mais dinheiro, mais silêncio, mais tempo. Coisas que gosto e prezo. Mas me faltaria a maior experiência que uma mulher como eu pode ter. Me faltaria sentido, amor, pensamentos. Me faltaria luta, persistência. 
Seria árvore sem galhos, sem frutos, sem flores. 

O bom disso tudo, é que não acaba. Termina na hora de recomeçar!

Vocês carimbaram minha existência com o melhor que uma pessoa pode ter. E por isso, só por isso, a vida já vale todas as penas. 

Um grande beijo com todo meu agradecimento!







segunda-feira, 6 de maio de 2013

os grilos são astros


Filha,

Você é uma criaturinha tão incrível! Eu sei que já disse isso um milhão de vezes, mas me faz feliz reparar e repetir à exaustão: se eu não fosse sua mãe, queria ser sua colega de escola, sua amiga de conversas, sua companhia de shopping, sua vizinha ou qualquer outra coisa que permitisse estar bem perto de você e para desfrutar a maravilha de humor que você tem, sua precoce sensibilidade para as coisas do mundo e seu gatilho tão rápido...

Estar perto de você e observá-la me comove e me impulsiona, me orgulha e me acalma, me alegra e dá esperanças na humanidade.
O mundo precisa mesmo de pessoas como você!

Apesar de sempre lhe falar da minha admiração, gosto de escrever aqui no blog para que você perceba o tamanho do meu amor de outra forma, quietinha, aí, no silêncio do seu quarto...

Eu adoro isso aqui, dá uma olhadinha!

Um beijo, borboletinha

o narizinho mais lindo do mundo


terça-feira, 12 de junho de 2012

ah!, o amor...

lembra do Pepe Le Pew? o gambá doidinho que se apaixonou por uma gatinha que ele podia jurar, com a pata em cima da bíblia, que era didelfídeo como ele. pobre Pepe, tão apaixonado, tão cego de amor, tão francês...


e a gatinha Penélope? tinha tanta pena dela também: tão gata, tão livre, tão felina, tendo que correr, ferir, fugir de um apaixonado inconveniente.



pode parecer incrível, mas o casal era perfeitinho. porque ele, dono de uma paixão exacerbada, arrebatadora, de um romantismo a toda prova, precisava, claro!, de um ser para amar, uma musa que inspirasse constantemente aquele mar de loucuras... o saco sem fundo desse amor só era possível porque ela não ligava a mínima, sendo para sempre o objeto de seu desejo... já ela, que tinha queda pela liberdade, que gostava de ser dona de seu destino e de suas escolhas, toda vez que fugia dele, colocava isso em prática. reafirmava sua independência e seu poder de escolha toda vez que lhe dizia não. acho que por isso sempre passava debaixo de uma escada, de uma lata de tinta, de um móvel recém pintado e tatuava a listra branca na imensa calda e recomeçava a história...


os bichos precisam das situações mais estranhas para viver...