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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

insônia

não tenho sono. deveria comprar uma camisa azul, lenço, encher o peito de medalhas, ser escoteira.
aqui do quartinho, estou sempre alerta.

espécie de fortaleza, as quatro paredinhas me protegem e me lançam no mundo. silêncio lá fora. ruído por dentro. ruindo, roída, indo e voltando.

a madrugada é, para mim, um lugar difícil. os pensamentos se colocam em fila, em seguida se atropelam, parecem que procuram saída de emergência; no meio do caos, se pisoteiam.
não há lucidez na madrugada. ou há, muita.

procuro os passos da sobriedade, mas sei que eles só chegam com o sono. e eu não tenho sono.

no mundo sem fim da insônia, lembrei de uma amiga que me disse para tomar uns florais. debocho. é como tentar vencer um gigante perigoso armada de uma margaridinha mal-me-quer-bem-me-quer.
aproveito o tempo livre e puxo pétala por pétala, cada uma me diz uma coisa. sigo empatada.

imagino algumas situações e no tic-tac do relógio elas ganham força, forma, coerência e vivem. se as liberto, me pegam; se as sufoco embaixo do travesseiro, me assombram.

a máscara de oxigênio é a fumaça do cigarro. a saída de emergência tem tarja preta.

não dormir está me deixando doente. mas tem uma coisa que gosto muito quando as noites são longas: há uma satisfação inexplicável por saber que posso perambular pela casa, fazer um bolo, sentar no sofá, descer até o carro... essa falsa liberdade de ir e vir nas altas horas, sempre, sempre, sempre me lembra da tortura que eram minhas insônias da infância. só podia ficar quieta na cama. nada de luz, de levantar, de movimentos. nada de nada. talvez minha insônia seja a bandeira de minha maioridade, meu grito de independência, meu motivo de espada, agora posso fazer o que eu quiser.

menos dormir, claro.  

terça-feira, 30 de setembro de 2014

um milhão de carneirinhos

cara insônia,

venho por meio dessas mal traçadas linhas pedir que você vá embora. mui educadamente solicito sua retirada dessa cama, desse quarto, daquela sala e da outra, da cozinha, do quartinho. dessa casa. 

vá! você não é bem vinda aqui, não gosto como se comporta: esse silêncio de pedra, essas sombras na escuridão, essa invasão de pensamentos ruins. 

caminhe pelos fusos e faça companhia àqueles que agora precisam estar atentos e fortes para o expediente. ajude a entediada balconista búlgara que boceja sem ver viva alma entrar em sua lojinha. ou dê forças ao médico malaio que pestanejando dobra o plantão. ainda, empreste ânimo ao agricultor australiano que, enxada nas mãos, trata com alguma lombeira do pão de amanhã. 

certamente há bilhões no mundo que precisam muito estar acordados agora. dê uma olhada, vague pelo planeta, espie a humanidade. 
você será útil para tantos, não precisa ficar aqui a me acompanhar durante a noite. 

me cuido sozinha e melhor longe de você. 
veja, tenho cama agradavelmente perfumada, quarto quentinho, música suave e bem baixinha; tenho também uma dúzia de sonhos para sonhar, o corpo que pede descanso, os olhos que queimam; fiz minha parte pela melhoria do mundo, trabalhei, fui solidária, lavei a louça e varri a casa. me falta a merecida hora do descanso, do descaso.
acaba sendo muito mesquinho de sua parte querer insistir aqui, nessas conversas que sempre começam quando já é, e ainda não é, dia seguinte.

você bem sabe que posso, a qualquer momento, me levantar e te expulsar, né? basta a decisão de caminhar até a caixa de remédios. uma pílula e o tiro fatal em sua insistência. mas prefiro mil vezes que nossa despedida aconteça com calma, com beleza, com preguiça. quero que você se retire como quem sai de sessão de massagem: passos leves, tranquilidade nos músculos, relax total. 

reclamo pelo direito de me decidir pelas madrugadas, se as vivo ou me adormeço... preciso fazer isso sozinha, não aceito mais sua imposição. 

reúna tudo que é seu e se esqueça de mim! 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

rivotril em 3, 2, 1...



Eu queria fechar os olhos e ir. Rodar feito João Gilberto na direção do Monza. Deixar cair prum lado e outro, vela na brisa.

Corpo solto no mar, estendido de norte a sul, mãos leste a oeste.

Leveza de gaivota, pensamentos soltos, pés descalços.

Queria mais, queria ser pluma no gesto, palavra e ação. Queria ter a beleza etérea das bailarinas a hipnotizar no primeiro olhar.

Como seria bom flutuar por aí, passear de sítio em sítio e ser confundida com miragem, fantasma, sereia. Ilusão que se materializaria com voz suave. Quem me olhasse acharia que eu, suspensa, dominava a gravidade e fazia de todos os lugares a minha lua particular.

Assim, suave, branda, calma talvez me fosse permitido adormecer.


A insônia me provoca, me maltrata, me pinta o rosto.


Ela apura os sentidos: audição de morcego, biossonar, a captar qualquer decibel da rua, da madeira da casa estalando, de um carro a quadras de distância; visão de rapina, que enxerga longe, de felina, que desvenda formas no escuro, pupilas dilatas; olfato de perdigueiro, alguém fumando no andar de baixo, pétalas florescendo na praça da esquina, o vidro de perfume aberto. Fico à flor da pele, calor, frio, arrepio... 
Tudo em escala.

Não dormir é como aquelas drogas inglesas que se vendem com a promessa de ativar tudo. É estar entorpecida ao contrário, no antônimo. É o corpo a gritar na calada, é abrir os olhos para o escuro.

Não dormir é uma praga que revira a alma, causa dependência e estraga a noite, que é o melhor do dia.    
   


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

o que a insônia me dá:



espaço, tranquilidade, propriedade, desarticulação.
silêncio, sossego, saudade, solução.
amor próprio, coragem, cara limpa, compreensão.
leitura, Bach, Baco, imensidão.
olhar, possibilidade, além, equação.
riso, guiso, siso, contra-mão.
choro, beleza, dentes, perdão.
cuidado, cadência, ciência, certidão.     
tristeza, sono, solidão? isso não!