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terça-feira, 30 de setembro de 2014

um milhão de carneirinhos

cara insônia,

venho por meio dessas mal traçadas linhas pedir que você vá embora. mui educadamente solicito sua retirada dessa cama, desse quarto, daquela sala e da outra, da cozinha, do quartinho. dessa casa. 

vá! você não é bem vinda aqui, não gosto como se comporta: esse silêncio de pedra, essas sombras na escuridão, essa invasão de pensamentos ruins. 

caminhe pelos fusos e faça companhia àqueles que agora precisam estar atentos e fortes para o expediente. ajude a entediada balconista búlgara que boceja sem ver viva alma entrar em sua lojinha. ou dê forças ao médico malaio que pestanejando dobra o plantão. ainda, empreste ânimo ao agricultor australiano que, enxada nas mãos, trata com alguma lombeira do pão de amanhã. 

certamente há bilhões no mundo que precisam muito estar acordados agora. dê uma olhada, vague pelo planeta, espie a humanidade. 
você será útil para tantos, não precisa ficar aqui a me acompanhar durante a noite. 

me cuido sozinha e melhor longe de você. 
veja, tenho cama agradavelmente perfumada, quarto quentinho, música suave e bem baixinha; tenho também uma dúzia de sonhos para sonhar, o corpo que pede descanso, os olhos que queimam; fiz minha parte pela melhoria do mundo, trabalhei, fui solidária, lavei a louça e varri a casa. me falta a merecida hora do descanso, do descaso.
acaba sendo muito mesquinho de sua parte querer insistir aqui, nessas conversas que sempre começam quando já é, e ainda não é, dia seguinte.

você bem sabe que posso, a qualquer momento, me levantar e te expulsar, né? basta a decisão de caminhar até a caixa de remédios. uma pílula e o tiro fatal em sua insistência. mas prefiro mil vezes que nossa despedida aconteça com calma, com beleza, com preguiça. quero que você se retire como quem sai de sessão de massagem: passos leves, tranquilidade nos músculos, relax total. 

reclamo pelo direito de me decidir pelas madrugadas, se as vivo ou me adormeço... preciso fazer isso sozinha, não aceito mais sua imposição. 

reúna tudo que é seu e se esqueça de mim! 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

na cama, eu fico pensando


As vezes levanto sonhando. Tem manhãs que nem acordo.
Às seis desperto, as sete caio, às oito tenho vontade de voltar.
Me delicio com os dias de preguiça e as noites de grande disposição. 
De dia eu faço graça, à noite dou bandeira.
Bobeira!
Lençol fresquinho, coberta quente e travesseiro fofo são meu passaporte. Relógio é inferno. Inverno é verão e o escurinho cai bem a qualquer hora.
Meia-luz, meia lua, meia noite, mais meia hora, meia volta, volta e meia, pés sem meia.
Gosto de pijamas. Pijamas curtos, longos, macios, sem manga, que cobrem, que despem, que deixam em pêlo.
Gosto de água. Ao lado, fresquinha. Antes, no banho. Pra beber, pra benzer, pra banhar...
Gosto de silêncio. Silêncio de passarinho pela manhã. Silêncio de sussurros à noite. Silêncio de boas conversas a qualquer hora.
Na cama a realidade não tem vez. Na cama os prazeres do corpo e dos sonhos; dos sonhos de dormir e dos sonhos de acordar. Na cama até o sol raiar, até a lua subir, até o outro dia. E o outro.
Na cama, pés, beijos, braços. Luta. Flores.
É na cama que a vida acontece!


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

zzzzzzzzzz


Consigo dormir com ônibus acelerando debaixo da minha janela, com moto, carro e buzina; com gente falando, barulho de motor, apito, sirene e radio alto; com televisão ligada, preocupações na cabeça, filho fora de casa e avião cruzando o céu; consigo dormir ouvindo música, lendo livro, vendo filme; consigo dormir quando chove, está muito frio ou faz calor insuportável; durmo com fome, de mau humor, animada, com sede ou irritada. 
Até sem sono eu durmo… mas um mísero pernilongo, um pernilongo de nada, me enlouquece!!!