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terça-feira, 4 de novembro de 2014

a chuva que transporta

Da janela do quartinho vejo a chuva que se aproxima. Chumbo no céu, muito verde balançando no vizinho e um cheiro de infância.
Gosto quando as nuvens desabam. Não deve demorar muito para acontecer.

Daqui, espio a natureza se transformando e imagino rios correndo furiosos, a serra do mar em rodopio, a areia da praia furada pelos pingos.

Fujo desse planalto e fico em outro nível, a lembrar de quando era pequena e vi tempestade no mar. Raios, águas doces e salgadas em agastada mistura, vendaval. Não lembro quantos anos tinha, mas sei bem que fiquei muito impressionada. Era verão e todo aquele movimento não acalmava o calor. Era Santa Catarina e a reunião de céu, terra e mar não nos tirava o sotaque “gente!, que chuvarada!”. Era dia e todas as luzes estavam acesas.

As palmeiras penteadas pro lado do continente, avenidas no curso das águas, o comércio fechado. Lembro de um rapaz carregando um poste de algodão doce na prancha de isopor que flutuava guerreira pela correnteza da rua e meu não entendimento sobre o porquê de salvar a mercadoria assim, se ela não serviria mais para o consumo tanto que chovia em cima.

A chuva me afastava da brincadeira na praia, mas atiçava meu pensamento e eu navegava por outros lugares e me imaginava Noé, Poseidon, Zeus, Fred Astaire.
Me via dona absoluta de aventuras incríveis, críveis.


Eu ainda era menina e a chuva já me levava para outros lugares...   


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

a vida se repete na estação



Eu mudei de casa recentemente. Como da última vez e da penúltima e da anterior e em todas as vezes, e acho que como acontece com todo mundo, os espaços são diferentes. Outras paredes, outras metragens, outras composições. Mas a coleção de objetos que insisto em carregar é a mesma.

Há coisas que eu sei que sempre me acompanharão e elas vão ganhando a companhia eterna de outras que chegam e se estabelecem como parte da vida, como narrativa das importâncias até aqui e depois.

Minha casa se transformou no cofre da minha memória e tudo tem história sagrada: caixinhas, quadros, girafas, rádios, baús... tudo conta um pouco de mim, dos amigos, da família, das pessoas que quero bem e que bem me querem.

Nesses momentos faço o treino do desapego, de deixar para trás o que serve muito bem para outros e que já não me diz nada. Sofro com o medo do arrependimento, daquele que vivemos quando arrumamos os armários a pensar que iremos emagrecer uns quilos e ainda caber na calça novinha que está à beira de ir pro espaço, ou daquela moda que poderá voltar e permitir que não se saia pelas ruas como se estivéssemos acabado de desembarcar do túnel do tempo, ou ainda a difícil consciência de transformar em pano para limpar os vidros a camiseta toda esburacada...

Parece tarefa boba e desimportante, mas tem nessa mudança de espaço muito de se saber quem é, de se reconhecer nas próprias escolhas, de encontrar a medida da peneira, de olhar pra trás e enumerar a vida.
Foi  isso que aconteceu comigo. Ao ver fotografias; embalar taças; encontrar entradas de cinema, shows e teatro; descobrir diários antigos, anotações em agendas velhas, cartas e bilhetes de outros tempos. O que está na memória muitas vezes tem forma, cor, cheiro, é possível ao tato...

A história da gente é feita de permanências e rupturas! 



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

"o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente." - Mário Quintana


De vez em quando meu passado vem me visitar. Chega, bate à porta, nem espera resposta e entra. Não diz a que veio, mas me revira, chacoalha, joga pro alto e espera, que como gata, eu caia em pé. 

Coisas que não lembrava mais, sentimentos que julgava perdidos, peças desse tabuleiro que é minha vida ressurgem. 

Quem é que pode se separar da própria vida? Ninguém! A nebulosa que a distância cria dos fatos, não os apagam. 

O mais engraçado de tudo é que mover uma peça significa rever o tabuleiro inteiro e num repente há uma vida toda para reconhecer por cima do ombro, com o canto dos olhos, dentro do receio das lembranças.

Tenho medo do passado. Medo que mostre que eu já não sou eu mesma ou, ao contrário, que me revele que eu ainda sou a mesma. 

Não há em mim a vontade de voltar a ser criança; a vida adulta me deu liberdade, autonomia, independência e outras ilusões que uso pra me consolar (meu mundo é hoje!)... mas há alguma coisa da época em que vivia sem pensar, medir ou ponderar que gostaria muito de ainda reconhecer em mim. Hoje, tudo tem consequência, tem motivo, tem razão, razão, razão.