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segunda-feira, 26 de maio de 2014

na fumaça do cigarro



Comecei a achar que essa tristeza que não passa é meu estado natural. Talvez a minha linha-mestra seja essa, uma eterna lágrima que se precipita mas não cai.
As variantes em torno disso, momentos de alegria suprema e de sofrimento desesperante, são os temperos que me tiram da pasmaceira do cinza.

Os dias vão passando e eu as vezes me revolto. Para vingar solto gargalhadas, danço, bebo, como chocolate, brinco com o cachorro, observo os filhos, ouço o bumbo da Mangueira, tomo banho quente. Como desforra, o reconhecimento dos pequenos prazeres que chacoalham a alma e declaram amor à vida.

Teve um tempo que eu achei que deveria atingir felicidade plácida como modus operandi. Obrigação impossível. Larguei mão e enfileirei os dias para poder observar melhor o que poderia viver em cada um. Me fiz assim, um dia de cada vez. Só hoje.
Sem projeções, sem lamentos, sem grandes perspectivas. O que tenho para hoje é o grande material para a vida inteira. Tudo resumido no presente do indicativo.

A ventania do futuro ainda me castiga. Vez ou outra me pego pensando sobre o dia de amanhã, os sonhos, a sobrevivência, a aposentadoria, a pousada em Antonina. Faço esforço para a distração desses pensamentos. Choro, mordo os lábios.
Tenho pena de deixar as ilusões trancadas. E me assusto quando penso que virei pessoa sem devaneios, sem fantasias, sem planos: mendiga a recolher farelos da existência.

Percorro os caminhos internos e descubro lá atrás que tudo isso é medo da decepção. É fraqueza de não querer lidar com o adverso. Anemia no caráter para o desgosto.
De alguma forma, essa fragilidade me coloca de pé para combater os desenganos ao mesmo tempo que os coleciono.

Procuro não exercitar a queixa e me atirar de verdade em tudo que tenho, que não é pouco. Sem garantias, vivo hoje.
Amanhã? Não sei. Amanhã é terça-feira e tudo pode mudar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

"o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente." - Mário Quintana


De vez em quando meu passado vem me visitar. Chega, bate à porta, nem espera resposta e entra. Não diz a que veio, mas me revira, chacoalha, joga pro alto e espera, que como gata, eu caia em pé. 

Coisas que não lembrava mais, sentimentos que julgava perdidos, peças desse tabuleiro que é minha vida ressurgem. 

Quem é que pode se separar da própria vida? Ninguém! A nebulosa que a distância cria dos fatos, não os apagam. 

O mais engraçado de tudo é que mover uma peça significa rever o tabuleiro inteiro e num repente há uma vida toda para reconhecer por cima do ombro, com o canto dos olhos, dentro do receio das lembranças.

Tenho medo do passado. Medo que mostre que eu já não sou eu mesma ou, ao contrário, que me revele que eu ainda sou a mesma. 

Não há em mim a vontade de voltar a ser criança; a vida adulta me deu liberdade, autonomia, independência e outras ilusões que uso pra me consolar (meu mundo é hoje!)... mas há alguma coisa da época em que vivia sem pensar, medir ou ponderar que gostaria muito de ainda reconhecer em mim. Hoje, tudo tem consequência, tem motivo, tem razão, razão, razão.