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sábado, 8 de março de 2014

sobre tudo que existe


Há meses procuro uma cadeira para acomodar o esqueleto com conforto e sem colecionar os prejuízos de horas na frente do computador. Faço meticuloso test-drive em todas: altura, coluna, pernas, braços, boniteza, cor, estado, história.

Encontrei na minha memória o modelo ideal, coisa antiga, do tempo que meu pai tratava de suas lições do Colégio Estadual. Madeira, pés fixos, assento arredondado e parte de trás com leve curva para pegar as costas de leste a oeste. Objeto da Cimo, a velha e boa Cimo que começou em Rio Negrinho em 1913 e veio falir aqui em Curitiba em 1982.


Escolher o modelo é um tormento a menos num mundo em que há milhares de variações. Mas é início de outro. Não é fácil encontrar uma Cimo em bom estado e num preço razoável. Como a questão envolve saúde e estética da casa, larguei mão de pensar em valor e me joguei na busca.

Hoje recebi informação do Mercado das Pulgas que o que eu queria estava lá. Coloquei meus apetrechos de escafandrista, carreguei as armas, ergui as mangas, tomei os anti-histamínicos e fui à causa.  

Para minha sorte encontrei mais, não uma, mas quatro belezinhas. Três do jeito que eu havia decidido e uma melhor, muito melhor: giratória, com descanso de braço, encosto pros lados e também de norte a sul. Fiquei louca e queria já montar jogo para sala de jantar, acomodar a família, as visitas, o cão... pensei em fazer coleção, ajustar a casa em museu interativo onde os visitantes aproveitam os objetos.


A realidade veio galopante no código dos preços. Eu precisava escolher uma. Deixei a compra para segunda-feira e voltei pra casa com a cabeça a ferver em contas. E no caminho a dúvida: quais bumbuns ocuparam a minha giratória? As pessoas que se sentaram ali, fizeram o que? Leram? Escreveram? Traçaram planos? Criaram guerras? Desenharam? Colocaram almofada para servir de cama ao gato velho chamado Mitchuca? Por onde andou minha cadeira?
Na ciranda da história os objetos são a testemunha ocular. Eles presenciaram, como criados mudos, todas as modificações da vida privada, as trocas de costumes, brigas, reconciliações, projetos de invasão. Crianças cresceram, adolesceram, casaram, se multiplicaram diante das coisas nossas de cada dia.

Por que será que mesmo assim quando estava chegando em casa vi, apoiado em poste, a derramar lágrimas de ser desprezado, um sofá abandonado a esperar por adoção? É muito desapego pro meu gosto! Ei, vizinho, recolha o seu sofá, não o transforme em entulho de calçada, arrume um lar para ele continuar seu trabalho.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

a vida se repete na estação



Eu mudei de casa recentemente. Como da última vez e da penúltima e da anterior e em todas as vezes, e acho que como acontece com todo mundo, os espaços são diferentes. Outras paredes, outras metragens, outras composições. Mas a coleção de objetos que insisto em carregar é a mesma.

Há coisas que eu sei que sempre me acompanharão e elas vão ganhando a companhia eterna de outras que chegam e se estabelecem como parte da vida, como narrativa das importâncias até aqui e depois.

Minha casa se transformou no cofre da minha memória e tudo tem história sagrada: caixinhas, quadros, girafas, rádios, baús... tudo conta um pouco de mim, dos amigos, da família, das pessoas que quero bem e que bem me querem.

Nesses momentos faço o treino do desapego, de deixar para trás o que serve muito bem para outros e que já não me diz nada. Sofro com o medo do arrependimento, daquele que vivemos quando arrumamos os armários a pensar que iremos emagrecer uns quilos e ainda caber na calça novinha que está à beira de ir pro espaço, ou daquela moda que poderá voltar e permitir que não se saia pelas ruas como se estivéssemos acabado de desembarcar do túnel do tempo, ou ainda a difícil consciência de transformar em pano para limpar os vidros a camiseta toda esburacada...

Parece tarefa boba e desimportante, mas tem nessa mudança de espaço muito de se saber quem é, de se reconhecer nas próprias escolhas, de encontrar a medida da peneira, de olhar pra trás e enumerar a vida.
Foi  isso que aconteceu comigo. Ao ver fotografias; embalar taças; encontrar entradas de cinema, shows e teatro; descobrir diários antigos, anotações em agendas velhas, cartas e bilhetes de outros tempos. O que está na memória muitas vezes tem forma, cor, cheiro, é possível ao tato...

A história da gente é feita de permanências e rupturas!