terça-feira, 8 de outubro de 2013

te sinto mais bela...


Filha,

Eu já escrevi mil vezes para você: bilhetes, cartinhas, emails, mensagens, posts no Facebook, no blog. Já fiz versinho, declarações infinitas, afirmações de amor, de respeito, de admiração.

Eu já tirei um milhão de fotos: da sua fofura de neném, dos seus sorrisinhos de criança, de seu olhar de menina e, recentemente, de suas poses de moça.

Eu já senti orgulho de tanta coisa: da primeira música que você aprendeu a cantar “Corra e olhe o céu, bom dia!”; dos versinhos iniciais que você recitou “Ou isso ou aquilo”; da sua primeira vez no palco (logo em solo, logo no Guairão); da sua primeira vez na tela (logo de protagonista, logo no cartaz); dos seus boletins; de suas soluções, de suas vontades, de sua coragem, de sua independência...

Eu já agradeci a você, aos céus.

Sempre digo que se não fosse sua mãe, queria ser sua amiga, sua colega, sua tia, sua vizinha, sua madrinha... de alguma maneira ter você em minha vida e poder fazer parte da sua!
Porque eu adoro o seu humor ligeiro, sua inteligência nas respostas, seu olhar sensível, suas ironias precisas, suas perguntas intimidadoras. Eu adoro cada pedacinho seu e adoro tudo junto, a formar uma pessoa cheia de atitude, de dignidade, de bondade.

Acho o seu cabelo lindo, admiro sua habilidade com as emendas femininas (maquiagem, unhas, etc.), gosto muitíssimo do jeito que você escreve e descreve.

Você sempre será minha filhinha, minha borboletinha, meu pedacinho de céu, meu olhar de estrela.  

Que nesse próximo ano você continue a reconhecer o bom da vida que se espalha ao seu redor, a ser puxado feito imã pela maravilha que você é!

Feliz aniversário!


(olha você aqui, aqui, aqui, aqui e aqui!)


1. grávida de cinco meses / 2. é uma menina! / 3. a brincar
4. muito amor / 5. reflexões / 6. com o cão
7. marrenta! / 8. operária em construção / 9. guria linda!

domingo, 6 de outubro de 2013

retrato

começo sem fim
sem pena, nem medos 

em voltas
      pé em Deus
      carrego todos, os meus e os seus

subo sem rumo
alcanço estrela
rolo feito pedra
        que pesa, amassa e ruína

levito
sou como pluma
         como véu e como espuma

no fim o começo de mim.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

conhecer os desejos da terra


Eu, ainda menina, comecei meus sonhos de futuro a planejar para minha vida adulta ser carteira ou caminhoneira. Sempre penso nisso, muitas vezes falo (e até já escrevi aqui). E ontem, depois de tantas vivências durante o dia e parte da noite, eu fiquei a pensar que, de alguma forma, eu cheguei aos dois objetivos. O meu ofício não se reconhece em nenhum desses nomes, mas ganho as estradas, dobro esquinas, não tenho mais parada e levo, deixo, entrego e recolho muitas mensagens. Sou ou não uma caminhoneira-carteira?

Voltei de Apucarana há pouco. A experiência com a trupe da Caravana da Poesia é muito rica e rara e cara e repleta de beleza: profissionais competentes e seres humanos da melhor estirpe.

A Caravana é viver a festa de estar de bem com a vida!

As vezes, a estrada, o asfalto, o ônibus, o vascolejar não permitem conversa e todo mundo sossega e descansa. Nesses momentos sempre me aparece alguma coisa de muito interessante pela janela e fico meio queixosa por olhar beleza sozinha sem dar tempo de dividir...
E foi assim boa parte da peregrinação da volta: me espichei nos bancos e viajei meio acordada para não perder o sonho e meio dormindo para não perder a vista – ou vice-versa.
A paisagem corre rápido demais e não dá nem pra pensar em foto. Mas gravei na retina, testemunhei solitária três guris a empinar pipa às 10 horas da manhã numa BR vazia; vaquinhas em pose a pastar em cenário estrangeiro; mãe com três filhos a andarilhar sabe-se lá de onde pra onde; casinha com chaminé em fumaça; lindo campo de trigo (e para esse houve tempo de apontar para os amigos, parar ônibus, fazer pose e tirar fotos – e eu até agora não vi nenhuma...).  

No caminho acontece tanta coisa: no caminho mesmo, lá fora, a correr na vitrine do ônibus. Mas acontece também dentro, dentro da gente (só para não escrever dentro de mim), porque a estrada é lugar de muita coisa, a travessia de um lugar para outro inspira que esse movimento aconteça dentro também. E quando isso começa me dá duas vontades: a primeira, de lançar âncora, desligar motor e parar imediatamente; a outra é de aproveitar o embalo e me jogar e viajar do Oiapoque até Nova Iorque e super levar em conta o Rosa quando tascou que “Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!”.

Aos amigos que permitiram que o trabalho se transformasse num maravilhoso encontro, todo meu agradecimento nesse texto estilo samba-do-crioulo-doido... 
E amanhã, desço a Serra do Mar para nova aventura.


domingo, 22 de setembro de 2013

menos um piá curitibano...



Esse ano miserável continua a arrancar pessoas daqui...

Hoje acordei com a notícia da partida do Paulo Chaves.

Eu tive com ele momentos muito intensos de convívio. Dividimos por oito anos a rotina, o cotidiano, os desentendimentos, as brigas, as conquistas, a luta. Cada um lutava pelo que achava justo e certo. Muitas vezes fomos adversários. Em outras, aliados. Em todas o bom combate!

O importante da história é que ele sempre foi um homem honesto, trancado em suas decências, sem deixar frestinha para circular o que não acreditava certo.

Há muita comoção nas horas de partida. Eu mal consegui segurar minha onda, quem diria a da família...

A gente sabe dessas coisas desde que nasce, mas nesses momentos, em que fica muito estampado o nada no mundo que todos somos, dá vontade de chorar. Chorar debruçada sobre o amigo por ele e por nós que ficamos por aqui a nos engalfinhar na miséria da sobrevivência diária...

Eu estou muito aborrecida, chateada, sentida com a morte de um homem bom, do bem. Um maluco que muitas vezes sacrificou os próprios sossegos para dar conta do que achava correto para o momento.
Mas, como ele mesmo nos dizia, segue o baile...

Fui...
Tudo que eu queria era estar aqui
Ser algo importante ou necessário
Hoje acordo e me deparo,
Vazio, transitório, inócuo, falso emissário
Cegueira d’alma
Verdade única: tempos de piá
Vida improvisada, pulsar acelerado
Querendo futuro já
Esquecendo de aproveitar, conformado
Os sons, as dádivas, os sinais.
(PChaves)

qualquer dia a gente se vê...



Hora de fazer as malas, abastecer o espírito, reorganizar repertório e ganhar novamente a estrada. A Caravana da Poesia tem como destino Apucarana. 305 quilômetros em linha reta, 365 de asfalto. 

Cresci ouvindo minha mãe disfarçar palavrão com a expressão "Pucarana!", no mesmo ritmo e métrica que a gente solta um "Puta Merda!". Não sei se em outros lugares, em outras famílias, em outras bocas isso também acontece, acontecia... mas na minha infância foi assim.
E por isso, o nome da cidade me lembrava tropeção, batida, descontentamento qualquer...

Hoje, sei bem, Apucarana é em tupi-guarani  "semelhante à própria floresta"; é cidade bacaninha, com cerejeiras por todos os cantos, tem pracinhas lindas, maravilha de catedral e ruas, com as molduras vermelhas do interior do estado no rodapé dos meio-fios, que levam e trazem gente tranquila... 

Depois do problema do café, da geada negra na metade dos 70, o lugar conheceu a dureza das cidades que não produzem, que não têm matéria prima, que têm gente demais e poucas opções. Viu seus filhos empobrecerem, mudarem a procura de lugares onde empenhar a força de trabalho em troca de sobrevivência mais digna. "Pucarana"! 
Mas da dificuldade a cidade saiu mais forte, inventou outras possibilidades, abriu espaço para novos caminhos, convidou indústrias, replantou o café, tem milho, soja e feijão. 
Virou a capital do boné - fabrica mais de 2 milhões por mês, sabe o que é isso, companheiro? 80% da produção nacional.
Para Apucarana eu tiro meu chapéu!
E enquanto os cães ladram, a Caravana segue...


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Com a Caravana da Poesia, em Toledo


A trupe, como sempre, curinga de possibilidades: músicas, conversas, filmes, planos, ideias. Trocas. Poesia.
O Paraná, visto por dentro, de planalto em planalto, é plano, verdinho, reto. Uma ou outra casinha no caminho que são mais solitárias que nenhuma casinha no caminho. A identificação das cidades mais exibidas, que contam nomes, dão boas vindas, te chamam pra voltar. As notícias tristes da estrada, que fazem pensar muito e agradecer. As comidas e banheiros de beira de estrada. 
O caminho... que é tão importante quanto o destino! 

Descer do ônibus em Toledo, foi que nem beber Jurema...
Um calorzinho que cai tão bem ao corpo, à pele, à alma. Chega de usar meias! Basta de cachecol! Adeus casacão!
É hora de deixar que o corpo respire, transpire, inspire. 
Animado grupo nos esperava em caravana: um carro atrás do outro, bexigas, buzinas, sorrisos. Era a procissão da poesia que nos escoltou e seguiu até a praça em que o Poetinha em bronze, em pé, com violão na mão inspirou cantoria. Vinícius de Moraes, feito Jesus em altar, recebeu nossas orações do jeito que ele mesmo as criou. 
Um dia com destino e chegada em Toledo vale por muitos!
Vinícius, velho, saravá!

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

deixa o mato crescer em paz


Eu gosto de trabalhar bem cedo. As vezes é tão cedo que ainda é ontem... e nessa manhã foi assim. Eu estava a ler, escrever e tentar há horas e o dia apareceu: o movimento dos carros na minha janela, as gentes seguindo para o trabalho, a cidade a sair de casa. De repente, novo som. Uma motosserra. Uma motosserra bem aqui no centro da cidade. Barulho infernal.

Fui à janela.

Pra minha grande surpresa, homens retalhavam a maravilhosa árvore do outro lado da rua. Logo ela, que me garantia sombra nos raros dias de calor curitibano. Logo ela, que era condomínio dos passarinhos que se aventuram à serenata matinal. Logo ela, que era parada obrigatória nos passeios do cão. Logo ela, tão grande, tão robusta, tão cheia de vida e tão firme!

Abri a janela e gritei. Eles não ouviram. Gritei mais alto. Nada. Como a motosserra é mais escandalosa, uma moça que passava na rua, cutucou o dono do serrote e me apontou. Motor desligado, silêncio. Perguntei o motivo do corte, ele levantou os ombros e com o olhar comunicou a não-responsabilidade do ato.

Mais tarde, a investigar a situação, descobri que a árvore não tinha sido atacada por cupins, não estava doente, não ameaçava transeunte. A árvore, mais saudável que eu, estava lá a cumprir o seu papel diário de árvore: fotossíntese, sombra, passarinho, cão, beleza.

No chão, galhos em toco, ninhos vazios, folhas soltas, folhas mortas. Membros sem corpo.

Quem pediu – e sabe-se lá como conseguiu! – o seu tombamento do mal foi a vizinha. As folhas e frutinhos entupiam as calhas de sua casa e ela volta e meia “tinha que chamar o homem para limpá-las”.

Pode isso, Arnaldo?

Pensei mil vezes antes de contar do meu descontentamento: avaliei, troquei de lugar, abri parênteses. Conclusão: não cabe a política da boa vizinhança nesse caso. Relações cortadas pelos próximos 50 anos, tempo para árvore voltar a ser o que era e para nós duas não sermos mais.








quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Daí


Pato Branco não tem pato e não é branca. Chão vermelho, poucos pássaros, flores cultivadas, ruas limpinhas, praça bonita e igreja enorme. Subidas, descidas e muito frio! Pato Branco tem também gente bacana, sorrisos fáceis, lareira que arde e bebida quente.

Fui até lá na companhia de Vinícius de Moraes para, como ele ensinou, reconhecer amigos. Fui a trabalho, em trajes civis: vestida com as roupas e as armas da poesia.

Convidada para uma atividade que é puro prazer, iniciei minha jornada na Caravana da Poesia desse ano lá em Pato Branco. Pé direito. Pé firme. (Ano passado tive privilégio parecido e escrevi aqui.)

Preparei conteúdo, assunto, aulas de acordo com experiências e pedidos anteriores. Encontrei pessoas que, sem saber, me conduziram a outros caminhos, me proporcionaram novas reflexões. Agora, desfilo por outras possibilidades para que a próxima jornada, que será em Toledo, seja ainda mais rica, crescente.

O ônibus da Caravana percorre via de mão dupla e isso é espetacular!

Maravilhoso também é observar os fazeres alheios, de estudantes, professores, organizadores, companheiros de objetivo.

Estou com o coração em festa por ter feito trabalho tão honroso e convivido com gente tão bacana.

ônibus que leva e traz experiências!

sábado, 17 de agosto de 2013

são tantas já vividas


Quando eu saí da rádio, trouxe comigo muitas lembranças, muito aprendizado, muita amizade, muita camaradagem... esses bens que a gente guarda no coração e carrega pela vida, a contar o que valeu, o que importa.

Mas com os valores imateriais vieram também quatro caixas de recortes desses anos todos. Duas ainda estão no carro e à outra metade me dispus a arrumar hoje.

No romance O Amor nos Tempos do Cólera, a Fermina Paza em determinado momento diz que seria bom ter um lugar pra guardar as coisas que não têm serventia prática mas que também não podem ser abandonadas pelo caminho. E noutro dia a minha amiga Sylvia falava sobre a ciranda dos trecos, quando a gente tem que tirar as coisas de um lugar e encontrar outro pra elas.

É uma pedreira essa arrumação toda. Das duas caixas, joguei poucas coisas fora. Fiquei muito emocionada com o reencontro com minha vida. Pedacinhos de papel, recados, objetos, lacinhos, cartas, cartões, chaveiros, canetas de todas as cores, fotografias, mil fotografias, deram conta de tratar de grandes momentos dos últimos 13 anos. Retalhos da minha vida, que me fazem lembrar que nesse tempo todo vivi mais dentro do que fora do prédio da rádio.

Ou, como diria o Rei, detalhes de uma vida, histórias que eu contei aqui...

desempacotar tudo, uma vez fora das caixas, as coisas precisam caminhar pra outro lugar.

melhor separar.

amiguinhos de trabalho: por um cotidiano mais divertido.

duas faces da mesma moeda.

eu, contada em quadrinhos pela Gabriela.

tranqueiras de outros tempos. 

coleção de selos.

momentos.

mais momentos.

muitos momentos.

Perdão! Mas para essa pieguice de relembrar emoções, só o bom e velho Roberto...



sexta-feira, 9 de agosto de 2013

o tempo da língua


Em leituras que não têm fim por conta de um trabalho, eu revisitei e descobri textos belíssimos. Contos, crônicas, poesias, letras de música... A cada cinco minutos de leitura, uns 20 para reflexão e mais meia hora de releitura em voz alta. Sem contar quando chamo alguém para ouvir, sem contabilizar quando o copio para enviar a um amigo, sem considerar quando ele me leva outro e a outro e a outro e aí estou fora do tema, a atrasar o trabalho... (desculpa!)

Como é lindo o nosso português! O nosso brasileiro, o original e os outros...

Isso tudo me afirma, mais uma vez, a incrível cara de pau que tenho. Como posso, como tenho coragem, em me aventurar pelos caminhos da escrita com texto tão medíocre e, o pior, com ideias tão irrelevantes? A frustração é tão desgraçada!
Mas, por outro lado, quem penso que sou para escrever melhor, para fazer comparações? A humildade é tão difícil!

O que é certo mesmo, e que não é vergonha pra ninguém, é que continuarei a me encantar com a leitura, porque há muito a descobrir e também, como diria Caetano, porque gosto de sentir minha língua roçar a língua de Luís de Camões...


Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

Mia Couto

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

eita vida besta!


Trabalha, Adriana, trabalha
Trabalha que você precisa livrar as contas,
Ir à feira
Costurar a roupa
Comprar xampu
Pagar escola.

Trabalha, Adriana, trabalha
Trabalha porque isso dignifica,
Sustenta
Justifica
Melhora
Ocupa o tempo

Trabalha, Adriana, trabalha
Trabalha para ir à praia,
Conhecer Holanda
Trocar de carro
Rezar em Salerno
Comer no Palais Royal

Trabalha, Adriana, trabalha…
Trabalha para poder descansar.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

um pequenino grão de areia


Tenho pressa, mas quero que a vida passe devagar.

Não entro sem ser convidada e preciso de, pelo menos, cem insistências diferentes.

Entrego, fortuna preciosa, o amor aos amigos, mas exijo permanente devolução.

Leio o mesmo livro várias vezes e deixo muitos pela metade. Tenho pessoas inteiras na vida e outras vão ficando aos pedaços.

Comecei a ver novela, gosto de ir ao futebol, não me interesso por festas, sempre escuto música e leio poesia em voz alta.

No supermercado procuro o que tenho vontade na hora, em casa preciso ir ao supermercado.

Estou cercada de gente boa e, como todo mundo, caminho sozinha.

Contradição é o meu nome: manhã, tarde e noite, 786 emoções diferentes. Tenho o que cada momento me dá e sinto o que ganho.

Já entendi que a vida passa num estalar de dedos e isso me revolta.

Não gosto de ficar velha, flácida, feia, grisalha, mas me orgulho dos anos vividos, das emoções sentidas, do caminho percorrido. Talvez fizesse tudo de novo, talvez até com as mesmas pessoas.

Quero todos os dias passear pela praia antes que seja tarde. Temo pelos descuidos do entardecer.

Sou frágil feito flor em dia de tempestade: agarrada ao caule resisto.  

Não vivo mais sem celular e internet, mas vez ou outra faço questão de esquecê-los. Gosto quando o telefone toca na bolsa e eu ouço sem saber e sem atender: a sensação de domínio e libertação!

Não me fissuro em pretensões de riqueza, mas minhas vontades custam a grana que não tenho, que nunca terei. Conheço a frustração do sonho não realizado.

Jactância de transformar o mundo, arrogância de mudar pessoas, bazófia de criticar. No íntimo, me recolho e sei do meu tamanho: pequenino grão de areia, corisco no caos.

Creio em Pixinguinha, em Van Gogh, em García Márquez, em Fernando Pessoa porque acredito na beleza como profilaxia.

No mais, tenho pensamentos secretos e sonhos que encheriam um caminhão.




segunda-feira, 5 de agosto de 2013

arrastando pela vida


Dos sonhos de criança alguns ficaram, outros foram embora e boa parcela acabei por esquecer.

Algumas coisas eu lembro bem: queria ser caminhoneira e queria ser carteira, sim, daquelas de uniforme amarelo e azul.
Da minha pretensão de ganhar as estradas, sobrou a vontade de viagem, a necessidade de liberdade e o desejo de dobrar novas esquinas.
As aspirações de carteira se transformaram em impulso de comunicação, veleidade em contar coisas, escrever cartas, bilhetes e recados.

Também menina sonhava em conhecer a lua, em ser uma das Frenéticas, em patinar no gelo, em morar sozinha. Desses caprichos, nenhum veio pra minha vida adulta, nem com outras roupas, travestidos de outras coisas.

Lembro ainda que queria conhecer o Chacrinha, ter um cachorro são-bernardo, fazer bolo só de cobertura, ir a Paris e ter o cabelo como o da Perla. Eu não cheguei ao Chacrinha, mas tive bons substitutos, tenho um beagle, volta e meia eu faço bolos bem fininhos e com três dedos de cobertura, fui a Paris e não gosto mais do cabelo da Perla.

Das coisas de menina, eu ainda trago em mim, intactas, algumas: jogar ao mar garrafas com bilhetinhos, passear de mãos dadas pela praia, esquentar o rosto ao sol do inverno, acordar cedo e fazer o maior número de coisas no mesmo espaço de tempo para ter tempo de não fazer nada.

E assim vou vivendo...


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

no tempo da escola


Joana se preparou para o teste de admissão do time durante semanas. No grande dia entrou na quadra tremendo feito banhista que sai do mar em dia de vento frio, e se colocou em posição. A primeira bola lhe acertou o braço e foi para a terra do nunca; a segunda carimbou o chão diante dos seus pés e atravessou a quadra e a terceira acabou por sangrar seu nariz. A escola toda vendo.

Era tanta humilhação que ela, sem vontade ou disciplina de atleta, correu para o banheiro. E não demorou muito, Flávia já estava de plantão na porta a caçoar e aumentar um sofrimento que parecia não ter fim. Com o alvoroço de gente tentando socorrer e consolar Joaninha, Flávia, mordida de ciúme, gritou num fôlego só:

- Ela quer entrar no time de vôlei porque gosta do Fabinho! E eu sei disso porque ela esqueceu o diário no banco lá de trás e estava escrito.

Joana parou de olhar pra cima, deixou de enxergar em volta, não se importou que o sangue voltasse a pingar e marchou até Flávia. Foi preciso chamar a Dona Laurinda para separar as duas.