quinta-feira, 14 de agosto de 2014

um milhão de discussões em síntese


Nas últimas semanas tenho acompanhado algumas discussões e participado de outras. Os motes são diferentes, mas a temática dá voltas em torno do mesmo assunto: música popular.
O tópico poderia ser mais amplo e tratar da cultura produzida como um todo, a envolver outras praias, mas por conta da minha encarnação passada, acabei mais atenta a esse grupo.

Os amplos debates sobre a entrevista de Mônica Salmaso para O Globo, mostraram certa confusão sobre o que se diz e o que se entende. Vicente Ribeiro, como outros, admirador confesso do que a cantora produz, criticou a oportunidade perdida da cantora tratar da MPB bacana, de qualidade, bem vestida que se faz nos quatro cantos do país, que sempre se fez e, quiçá, sempre se fará, independentemente do mercado. Em vez disso, Mônica preferiu falar do lixo existente num discurso de que, pra quem não conhece nada além dos grandes canais de divulgação, crê que só exista coisa ruim disponível. Perdeu a oportunidade de utilizar bom espaço para citar colegas de caminhada.
Pena! Jornal com tanto alcance é oportunidade rara de ter sua voz a ecoar em muitos lugares. Se ela em vez de afirmar o ruim, promovesse o bom, haveria chances de espalhar o melhor.
Vicente recebeu ecos e apoios e também opiniões divergentes, com as quais soube lidar muito bem e respeitar. Mas também conheceu a tragédia de olhos que não lêem o literal e procuram entrelinhas inexistentes. Foi criticado, ofendido e xingado. Apareceram as palavras inveja, despeito, competição, como se ele, músico arranjador e maestro, disputasse qualquer coisa com Mônica de quem, repito, ele é fã. Lamentável essa parte do debate.
Mas o episódio proporciona a reflexão a respeito de aproveitar toda e qualquer oportunidade para reafirmação do que temos de melhor, para divulgação do que é digno de ser comentado, para a semeadura do que vale e existe e sobrevive na garantia dos próprios entendimentos.

Outro episódio teve como gatilho o produtor Rodrigo Fornos, que divulgou a notícia sobre o cadastro e aceite de um projeto pela Lei Rouanet para shows de Luan Santana. “O Luan Santana infringiu alguma lei? Ele não é artista? Ele não tem direito a usar a Lei Rouanet em um projeto seu?” foram as perguntas de Rodrigo.
Muita gente contra, gente a favor, gente que debate as nuances legal versus moral, gente que se coloca como artista mais “precisado” de recursos públicos.

Será um grande absurdo pensar que os editais públicos acabam por afastar discussão realmente pertinente ao caso?
Uma política pública de cultura séria não tem editais de financiamento de projetos e até de capitalização de artistas como ponto central de seu texto. Política pública de cultura, tem que envolver formação de plateia, educação, informação, conhecimento.
Não me parece bicho de sete cabeças unir, verdadeira e efetivamente, secretarias de educação e cultura de modo que se promova um baú de informações aos estudantes. Se a atual geração está perdida, não dá para concentrar esforços para daqui dez, 15, 20 anos?
O que pensar do nosso futuro se hoje os professores mal sabem quem foi Cartola, Noel, Pixinguinha?

É claro que não é possível interferir simplesmente no que uma pessoa gosta. E atitudes autoritárias podem ter resultado contrário do esperado.
Por isso, é necessário oferecer elementos para despertar e alimentar senso crítico, apurar os sentidos e preparar o olhar para as artes de maneira geral. Quanto mais informação, mais condições de fazer comparações e opções.
Mas como fazer para saltar a muralha que é o mercado e se ergue poderoso oferecendo produtos que ditam as direções por onde a grande maioria da população irá caminhar? Impossível saltar a muralha, é muito fácil desviá-la. A indústria cultural pensa na lógica da massa: produtos descartáveis que terão fácil consumo e absorção hoje e que amanhã serão substituídos por outro com o mesmo perfil. Esse pensamento se estende nos mais diversos campos. O grande antídoto contra esse ciclo disponível para todos o tempo todo, é a informação (a educação, se formos tratar da cura definitiva).

Quem sabe se pararmos de discutir quem é que fica com a grana pública e virarmos a cabeça para as soluções que libertem ouvintes e artistas para as próprias escolhas, comecemos, então, a avançar.

A linha do horizonte é o lugar em que nenhum artista mendigará verba do governo e nenhum consumidor optará como escolha própria o que lhe enfiam guela abaixo.
É hora de começar a caminhar!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

grau



moro nos olhos do amado,
endereço definitivo,
onde começo e termino
sussurro e gargalho
desfilo e prometo.

ouço os seus olhos
como sol de manhã de primavera
feito brisa de janeiro
imensidão de espaço
nós de todos os laços.

o conjunto dos seus olhos
me diz que ele é meu
que me quer ser sua
que sou sua.

a voz dos olhos do amado
tem orvalho fresco
e canta música suave
que me inventa e me descobre
me mata, me move, comove.

são os seus olhos que
eu quero colados em mim
em linha reta ou em curvas
para o tato e a conversa.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

borboleta


Adoro o dia 13.
Tenho cá meus motivos, todos eles muito particulares, que não cabem em revelação pública. Coisa bem minha, tão minha que as vezes as perco no meu calendário desordenado e distraído: outros dias acabam virando 13.  
As vezes as belezas do 13 caem no 12, mas sei que elas pertencem mesmo ao décimo terceiro e que se aparecem antes é para abrir caminho para tão celebrada data.

Modificações acontecem comigo. Flutuo, levito, meus gestos ficam lentos, a voz mansa, a boca carmim. Os apetites me gritam e eu transbordo. É o dia da feliz mutação.

O meu grande objetivo de vida é tratar todos os dias da existência, todos os dias do ano, todos os dias sem número, como se 13 fossem e deixar que seus encantamentos me caiam feito banho em mar calmo e morno, águas transparentes e corpo abraçado.

E assim eu vou, me renovando a cada novo 13.
Ops! Hoje ainda é 12, mas amanhã, ah! amanhã ninguém me segura! 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

oração


Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema V")

Querido Deus,

Durante todo esse tempo estive por aqui, a esperar que você chegasse e se apresentasse. Desculpe se não consegui ver seus sinais em filhos, flores, mar, árvores, Bach, chuva, templos, sistema solar, Pixinguinha... Desculpe. Preciso de conversa direta, sem intermediários.

Há quatro décadas minha ideia vai pra lá e pra cá em busca desse encontro. Tenho algumas crenças, mas nenhuma delas obedece sua ordem. Tenho também superações e elas não se fizeram por milagres e eu não estava em seu colo, batalhei firmemente para que acontecessem.

O que eu queria mesmo, era que você chegasse aqui e se apresentasse, Muito prazer, Adriana, eu sou Deus. Você me chamou e eu vim. Será que você pode, por favor, largar essas coisas que anda fazendo, sabe-se lá o que são, e me aparecer? Não precisa nenhuma demonstração de toda sua autoridade, só me contar.

Não acho certo que você creia que exista só porque assim quer. Esse mistério todo não combina com quem é muito poderoso. Com todo respeito, Seu Deus, aparece aqui, faz um convite pra fé, inaugura uma crença.

Se eu escrevo esse bilhete é porque no fundo no fundo eu tenho esperança da sua existência e isso não me faz de toda herege, né? Se eu não sou assim tão descrente, aceita meu convite, aparece por aqui, me conta.

Por favor, se você estiver lendo esse bilhete e não puder, por motivos divinos, desses que minha limitada humana compreensão não alcança, não se zangue, não me atire raios. Abençoe essa ateia que só quer saber de encontrá-lo aqui, ainda em vida, claro. 

numa folha qualquer


Tirei da gaiolinha lápis, gizes, tintas. Todas as cores libertadas. E todas as disposições para usá-las.
Saquei as algemas do bloquinho de canson que guardo há muito e que agora é manchado pela pátina do tempo, amarelado pelos anos de gaveta.

Abri bem as janelas, escancarei as cortinas, afastei os móveis. Com os ventos a circular, espalhei material em cima da mesa. Escolhi música de transporte. Arregacei as mangas, puxei ar e encarei o papel.

Tinha vontade imensa de pintar, fazer graça no papel, deixar registrado em desenho o que viesse à minha cabeça.

E o que veio? Nada. Acho que se fechasse os olhos e me concentrasse, chegaria aquele estágio da meditação onde é possível flutuar. Nenhum pensamento, nenhuma ideia, nenhuma figura. Cabeça anulada.
Não desisti. Segurei firme o azul e não dei comando. Pensei que eu pudesse ser um daqueles gênios que só soltam a pena e tudo vai se compondo feito mágica, a reinventar técnicas e produzir maravilhas.
Não, não sou. O papel continuou do mesmo jeito que anos atrás, quando o tranquei na gaveta: virgem e mudo.

Gargalhei de mim mesma. O que queria eu agora, às vésperas de completar 100 anos? Depois de velha me descobrir como artista das plásticas? Criar traços dignos de paredes elegantes? E, ainda por cima, com esses parcos recursos?

Não tive dúvidas, recolhi tudo. O canson voltou pra gaveta, tão pálido quanto antes; agora terá, por sua natureza modificada pelo tempo, utilidade de tapete de cartas que contem notícias antigas, já pisadas e vividas.
As cores todas voltaram para gaiolinha e de lá só sairão para fazer pequenos enfeitinhos nos meus diários; ninguém vê, não passo vergonha.



domingo, 10 de agosto de 2014

a minha lua


Me animei com a superlua. Porque é super e porque é lua. Porque gosto dos fenômenos. Porque a natureza me encanta.

Quando vi o céu se abrindo quase uivei.

Depois veio a decepção no paredão do prédio cafona de arquitetura horrorosa, coisa de novo-rico, aqui do lado. Seria boa oportunidade de mandá-lo pelos ares – onde já se viu se intrometer entre a lua e eu?

Fui salva pela Iara, que tratou de tudo com sensibilidade e competência. Ganhei agrado também das irmãs Abaurre que aumentaram a beleza colocando o mar lindo de Manguinhos como tapete. 

Como a lua e eu temos assunto, fui encontrá-la. Desci em correria para não deixar velha amiga a esperar. O último lance me fez virar o pé. Segui. Quando alcancei a rua, virei a cabeça, vi seu clarão.
O pessoal que entende diz que ela pintaria o céu com outras roupas: 14% maior e 30% mais brilhante.
Naquela hora ela já não era mais super, era lua cheia e alta. A do ciclo normal. E como todas as outras que vi, estava toda linda, toda grávida. Farol na imensidão escura.  

Conversamos um pouquinho. Papo rápido. Fiz declarações sobre sua beleza, lembrei de um desenho que rabisquei quando tinha uns seis anos e deixei no quintal para que ela o recebesse como espelho, manhã seguinte, o cachorro o tinha estraçalhado.
Na volta pra casa, dessa vez pelo elevador, vi as fotos da superlua estampada nos jornais do mundo. Estranho, parece que há mais de uma lua girando em volta da gente. E deve haver mesmo, a minha é aquela com quem converso e dedico deferências desde os seis anos.
desenho bonitinho, não sei de quem é, o encontrei no blog dibujosideiacriativa.blogspot.com.br



Nãna

Meu pai tem muitos silêncios, muitos olhares, muitos entendimentos. Olha pra vida e considera as perspectivas diferentes que ela tem. 

É de educação pré-guerra, a de 1914, quando os homens sabiam que a gentileza, a calmaria, o ouvir e não perguntar são grandes bens para o bom convívio. 

Ele é incapaz de indiscrição, sempre achou que não tem que especular a vida de ninguém, como também não tem que falar dos alheios. Elogios, só para os que realmente admira, mas não é chegado a adjetivos, prefere contar uma história para falar da contemplação. 

Meu pai é homem persistente, as pedras que pipocaram em seu caminho acabaram usadas na construção de monumentos. E nesse trabalho descobriu-se algumas vezes e se reinventou para seguir de cabeça erguida, sem dever, mas doando. 

Ele é tipo sério, perfil de esfinge, poucas palavras no primeiro encontro. Mas ri e gargalha e brinca e conta piadas.
É meio desajeitado com as demonstrações de afeto. Não diz estou com saudade, quero te ver, pensei em você. Em vez disso, compra bolo e aparece, telefona e fala sobre uma notícia do jornal, manda mensagem com pergunta qualquer sobre coisa que não sei. É o seu jeito de dizer. 

Meu pai gosta de fazer pequenos consertos aqui em casa, até sobre assuntos que desconhece. Se chamo especialista, ele se aborrece, porque na sua cabeça pai, não há nada que ele não possa fazer por mim.

Gosta de escrever cartas e nelas trata de todas as palavras de amor que sua boca não diz e seus olhos revelam. Coleciono bilhetinhos desde o nosso começo. 

Quando eu era criança, me dava jóias de presente e se maravilhava com meu encantamento; agora, me traz brinquedos e se diverte com minha farra. 

É um andarilho, cruza a cidade a pé. Não acha que está ficando velho e não tem muitos medos. Atrás daquele bigode imponente, bate coração de manteiga que se emociona com os netos e sempre repete a mesma frase quando vai embora: "apareça!, ah! aqui é sua casa, eu apareço". 

sábado, 9 de agosto de 2014

costureira, eu?


Tenho vontade de costurar imensa manta.
Daquelas feitas a partir de retalhos, dos pedacinhos que não servem sozinhos para nada, mas que são imprescindíveis no espaço aberto.

Eu, costureira imaginária, me aventurando nessa empreitada, cada pedaço teria uma cor, uma forma, um tamanho. Cada pedacinho seria único e não se repetiria, mas se multiplicaria no amiguinho do lado.

Meu quebra-cabeça seria costurado milímetro por milímetro, nó por nó, com fio resistente, nem faca Ginsu separaria.

As frações mais sem graça e longe da beleza teriam que ficar no meio, bem no meio, como se ocupassem lugar de destaque. Acho que começaria por elas e em volta, bordaria as outras, as mais bonitas.
Só para que no final, depois de todos os retalhos de mãos dadas, pudesse concluir que a beleza serve como profilaxia, que ela contamina tudo que está em volta, que não há fragmento mal-parecido que resista.

Minha colcha seria sempre, sempre, sempre quarada em campo de lavanda, em dia de sol azul e noite cheia. Seu perfume se derramaria em mim toda segunda-feira como brisa de Debussy, para renovar meus votos.

Essa seria a colcha que estenderia em minha cama para as noites de frio, as manhãs de clareza e os sonhos de todas as horas e naturezas.

Acho que o amor é tipo uma colcha de retalhos...
Costureira, eu?


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

alvorada


Parei o que estava fazendo quando me dei conta do tempo, quatro e meia da manhã. Calculo que entre retoque da maquiagem, troca de roupa e afofar de travesseiros, tenha ido dormir perto das cinco.

Acho que foi por isso que me pareceu tão irreal quando a Lívia entrou no meu quarto e anunciou: mãe, são dez pra sete, vamos?

Fugi da cama. Não me despedi, não contei com o corpo ainda bambo o quanto ela é quentinha e fofa e agradável. Não revelei nadinha nem à cama nem ao quarto escurinho. Só pulei e saí, feito criatura ingrata que nem olha pra trás.

Cumpri com silêncio, esforço e competência minha primeira função do dia. Lívia e amiga entregues.

Antes de voltar pra casa, pensei em comprar pão. Tão bom manteiguinha a derreter na massa fresquinha... Na padaria, achei que era melhor transferir a mesa do café: melhor que pão quentinho com manteiga, é ter isso acompanhado de café e suco e frutas e queijo e bolo e, mais importante, sem precisar recorrer a outro esforço físico...

Sentei-me e como não gosto de ir ao buffet, prefiro sempre que ele venha a mim, fiz pedido. Tratei do desjejum em silêncio de passamento, cabeça fechada para qualquer ideia. Sono. Na intenção de adiantar expediente, mandei mensagem que era pra Lívia no celular do Dé, o bilhete do Dé foi pra minha irmã e meu pai recebeu confirmação sobre assunto que ele desconhece - sardinha ao cachorro, banana pro gato...

Na fila do caixa percebi alguns olhares estranhos pra cima de mim e o sorrisinho meio debochado da menina das cobranças.
Paguei e tomei meu rumo.

Quase em casa, entrei no elevador com aquela tão curitibana preguiça de conversa. Meu vizinho, por sorte, estava como eu, só se limitou a falar qualquer coisa do tempo e do horário, riu-se meio zombeteiro e pronto.

Só quando entrei no meu quarto é que entendi os olhares, o sono, as convenções: eu saí de pijama, super pijama, roupão por cima, cabelo em coque, pantufa nos pés. Saí como se tivesse ficado. Saí sem contar nada para o corpo. Saí com esperança de voltar. Saí, ainda não voltei.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

happiness?


As vezes tenho pensamentos sobre a felicidade. A minha. Me batuca a cabeça se numa quinta-feira qualquer acordarei, olharei para o lado e concluirei, sem ressalvas, eu sou feliz!

É claro que já sei da inexistência de felicidade plena. O que não entendo é por que cargas d’água inventaram esse termo. Decerto para cutucar os fracos ou para incentivar a marcha em busca de coisa melhor – horizonte.

Mas, as vezes, penso se haverá época disso. E se houver, o que farei? Ficarei sendo feliz, sem preocupações, perrengues, questões? Pararei de procurar? O mundo deixará de me incomodar? Não terei interrogações nem menores nem maiores? Viverei plenamente sem nenhum tipo de incômodo?

Que coisa tediosa a felicidade plena!

Talvez seja o revezamento que faça a vida girar: acerta-se um lado, para correr atrás da solução de outro. Uma alternância entre os grandes temas maiores da vida, os assuntos que compõem a vida privada: família, amor, saúde, trabalho. E na folga entre um e outro, as coisas do mundo, minha nega: as fomes, as guerras, os desmatamentos, a política.

Quando comecei escrever esse texto engatei numa linha de pensamento. O que tinha separado como final, agora, aqui, nesse parágrafo, já não me faz mais sentido algum. 
Por hora, vou procurando o desfecho, quando o encontrar, provavelmente ele será mais um pedaço para as minhas plenitudes.



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

inimigos


A vontade de retroceder três quilos na balança me colocou a fazer regime. A necessidade de endurecer um pouco a musculatura me levou à academia.

O regime parece um primo chato; todo certinho, orgulho da família, notas boas, educação primorosa, um tanto sádico e dedo duro. Tem prazer em ficar testando a minha força de vontade, quer, de toda forma, me provar fraca, pouco confiável, incapaz.
Não sei da onde ele adquiriu poderes supremos, entra na minha cabeça e me provoca. Pego uma maçã e estou prestes a rasgar-lhe a carne, ele me sopra com voz de diabinho, tem chocolate no armário. Abro a geladeira e enquanto deslizo até a gavetinha da alface e seus amigos, ele joga bem na minha cara o pudim brilhante e dourado. E se digo não à suculenta macarronada do restaurante, quer me convencer de que só hoje não faz mal.

A academia é tia chata, barulhenta e sem graça. Verruga no nariz, bruxa má. Tem o canto da sereia ao contrário, com música repugnante e amizades pouco convidativas.
Haviam me avisado, não olhe diretamente nos olhos dela. Ingênua, encarei. Toda a sua anti-sedução tomou conta de mim e ela rogou praga pior que de madrinha: não durmo bem nas noites de domingos, terças e quintas, porque ela me espera segundas, quartas e sextas. Amanheço exausta, sem poder trocar a cama pela dita. Depois, ela sapateia, gargalha seus poderes de feiticeira e me joga o boleto bancário para que eu veja mensalidade que paguei sem gastar.
Dia desses resolvi enganá-la. Me achando espertinha levei de presente um pacotinho com músicas. Todas vibrantes, interessantes, fina-flor para os esqueletos dançantes. Riu-se, se fechou para o novo e me humilhou, isso não serve.  

Caí, bati três vezes na lona, pedi pizza e cantarolei com Cole Porter. Achei que o assunto estava encerrado, havia assumido minha fraqueza. Foi aí que a dupla regime-academia chamou reforços para tripudiar: saio do banho e o espelho se mete na minha frente. 


domingo, 3 de agosto de 2014

conversa de azulejo


Foi na casa da Suzie e do Vicente que descobri que os azulejos têm serventias diferentes de revestimento e decoração. Lá, os principais telefones da família e alguns desenhos dos filhos cobrem os ladrilhos.

Logo após essa visita, precisava deixar um bilhete pro Dé e tratei de fazê-lo na parede da cozinha. Recado recebido, recado respondido. Bom lugar para comunicação rápida.

Depois, foi minha falta de memória que contribuiu para a utilidade diferente: com uma série de medicamentos que tenho que administrar com horários variados, nunca lembrava se já tinha tomada A, B, C ou D. Confusão total. Resolvi montar um calendário nos azulejos e ir fazendo as anotações.

Um dia, sentada a olhar pra prescrição médica estampada ali, fiquei chateada; que infortúnio ter que dedicar às paredes assunto tão chato. Ora bolas!, se cabe isso, cabe também coisa muito melhor, mais agradável aos olhos e à alma.
Caymmi sacudia a casa com seu vozeirão. Não tive dúvidas, peguei canetinha e pintei: “Quem vem pra beira do mar, nunca mais quer voltar”.

Em surto, passei a escrever tudo que me vinha à cabeça, de letra de música a poesia; de frases a ditos engraçados. Cobri as paredes com beleza e sorriso. Num cantinho que sobrou, o Dé derramou sua caligrafia e bom humor: “Pichação é crime!”.
Dois dias depois veio a Lu e achou que era hora de lavar os azulejos. As letras se derramaram, choraram na esponja e foram pelo ralo.

Não me deixei abater. Caneta em punho, tratei de refazer tudo, outros dizeres, outras conversas. E desde então vamos vivendo assim: eu escrevo, ela apaga, eu escrevo, ela apaga. Gosto da renovação dos versos que conheceram também box dos banheiros, janelas e até alguns posts.  



sábado, 2 de agosto de 2014

a publicar declaração


Domingos,

Não sei se você sabe o que aconteceu por aqui por esses dias... Continuo na mesma balada de antes, língua solta, te contando tudo.

A Etel e o Alan, que fazem o Poemoda na Educativa, inventaram de falar de você, de te saudar, te mostrar inesquecível e em alguns momentos, quase inédito. Anunciaram para o mundo, convidaram um monte de gente, reuniram cyberforças para que pudessem todos, de perto e de longe, te ouvir e te saber mais um pouquinho: programa de rádio.

Como se tudo isso já não fosse coisa demais para os nossos corações, chamaram o Xico Bizerra para te explicar melhor.
Eu não o conhecia, Domingos, agora quero saber tudo sobre ele, mais uma porta que você abriu pra mim – acho que você continuará a fazer isso pra sempre... 
Que maravilha! Quanta sensibilidade pra juntar palavras certas. Virei fã!

Essa dupla, que consegue a incrível façanha de afinar trabalho, sentimentos e pensamentos tendo um oceano no meio, não parou por aí. Etel e Alan me pediram para falar, para falar no rádio, você acredita? Depois de tanto tempo longe das hertzianas voltei para falar justamente de você. Não foi fácil, estava emocionada, precisei gravar oito vezes cada texto e mesmo assim fiquei com aquela voz de pato, coisa fanha... 

Foi nessa oportunidade que consegui, pela primeira vez depois que você foi embora, ouvir a minha música inteira. “Adriana” tocou duas vezes (quarta e hoje) e eu escutei tudinho e, de novo, pude ter aquela emoção tão única, tão minha, que diz tanto sobre esse amor que tenho por você. E nos dois momentos eu revi muitas passagens dessa gloriosa amizade que, não sei explicar, não cessa.

Quando eu achei que meu coração já tivesse provado de maravilhas suficientes em tempo tão curto, a Etel tratou de me surpreender mais uma vez e me mostrou que de um texto meu, fez letra para música sua. Assim, ficamos os três ligados por esse laço de fantasia maior que é a música. 

Você tinha razão, o futuro chegou e a vida está a me tratar muito bem.

Espia aí:

Adriana (Justeza)
Dominguinhos/ Adriana Sydor/ Etel Frota

Me deixa refletir a tua beleza
me contemplar nos teus olhos
me deixa chamar-te princesa
me deixa pentear os teus cabelos devagar, ai...
pintar-te em quadro, dar-te um doce, beijar-te as mãos
Vem mulher, vem sutil, vem amor, toda tão feminina, tão felina
deita ao meu lado que eu vou esquentar os teus pés nesta noite de frio
encantado, coloco em teu colo estas flores de abril

Flutuando em tuas próprias marés
me improvisas jantares em jazz
e me mostras teus céus, o sol, lua nova, as estrelas, sim

Num jornal, grande circulação
eu publico esta declaração:
uma vida não nos bastará, ó mulher, eu sei,
pra cantar, a quem ouvir, nossa canção


3 X 2



O quartinho dos fundos virou meu santuário. Trago tudo pra cá, me tranco com a porta aberta e vivo.

No começo, queria que as coisas fossem acontecendo devagar por aqui: primeiro a escrivaninha, onde meu filho aprendeu as primeiras letras, e com ela decidiria o que viria depois, o que nos faria companhia e comporia o lugar do tão sagrado trabalho.
Mas rapidinho chegaram papeis, lápis coloridos, cadernos, canetinhas, tesouras, envelopes e todos os tipos de parafernálias para fazer coisas se instalaram por aqui e acharam os próprios lugares.
Alguns livros pularam da estante e se estabeleceram em lugar de pouca vista, mas de muita utilidade. CDs exibidos invejaram e também rolaram pra cá, com eles o rádio. Com o rádio, o HD de música. E já que a música se fez, o ritmo foi galopante e sem que eu percebesse, o que era pra ser uma construção demorada como uma terça-feira, se transformou numa empilhação de coisas sem fim.
Consegui impedir as paredes de serem forradas, porque tenho vontades específicas de alguns quadros. De resto, os objetos foram se espalhando, seguindo as próprias pernas.

Dia desses foi colocado um tapete. A Lu disse que era coisa de inverno, fica mais quentinho pra você, Adri. O cão gosta de ficar deitado, ouvindo o batuque das teclas e a musiquinha. Aceito, porque já não discuto mais com objeto ou bicho que queira fazer parte desse cotidiano.

E daqui, onde tudo tem vida e vontade própria, onde me começo e me termino, onde trabalho e espio o mundo, onde falo e ouço, bem daqui, terminei os planos das próximas férias. 
Com medo que o quartinho me siga, despisto.