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terça-feira, 8 de julho de 2014

grande família



O telefone tocou cedo. Do outro lado da linha, mais séria que uma segunda-feira, minha mãe. Me contou sobre as novidades dos últimos dois dias, perguntou uma ou outra coisinha, trouxe comovente notícia e, por fim, o tema da pauta: a amizade e a família.

Aborrece-a que eu e meus primos não sejamos amigos inseparáveis. Na conta poderia entrar eu e meus irmãos (porque o Zeca e a Dani também seguem suas jornadas descolados dos primos), mas ela preferiu concentrar esforços.
Lembrou da minha infância, das brincadeiras, planos, preocupações... Alertou-me sobre os recados e convites que eles sempre me deixam quando a visitam. Reconheceu sobre meu interesse permanente a respeito da vida deles. E, por fim, concluiu que quando nos encontramos nas felicidades dos almoços que reúnem todos, ou parte, estamos sempre bem, alegres, a derramar bem-querer uns pelos outros.
Nos gostamos à distância, fazemos escalas na casa de minha mãe e depois seguimos a vida. Minha mãe é a ponte que nos une, o caminho que nos permite sabermos uns dos outros e entregarmos toda maravilha de sentimento infantil que ficou em nós.

Depois que desliguei o telefone, fiquei com os olhos fixos na janela, a pensar sobre o que ela me disse e outras.  
A vida adulta é assim, um pouco empurra a gente pruns lados, um pouco a gente faz opção. A vida adulta faz com que a gente esteja mais perto daqueles que têm o maior número de pontos comuns, mesmo que sejam assuntos menos agradáveis.
É por isso que falo mais com o cara chatérrimo da empresa onde batalho um trampo, do que com a Gio, por exemplo.

Mas há duas coisas essenciais nisso.
A primeira é que esse amor plantado lá na minha infância, com pessoas que ficaram em mim e a quem sempre retorno em pensamento, não se apaga, não diminui, não mofa. Eu adoro meus primos, meus tios, minhas tias. Cada um deles representa para mim um pedaço grande de tudo que cabe na vida de verdade.
A outra, é que minhas amizades escolhidas, essas que vim reconhecendo pelos anos independentes, são fartas, lindas, boas e preenchem lacunas de sentimento. Meus amigos são, também, minha família.

Num mundo ideal, seria possível que todos nós sentássemos à mesa e conversássemos, falássemos de nossos filhos, de nossos caminhos, de nossos planos. E dividíssemos o pão e bebêssemos juntos, a formar família-total, dos de sangue e dos escolhidos a dedo. E isso se desdobraria entre todos os presentes e formaria uma família maior que a humanidade e assim viveríamos todos irmãos, numa fraternidade universal...

O possível para hoje é saber, feliz da vida, que desde a infância venho formando maravilhosos laços que têm a força necessária para superar ausências e silêncios, intervalos e urgências. Laços de sangue ou não.    


segunda-feira, 30 de junho de 2014

a falta e a presença


Silvio,
Tenho lembrado muito de você!
Estamos todos aqui, a roer unhas, palpitar loucamente, vestir a amarelinha e sacudir bandeiras.
É época de Copa do Mundo!

Você me faz falta. Seus comentários sempre tão pertinentes e elegantes, seu jeito de contar as coisas “a bola rola na relva”, seu olhar cheio de poesia, suas mil piadas, o portunhol nas narrações...

Nem sei quantas vezes discutiríamos ou concordaríamos sobre mordidas, vaias, choros, craques e escalações. Você calmo, eu exaltada. Você sério, eu zombeteira. Você cheio de saberes, eu sua ouvinte. Você educadérrimo, eu mil palavrões.
Não sei se nos encontraríamos para as partidas ou se dividiríamos as opiniões pós-jogos no Stuart.

Sei que de uma forma ou de outra, nos recordaríamos de poesias e de músicas, de filmes e livros, de frases e versos.
Sei que levantaríamos brinde pelo amor da amizade e que gargalharíamos e choraríamos e teríamos emoção correndo solta.  

Por tua memória e homenagem, convocarei o escrete da velha família para assistir jogo na sexta-feira. E para você, brindaremos com sorrisos e nó na garganta e saudade sem fim.

Sinto sua falta. Também porque é época de Copa do Mundo!



terça-feira, 24 de junho de 2014

minhas amigas



"A amizade é um amor que nunca morre"
(Mário Quintana)

Tantas vezes eu ouvi a sentença boba de que não existe amizade verdadeira entre mulheres... Esse pensamento primário, burro e de tão maldoso chega a ser ingênuo, só pode ser disparado por quem não conhece sobre as coisas da alma, principalmente da boa alma feminina.

Eu tenho a sorte de ter grandes amigas! Mulheres maravilhosas que me emprestam um pouco do que as ilumina para clarear meus caminhos. Cada uma a seu jeito, cada qual no seu tempo.

Não exijo nada nem elas me exigem. Apenas nos encontramos nos momentos precisos: levantamento de brinde, separações, falta de grana, viagem a passeio, ajuda com os filhos, escolha de roupa, troca de segredos, gargalhadas sem fim, indicação de leitura, troca de figurinhas, banho de mar, conversas por telefone, missivas manuscritas, encontros em bar, permuta de receitas, pasmaceira. E tudo que orbita a vida.

Minhas amigas são o perfume do amor. Elas trazem sempre a mão estendida e quando partem deixam as palavras a ecoar em aroma.

Algumas são muito presentes e, atentas, sondam minha vida como guardiãs de minha felicidade. Outras, são pau pra toda obra, mas só aparecem quando solicitadas. Há também aquelas de ocasião, muito grudadas por um tempo, por um assunto e depois somem no mundo, mas isso não tira nem derrota o sentimento verdadeiro – a amizade pode ser sentida por cinco minutos ou por uma vida inteira.

Tenho amigas que me chamam por mil apelidos Adri, Dri, Drica, Adrizinha, Adrianinha, Driquinha, Adriana, Mulher, Guria, Amiga, Amiguinha, Animal, Total, Adrinalina, Neguinha...
Me importa que elas sempre me chamem!

Falando assim, parece que elas são muitas. E são! Cada uma tem uma multidão dentro de si, um exército para disparar contra meus dias menores e os sentidos (principalmente o sexto) multiplicando suas e minhas possibilidades.

Não tenho a necessidade de passar por inacreditáveis perrengues para que uma amizade seja provada. O testemunho do sentimento está no olhar, na palavra, na presença, no reconhecimento.

Amo minhas amigas e o sentido que elas dão à minha vida. Adoro poder melhorar a vida delas também.
Somos almas que nos encontramos e nos entrelaçamos para que o amor possa ser mais! 

Como alguém pode duvidar disso?





sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

3X4 - Lina Faria


Estou a pensar em Lina, uma das pessoas mais sensíveis que já conheci.
Frágil, bela, rara feito porcelana de importante dinastia, ela carrega também o contraditório de ser tudo isso e ser mais: guerreira, forte, indestrutível, feito diamante que não se deixa riscar por nada.

Lina me deu o presente mais importante que alguém pode nesse reino de cá: o amor da amizade.
E porque ela é ela, trouxe junto com esse pote de ouro suas tão deliciosas características:
- o humor diferente, ácido, que revela sem dizer e expõe as ridicularias humanas de um jeito divertido;
- a observação do mundo à sua volta, de coisas que ela percebe porque tem os sentidos abertos e a antena sempre a funcionar em todas as sintonias;
- a revelação do humano, desde o caminhar de uma mocinha da cidade até o sono rendido de quem tem marquise como casa;
- a descortinação da cidade, porque ela sabe de nossa província e seus personagens anônimos e mais importantes que qualquer um com nome conhecido, ela sabe quem é que faz, de verdade, o mundo girar;  
- o fazer conhecer as árvores, flores, paisagens, telhados, placas, muros, faixas, monumentos, todo e qualquer fio que tece esse grande tapete em que pisamos, pisamos e pisamos todos os dias, e que muitas vezes precisamos dela para saber, para ver;
- a delicadeza de contar coisas boas sobre nós, a generosidade de aumentar nossas qualidades e a compaixão de justificar nossas baldas.

Lina, nada objetiva, cheia de conversas, de caminhos, de paixões, de olhares. Ela, que agora é avó, continua menina, parece borboleta que acaba de sair do casulo e se espanta com o mundo.

É muito bom ter a chance do convívio com alguém que não perdeu a espontaneidade do gesto e acorda com o olhar atento a tudo que para muitos se tornou trivial.
Lina não é trivial, Lina é, todos os dias, original – uma flor com mil pétalas de bem querer. 

pra quem teve a sorte de conhecê-la aos 26.

pra quem tem mais sorte e a conhece hoje.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Domingos,

Eu soube  ontem que você foi embora. A Lívia me contou, os amigos me contaram, a televisão me contou. Esse sentimento de solidão me contou.

Fiquei muito triste. Mais triste do que quando fui ao hospital te visitar – nunca pensei que iria visitá-lo num hospital! Mas agora sinto, minha existência egoísta, falta dessa possibilidade.

Eu tenho guardados nas gavetas da memória tantos recortes da sua presença: lá na outra casa, no Pudim, na rádio, no Torto, no Ceará, no hotel, outro hotel e outro, aqui em casa, no restaurante (todos os restaurantes), nos palcos, nas conversas sem fim pelo telefone...

Tenho todos os presentes que você me deu, e quase não tiro do pescoço o globinho laranja, a “terra em chamas”. Embora as crianças tenham crescido, guardei as roupinhas dos manequins infantis, para que daqui uns anos eu possa dizer “foi o Domingos que te deu”.

Tenho o grande troféu de vida na música feita pra mim, com meu nome, com seu talento e improviso.

Tenho, sobretudo, a sua presença bem dentro aqui. E a grande felicidade de poder desfrutar de sua amizade.

Nosso mundo, o da música e o outro, é melhor porque você pisou aqui.

Minhas mãos estão geladas, não consigo mais escrever. Um grande beijo, com toda minha gratidão!



... o bom da vida vai prosseguir...
o registro é da Lina Faria


sexta-feira, 21 de junho de 2013

3X4

A minha amiga Janete é a mulher mais bonita e gostosa que conheço - por dentro e por fora!

Criatura que vale por mil almas: generosa, espirituosa, livre... É capaz de revelar incríveis filosofias aplicadas num cotidiano simples e sem afetação. 

Gosta do simples e do luxo, da Vila Guaíra e de Paris, de mochila nas costas e hotel 5 estrelas. 

A minha amiga Janete tem coragem de grande mulher e sorriso de menina. Leva na ponta da língua piadas pra todas as horas e conselhos pra todos os perrengues. 

Mulher deslumbrante, deixa rastro de amizade em todos os lugares por onde passa e de Channel também...

Uma vez fiz ligação transoceânica pedindo sua presença aqui, comigo, porque atravessava um deserto horrível e achava que não poderia continuar sozinha. Ela veio. Eu, no meio da minha angústia, me fechei e não nos vimos. Pensa que ela ficou brava, chateada ou qualquer coisa parecida? "Eu entendo, A, as vezes a gente precisa mesmo é ficar sozinha, mas sabendo que os amigos estão a meio metro". E voltou para Paris, com a mão estendida e o apoio disponível.

A Janete é sempre uma grande festa!

Jota, 
Há um milhão de coisas a serem ditas pra você, sobre você, sobre tudo que você representa e me ensinou... Não consigo e acho que nem preciso! Você sabe bem do amor que sinto, da amizade que devoto e de tudo que quero pra você. 

Como é bom tê-la em minha vida! A sua amizade é uma experiência maravilhosa!

Um grande beijo! 
Salut!!!


sábado, 18 de maio de 2013

de tarso


Sílvio, você foi um grande homem!

Cabeça rápida, memória de mil elefantes, mente aberta. Sempre uma história, uma música, um poema... Quanta coisa coube no seu coração!!!

Gatilho certeiro para piadas e para relembrar histórias engraçadíssimas. Humor refinado. 

Você sempre dizia que queria saber de vida e de alegria quando chegasse sua hora, mas não dá! Não cabe aqui, amigo. É impossível obedecer seu desejo, não há como esboçar sorriso sabendo de sua partida.

Fácil é agradecer a sorte de ter tido a graça de conviver com uma criatura como você! Isso foi um privilégio!

Sabe o que eu descobri no meio desse momento horroroso? Como o amor é concreto, palpável... dá para segurá-lo, tocá-lo, senti-lo no tato. Quando estava de mãos dadas com a Dona Iaiá, quando estava abraçada com a Tuti, enganchada no Sérgio ou passando a mão pelos cabelos da Lu, o amor corria por ali, se aconchegava em nós, esquentava o corpo. O amor por você se materializou pra nós.  

Guardarei comigo pra sempre, e assim que puder lerei em voz alta, “Os Olhos de Adriana”, meu troféu em cor jabuticaba dessa vida tão ingrata que leva os amigos da gente...

Sua voz a fazer firula, narrando jogos em espanhol e tirando onda com nossos hermanos, para sempre me alegrarão. 

As horas infinitas de conversas sobre todos os temas; a partilha dos sentimentos; os conselhos; os copos; as comidas... 

Vai ser difícil esquecer como seus pés estavam gelados, seus soluços pela vida e aquela cena final de hospital.  

Não se preocupe com a Tuti, ela faz parte da gente, ela é da nossa turma, e a amamos por ter feito parte de sua vida de maneira tão soberana, e por sabermos quem ela é. Seus irmãos têm a força moral para sustentar o mundo. E a Dona Iaiá? Essa tem a sabedoria de mil homens...

A nossa sorte é que não há morte capaz de te matar! Para sempre você ficará por aqui... 

Vai em paz, amigo. 





quarta-feira, 17 de abril de 2013

sempre por aqui


Poucas vozes me comovem tanto quanto a do Renato Braz. Já o vi mil vezes em show, ele só melhora. Todos os seus discos (aqui em casa em dobro, porque minha Lívia também os tem) estão escangalhados de tanto rodar, de tanto entrar e sair do carro, passear e voltar das casas dos amigos, ir e vir... 

Como se não bastasse ter essa voz e essa afinação toda, ele é ótima pessoa! Pai dedicado, amigo generoso, criatura bem humorada. Leve, bacana, bom sujeito. Decente!

Já escrevi sobre ele tantas vezes, que pode dar a impressão de não haver mais nada a ser dito – só escutado. Mas, eu sei, ainda não consegui arrumar as palavras de modo que fique claro o tanto que gosto dele e de sua arte.

Lembro da primeira vez que fui à sua casa (ele nem lembra, aposto), faz muito tempo, mais de década. Conversávamos uma groselha qualquer e de repente ele sacou o violão e cantou. Eu quietinha, sentada no sofá, nem chorar consegui. Acho que nem respirar eu respirei. 

Nos meus momentos de solidão, ele me acompanha de jeitos interessantes. As vezes me aumenta o sofrimento, as vezes alivia, as vezes traduz.

Faz alguns meses que não nos vemos. Tempo muito grande para a amizade e o bem querer, mas o trago aqui, bem aqui dentro: na lembrança dele cantando na sala da sua casa ou na maloqueirice dele deitado na rede da minha.

Ei, Braz, é muito bom tê-lo aqui!



Tentei postar videozinho lindo, mas não rolou. Então, olha link:

http://www.youtube.com/watch?v=FzP_lMtxyY0




quarta-feira, 4 de julho de 2012

Vinícius, velho, saravá!

Não me lembro do dia em que conheci Vinícius Coelho. Mas me lembro de tantas outras coisas... 

Conversas no bar, conversas na rádio, conversas em casa, conversas na rua, conversas no carro...
Lembro de todo tipo de papo: alegrias, tristezas, música, futebol, personagens, histórias, risadas, gargalhadas, choros, suspiros... Há muita coisa que ficará em mim pra sempre e, mais ainda, o privilégio de que tudo de melhor que trocamos não tem relação nem com música nem com futebol. 


Acho chato falar de uma pessoa que não faz mais parte disso tudo aqui, pode dar impressão daquela super valorização pós-morte. Mesmo assim tenho vontade de conversar um pouco sobre o Vinícius, acho que só para afirmar o quanto eu gostava dele e me sentia lisonjeada com a sua presença e suas demonstrações de carinho, amizade, etc.

O Vinícius foi, antes de qualquer coisa, um gentlman. Foi sim. Educado, fino, cheio de gentilezas. Que delícia poder ter alguém assim no convívio!

O via, minimamente, duas vezes por semana. Quando chegava aqui e eu não estava e ele não podia esperar, escrevia bilhetinhos carinhosos, contando da sua passagem (que me enlouqueciam, porque ele sempre pegava o primeiro papel que encontrasse para a comunicação – fosse documento importante, carta, memorando, programação...).

Tive a honra de organizar festinhas na minha casa em petit comite para seus 77, 78, 79 e 80 anos. Dessa última tenho um pedacinho que sintetiza o que ele representa pra mim: nos parabéns, primeiro a atenção comigo só depois apagar velas...



Sentirei sua falta Vinícius, foi muito bom!

terça-feira, 19 de junho de 2012

3X4




A minha amiga Sandra é uma mulher incrível!!!

Estamos uma na vida da outra desde outra vida, desde sempre, embora com espaços e distâncias maiores do que eu gostaria.

Me ensinou a limpar a casa, a deixar de ser boba, a seguir a vida, a tratar as coisas, a não desistir, a não encobrir. Mas ela não fez isso só comigo, só por conta dos meus lindos olhos, ela fez tudo isso porque é assim, porque esse é o seu jeito, porque é isso que faz para quem está em volta.

A Sandra é mãe de todos – e é o fura bolo e o mata piolho. Ela é todos os dedos, mãos, pés. Ela é o cérebro e coração. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. 

Adulta, com filhas, marido, casa, cachorro, gato, galinha e uma maré financeira esquisita, ela decidiu que voltaria estudar. Todo mundo deu força, claro!, e apesar de conhecê-la e sabê-la dedicada a tudo que faz, conseguiu surpreender, porque ninguém imaginava que se envolveria de tal maneira com os estudos e descobertas e leituras e grupos e invenções. Mais? Fez tudo isso trabalhando, cuidando da casa, das filhas, do marido, dos irmãos, das amigas. Fez tudo, sem deixar a peteca cair. Cobrindo todos os lados. Batendo escanteio e cabeceando. Um olho no peixe e outro no gato.  

Ela é a rainha e a serva de uma família linda, bem composta, bem estruturada. Alicerce e flor. Inspiração e sorte de quem está em volta!   
Se eu tivesse que descrever determinação, força, entusiasmo, amizade, boa vontade, dedicação, amor e as bem-aventuranças num pizzini, escreveria Sandra Cristine

segunda-feira, 26 de março de 2012

3X4


-        - Quer mais sorvete, Adriana?

Algumas vezes ouvi essa pergunta; diretamente ela se referia à imbatível sobremesa da super, hiper, mega, ultra expert da cozinha, Taís. Mas, quando ela me dizia isso, eu ouvia a pergunta se desdobrando em outras tantas: “precisa de alguma coisa?” / “que que está acontecendo com você?” / “quer conversar um pouco?” / “você está chateada?” e assim por diante... porque a Taís sempre esteve muito disponível para a amizade, para o cuidado, para a atenção com quem estava/está perto – independentemente da distância.

Eu já falei isso pra ela um dia desses, mas quero deixar público, só para matar quem não a conhece de inveja e dar testemunho solidário para os que têm a sorte de seu convívio: a Taís é uma pessoa muito  muito, muito mesmo!, especial. Não para mim, não na minha vida, é aquele tipo de gente que não se encontra sempre, em qualquer esquina, casa ou trabalho... É o tipo de gente que faz o mundo melhor, de modo  amplo mesmo, porque faz a roda do bem girar, porque tem olhar para o próximo, porque consegue entender o que há de diferente no outro. É um privilégio poder te-la em minha vida, mesmo que seja assim, a distância, de jeito virtual.

No dia do seu casamento ela ficou sentada, na sala, assistindo Chacrinha, enquanto a mulherada da casa se desesperava em penteados, maquiagens e afins. A Taís é ótima mesmo!

Essa coisa assim, tranquila, quase blasè, é a Taís, minha Sookie! 

sábado, 17 de março de 2012

acaba num instante com qualquer tristeza


Fui ao Rio na sexta-feira. Trabalho. 12 horas cariocas, mas muita coisa pipocando. Dentro e fora!
Eu nem ligo de ser caipira e ficar deslumbrada com o Rio...

Estilhaços de beleza
“Tripulação, preparar para pouso” – a voz metálica do comandante me fez olhar pela janela. O dia era cinzento, mas ali em baixo estava o Rio de Janeiro, a Guanabara... Tão lindo chegar naquela cidade pelo Santos Dummont! Que vista! Quanto deslumbramento! Estava tão emocionada que cutuquei o cara ao meu lado e chamei a atenção dele para aquela beleza toda, precisava falar com alguém, ele fez um sim com a cabeça, mas não me deu trela.


Já fui ao Rio um milhão de vezes. De carro, de trem, de ônibus, de avião. Toda vez que chego lá fico enlouquecida. Como é que pode uma cidade ser tão, tão, tão linda?

Como tinha um tempinho, corri pra Urca (que depois de Santa Teresa é meu lugar preferido!). Um ou outro turista, toda a segurança do mundo, silêncio. Sentei e fiquei quieta a olhar pra tudo aquilo. Sozinha, fechava quadros, ângulos bem pequenos: pedaço de pedra, recorte de morro, onda batendo na areia, cabo do bondinho, militar fazendo guarda, carrinho de sorvete, banquinho de praça, etc, etc, etc. Não é preciso olhar o conjunto da obra pra se maravilhar, por partes, tudo também é belo. 
Cidade de encantos mil!    


A diferença entre Bandeira e República
O taxista disse assim: “Esse é o número 141, da Praça da Bandeira é o seu endereço”. Olhei pro prédio. Um portão verde, de ferro, muito mequetrefe, anexo ao prédio de uma sucursal da Igreja Universal. Pensei que realmente o mundo ia se acabar em 2012... como que a rádio MEC podia atuar naquele endereço? Insisti com o chofer, “será que não há outro 141 aqui”? ele, pelo retrovisor, fez aquela cara, sabe? Não podia me chamar de idiota, então lançou o olhar que me deixou envergonhada. Fui conferir o endereço na minha agendinha. E mostrei, cheia de empáfia, afirmando “olha aqui ó, o numero está certo: 141, Praça da República!” E ele: “Re-pú-bli-ca! Você havia dito Praça da Bandeira!”.


Que vacilo! Ligou o taxímetro e se mandou, cheio de pressa (sabe-se lá por que), para o endereço correto. Dessa vez, fez o percurso sem falar, sem comentar sobre as belezas dos prédios antigos do Rio ou as obras ou a Copa ou os traficantes... Ficou bravo comigo porque a corrida ia ser maior do que a esperada. Não entendi, mas também não perguntei. O mau humor dele, garantia o silêncio, que, para a situação, era melhor. Bem, melhor.





Como a praça da República é grande!
Movimento, chuva querendo cair, ônibus, gente, carro, buzina, sirenes, giroflex, camelôs... e o taxista: “olha, o número 141 deve ser ali pra trás, porque a contagem está diminuindo. Para eu voltar vou ter que dar uma volta imensa. Se você for a pé será mais fácil.” E ligou o pisca-alerta, puxou o freio de mão, desligou o taxímetro e decretou: “são 18 mangos!”. Paguei e desci.
Fui contando o número dos casarões decadentes das imediações e me desesperando, achava tudo, menos 141. Começou a chover. Entrei numa banca e perguntei sobre a numeração, e o cara: “Moça, o 141 é do outro lado da praça. Você vai ter que atravessar o Campo de Santana”, eu reclamei da chuva, do horário, do taxista, da sorte... e ele gritou, colocando a cabeça pra fora da banca “ô Zé, traz um guarda-chuva aqui pra moça!” e o Zé apareceu, feito relâmpago, guarda-chuva em punho, 5 pratas. Paguei, agradeci, me despedi e segui.



Ficheiro:Franz Josef Frühbeck Rio de Janeiro Campo de Santana.jpg
Campo de Santana em pintura de Franz Josef Frühbeck de 1818
(quando o mundo era menor!)
Águas de março por todos os lados. Umbrella só protegia meu rímel. Cheguei do outro lado da praça com o vestido branco colado no corpo, os pés encharcados, descabelada, mas com a maquiagem intacta. Por entre bancários, automóveis, ruas e avenidas, encontrei o 141, o prédio da Rádio MEC, o meu destino, meu objetivo e ainda estava 6 minutos adiantada – tempo que usei tentando me recompor para reunião.




A Rádio MEC




Prédio super antigo. Elevador com pantográfica e trancos entre um andar e outro. Os instrumentos sucateados, os móveis velhos, a construção gritando por reformas. Um complexo vertical, distribuído em 6 andares. 75 anos de vida, de histórias, de dial, de músicas, de sobrevivência. 75 anos de prestação dos mais variados serviços para umas três, quatro gerações diferentes. E que beleza de trabalhadores! Que maravilha de radialistas! Quanta gente boa! Simpatia, competência, comunicação, luta... O pessoal da Rádio MEC se equilibra nas possibilidades limitadas para as emissoras públicas com algum lamento, mas com a cabeça erguida e sorrisos estampados no rosto, destilando bom humor.



E a grade de programação? A FM se dedica ao repertório erudito. A sintonia é uma grande sala de concerto. Ha raríssimas exceções como para o jazz e o choro e atualização de notícias em boletins rapidinhos de hora em hora. A AM tem repertório variado, transita pela boa música popular em seus diversos estilos.




A MEC é um dos braços da EBC. Tem outras irmãs: Rádio Nacional do Rio de Janeiro AM, Rádio Nacional do Rio de Janeiro FM, Rádio Nacional de Brasília, Rádio Nacional do Alto Solimões, Rádio Nacional do Amazonas e MEC AM de Brasília – todas giram independentes, mas unidas pelo laço EBC.
Eu, e-Paraná, e Guilhon, EBC, conversamos muito, trocamos informações, discutimos papeis, levantamos possibilidades, relembramos casos e, por fim, combinamos parceria com intercâmbio entre as instituições. Então, daqui a pouco, o que fazemos aqui, aparecerá lá e o que fazem lá passeará por aqui.

Minha alma canta
Fome, muita fome. O Jaime e a Nair enfrentaram um trânsito pesado me pegaram na MEC, subiram e desceram ladeiras de Santa Teresa, revelaram paisagens, podaram ônibus, cruzaram ruas e desembocaram na Atlântica. Fomos almoçar lá no sensacional La Fiorentina. A comida? Muy rica! O ambiente? Simple et elegant! Os vizinhos de mesa? Very discrete! Mas o melhor de tudo, o bolo inteirinho de uma única cereja (porque minha lógica é ao contrario da expressão), o bom mesmo, foi a companhia e a conversa da Nair e do Jaime – cantora e instrumentista, entre outras muitas coisas.




O dia foi fechado com chave de ouro. E é muito bom pensar nisso, já que ele não fugirá, não mudará, não escapará. Ficará lá, trancadinho no meu passado, acomodado no meio de tanta coisa bacana, sobrevivente na minha memória com as portas abertas da MEC, os cumprimentos do chef do Fiorentina e o arremate da Nair e do Jaime.


O Rio de Janeiro continua lindo!
Aquele abraço!


O Clube da Luluzinha



Me lembro da primeira vez que vi a Luciana. Eu estava nervosa, carregava uma bolsa pesada, com livros, dicionário e muita expectativa. Foi meu início na Educativa, com o José chefe.
A Lu vestia uma calça curta, tipo catar siri na praia, uma bluzinha azul cheia de fru-fru e sandálias pretas. Era um dia quente, ensolarado.
A sala da produção da Educativa era algo do tipo bagunça organizada, muita gente, muito trabalho, um computador. Eu não tinha lugar, não tinha mesa, não tinha cadeira e não sabia direito o que ia fazer. Tentava conversas com meus futuros colegas de jornada, mas ninguém tinha muito tempo para boas vindas.
Como não sabia pra onde ir, fiquei ridiculamente quieta, em pé, tipo múmia, tipo poste. A Lu chegou, perguntou meu nome, meu signo e o que eu ia fazer. Timidamente me apresentei: “Adriana, áries, ainda não sei direito minha função”. Ela me disse o nome secamente e me mandou a sentença: “hoje é meu último dia aqui”. Tensão! A Lu não era muito simpática naqueles tempos.
O meu debute no dial estava acontecendo ao mesmo tempo do que pensávamos ser o final da carreira radiofônica dela.


Meses depois ela voltou para programação. Para misturar músicas, criar blocos, inserir ideias, conceitos numa rádio que era a melhor da cidade. A programação da Lu sempre foi linda, fluida, duvido que houvesse ser entregue aos prazeres da boa música brasileira capaz de mudar de estação quando ela estava operando a pick-up.
Com o tempo fomos ficando próximas, trocando conversas, falando segredos. Ela fez meu mapa astral e perdeu um pouco do horror a uma pessoa áries com ascendente em áries (!). Nos tornamos amigas. Dividimos tudo: a sala, o computador, as loucuras, a revolta, a analista, os papeis. Por muito tempo fomos tratadas como uma única pessoa.  Ficamos tão amigas que até nos foi permitido brigar. E depois fazer as pazes, num abraço longo e num pedido de desculpas mútuo, num encontro inesperado ao lado da seção de bananas do supermercado – nada mais apropriado.
Eu e a Lu trabalhamos, bebemos, comemos, trocamos, planejamos, discordamos em tudo, seguramos as barras uma da outra há mais de uma década. A Lu sabe tudo de mim. Conhece minha essência, fala do sol na 12 e da casa 3 não sei onde para explicar minhas loucuras. Escrevi o MPB para Crianças por conta dos incentivos dela. 
Eu tenho muita sorte por pertencer ao Clube da Luluzinha! 
Feliz aniversário, querida!


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

De chuva, de amizade, de amor e de outras coisas



Quando eu era criança tomava banhos intermináveis de chuva. Não sei quantos foram, não tenho a contabilidade, mas lembro de muitos. Lembro do Zé e eu em algazarras inesgotáveis debaixo de grandes torós. Meu irmão me fazia muito feliz, ele sabia aproveitar a chuva e me ensinava a perder o medo de ir correndo da calçada até a beirinha, no começo da grama, e me jogar e escorregar e fazer do campo verdinho um tapete macio, que melhorava a queda ao mesmo tempo que empurrava pra frente. Íamos correndo e nos atirávamos na grama para escorregar: de bunda, de peito, de lado, de qualquer jeito, dependia do jeito em que caíamos.
Nós corríamos pelas ruas, não passavam carros porque ninguém se arriscaria a dirigir no meio das tempestades de verão, parávamos debaixo de calhas que se transformavam em cachoeiras, deitávamos no chão e por fim, acabávamos com vassoura nas mãos e sabão em pó, lavando a calçada, churrasqueira e áreas livres da casa da minha infância.
Nós éramos munidos pelo combustível da diversão. Minha irmã, pequena, olhava pela janela e nós não sentíamos o peso da tristeza dela por não poder participar daquele momento nosso, só nosso. Dávamos voltas pela casa, brincávamos de pega-pega. Nunca de esconde-esconde, porque acho que meu irmão, mais velho que eu, não me deixaria longe dos olhos dele, não sei se por recomendação da minha mãe ou se por um sentido de responsabilidade fraternal.
O mundo, feito de água e raios, nos pertencia.
Ontem choveu muito aqui. Choveu a mesma chuva de quando eu era criança. Observei os 15 minutos de água, vento e trovoadas da janela, respirando aquele cheiro e sentido os respingos, trazidos pelo vento, no rosto.
Uma preocupação ou outra da vida adulta (será que fechei a janela do quarto? será que as crianças estão bem? será que tem goteira em cima da TV de volta? será que minha mãe está em casa?) e fechei os olhos para aproveitar aquela montoeira de sensações e lembranças.
Quando a chuva passou, veio um desentendimento, uma rusga, que acabou em briga, choro – que não quero contar.
A conclusão? As águas da infância trazem uma coisa, as águas da vida adulta, outra. Se muita água passa por debaixo da ponte da vida, é bom saber aproveita-las de sol a sol.
Se chover hoje juro que surpreenderei o verão e me mando pra rua, como se ainda tivesse 8 anos ou 10 ou 12 ou 39!