segunda-feira, 26 de maio de 2014

na fumaça do cigarro



Comecei a achar que essa tristeza que não passa é meu estado natural. Talvez a minha linha-mestra seja essa, uma eterna lágrima que se precipita mas não cai.
As variantes em torno disso, momentos de alegria suprema e de sofrimento desesperante, são os temperos que me tiram da pasmaceira do cinza.

Os dias vão passando e eu as vezes me revolto. Para vingar solto gargalhadas, danço, bebo, como chocolate, brinco com o cachorro, observo os filhos, ouço o bumbo da Mangueira, tomo banho quente. Como desforra, o reconhecimento dos pequenos prazeres que chacoalham a alma e declaram amor à vida.

Teve um tempo que eu achei que deveria atingir felicidade plácida como modus operandi. Obrigação impossível. Larguei mão e enfileirei os dias para poder observar melhor o que poderia viver em cada um. Me fiz assim, um dia de cada vez. Só hoje.
Sem projeções, sem lamentos, sem grandes perspectivas. O que tenho para hoje é o grande material para a vida inteira. Tudo resumido no presente do indicativo.

A ventania do futuro ainda me castiga. Vez ou outra me pego pensando sobre o dia de amanhã, os sonhos, a sobrevivência, a aposentadoria, a pousada em Antonina. Faço esforço para a distração desses pensamentos. Choro, mordo os lábios.
Tenho pena de deixar as ilusões trancadas. E me assusto quando penso que virei pessoa sem devaneios, sem fantasias, sem planos: mendiga a recolher farelos da existência.

Percorro os caminhos internos e descubro lá atrás que tudo isso é medo da decepção. É fraqueza de não querer lidar com o adverso. Anemia no caráter para o desgosto.
De alguma forma, essa fragilidade me coloca de pé para combater os desenganos ao mesmo tempo que os coleciono.

Procuro não exercitar a queixa e me atirar de verdade em tudo que tenho, que não é pouco. Sem garantias, vivo hoje.
Amanhã? Não sei. Amanhã é terça-feira e tudo pode mudar.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Primeiro Motivo da Rosa


Amanheci dentro de um dia perfeito.

Quando cheguei na cozinha, a pia estava limpa, seca, vazia, o suco pronto, pão quentinho.

Apertei o botão e Mozart, rápido mas não muito, tocou baixinho pra mim.

Com os primeiros raios, veio o cão. Preguiçoso, deitou-se no tapete e encostou a cabeça no meu pé. Ficamos por ali, em silêncio, vendo o dia chegar, os barulhos anunciantes, o friozinho pela janela, árvores em balanço suave.

Disse não ao jornal e saquei Meireles, a Cecília, abri em página qualquer, como amuleto da sorte, oráculo do dia, biscoito chinês, dica zodiacal. Para melhorar o que já parecia o ápice, ela me disse assim:
Vejo-te em seda e nácar,

e tão de orvalho trêmula,
que penso ver, efêmera,

toda a Beleza em lágrimas

por ser bela e ser frágil.



Meus olhos te ofereço:

espelho para face

que terás, no meu verso,

quando, depois que passes,

jamais ninguém te esqueça.



Então, de seda e nácar,

toda de orvalho trêmula,
serás eterna. E efêmero

o rosto meu, nas lágrimas

do teu orvalho... E frágil.

O escândalo das primeiras horas se perpetuou durante o dia e hoje nem senti falta do mar...



pare, olhe, escute, olhe de novo, confira, reclame imediatamente



Os amigos mais de perto sabem como detesto shopping. De-tes-to! Frequento na medida de minha necessidade, nunca por passeio, por escolha primeira. Até a ida ao cinema foi reduzida em minhas ocupações de diversão. 
Mas vez ou outra é inevitável. Não. Até é evitável, mas causa transtorno sem fim...

Final de semana passado, cada filho tinha um compromisso diferente, horários apertados e vontade de almoçarmos juntos. No meio do caminho, o Park Shopping Barigüi.
Sábado de sol, dia bom pra pegar um restaurantinho ao ar livre, curtir uma feijuca, rodar o limão no copo e se entregar à caipirinha. Sem tempo, fomos pro shopping.

Como não tenho paciência pra procurar vaga em estacionamento lotado, usei os serviços de Vallet: rapidez, conforto, manobrista, encurtamento de trajeto. Ótimo. Será?
Me foi cobrado pela parada, 21 mangos. Tudo bem, acho justo.

Na volta pra casa, percebi o porta-moedas aberto. Além das pratinhas habituais, carrego algum dinheirinho para emergências cotidianas: quando a Lívia vai descer do carro e lembra que não tem dinheiro pro lanche, quando resolvo comprar frutas no sinal, quando paro rapidinho na padaria. Pois bem, abasteci o cofrinho um dia antes e por isso sabia tostão por tostão o tanto de graninha que tinha por lá.
Percebi que fui roubada. O palhaço do manobrista me levou vintão.

Pô! Que desaforo!

Cheguei em casa e escrevi ao shopping. Relatei, reclamei. Ontem recebi ligação de uma menina que não deveria ter mais de 15 anos a me dizer que não podiam fazer nada, que “os manobristas são treinados, senhora, para não mexer nos pertences dos carros” e que se isso acontecer de volta eu tenho que relatar no mesmo dia para que providências sejam tomadas.
Rebati e disse que comuniquei o fato meia hora depois de ocorrido. “É que o canal de comunicação não trabalha final de semana, senhora”.

Então, fica o recado: seja roubado só em dia útil!  

terça-feira, 20 de maio de 2014

30 mil vezes



Trinta mil vezes visitaram meu blog.
Os amigos, decerto. Os inimigos, talvez. Os curiosos, os que não conheço, os que têm um tempinho, os amigos dos meus amigos, os amigos de meus inimigos, os inimigos de meus amigos...

Tem gente da Ucrânia, da Alemanha, dos EUA, Polônia, Reino Unido, Itália, Argentina. Fico curiosa.
Gosto de me comunicar pelo blog, de saber que há interesse pelo que penso ou sinto. Vaidosa.
Escrevo sem compromisso, só o que me dá na veneta, quando quero, quando a musa se apresenta, sem cobranças. Sou preguiçosa.
Mesmo assim, trinta mil vezes fui lida. E sinto agora um orgulho piegas de estar de alguma maneira entrelaçada a outras vidas, na sequência infinita que é nosso papel humano na terra – me sinto parte da poeira cósmica, sou grão de areia como meus irmãos de jornada, estou integrada a vida de outros na mesma corrente planetária de comunicação.

Segundo o que sei das estatísticas, trinta mil acessos é pouco. É nada. É o que gente importante tem em míseros instantes, em algumas horas; um dos blogs mais visitados do Brasil tem 400 mil visitas por dia.
Mas ainda assim comemoro: trinta mil vezes leram o que eu escrevi!

Não faço fofoca política, não ligo para celebridades, não tenho humor reinante, não comento manchetes de jornais, não há linha editorial. Escrevo o que rodopia dentro da cabeça, conversas sem encomendas.
Vou vivendo e de vez em quando postando. É um jeito de reinventar o papo, de alcançar o outro, de trocar.

Sei que não sou sempre aplaudida e que tenho uns leitores que me visitam naquela relação meio doentia de odiar o que escrevo e só ler para comprovar suas teorias sobre minhas besteiras. Não importa. Ainda assim tive trinta mil vezes a atenção, o tempo, os olhos críticos.
Tenho também a grande honra de me apontarem, vez em quando, como tradutora de pensamentos alheios, volta e meia recebo a mensagem “era isso que eu queria dizer” ou “eu penso como você”. E essa é minha glória.

Do quartinho dos fundos, que transformei em escritório, trinta mil vezes repito: estou feliz, agradecida, agraciada.
Trinta mil compassos! Evoé!

os alquimistas estão chegando...



Carla,

O outono está no fim. Caíram as folhas, os cabelos, as saias. Logo o ar impassível desabará sobre nós e o vento cortante rasgará nossas fibras. As lãs sairão dos armários e os jeans se misturarão a botas, luvas e capas. As gentes esconderão o corpo, as vezes com elegância e dignidade, as vezes com extravagância e agrura.

Vivemos o último suspiro do verão, os dias em que ainda é permitido usar mangas de camisa para passear nos vinte centígrados.
São as últimas horas em que sair da cama, entrar no banho, lavar a louça, caminhar com o cão não são tarefas das mais penosas.  

Os ipês cor de rosa começam a chegar. E talvez seja essa a boa notícia desse lado do hemisfério. Colorido nas árvores, daqui a pouco a pintar tapete no asfalto.

Pra mim o outono nunca foi prenúncio de inverno, sempre finalzinho de verão. De qualquer maneira é transição. E você sabe o que essas passagens fazem dentro da gente, né? Viramos bicho, bestas a obedecer a natureza e nos guiar por suas fases. Tenho medo do frio, do escuro, dos dias menores, dos ventos uivantes, das longas noites... Um mês para esse encontro.  

Sei que para sua média anual do Amazonas a notícia de friozinho pode parecer bálsamo, causar inveja e saudade. Mas não se engane, Carla, é o verão se despedindo e isso nunca é bom.
O mar está gelado, o sol tem preguiça de boiar por muitas horas no céu, os finais de tarde em aquarela são cada vez mais raros.

Apesar da iminente mudança, as prestações continuam chegando, a geladeira se esvazia, a gasolina acaba. Apesar do novo instante que se anuncia em nossa cíclica vida, é preciso arregaçar as mangas, seguir para o trabalho, bater o ponto. É preciso desprezar a mudança e continuar.

Seria bom se você estivesse por aqui, pelo menos poderia apreciar sua coragem louca de sair da cama antes das cinco da matina, de pular em piscina fria, de se encantar com geada na grama e de explicar minhas nuances com a chegada da estação.
Seria bom se você tivesse por aqui!   



quarta-feira, 14 de maio de 2014

que brisa é essa?



O futuro está tentando se aproximar de mim. Chega aos poucos, sem aviso nem estardalhaço. Vem, me tira pra dançar, me sussurra no ouvido uma ou duas palavrinhas em língua que não conheço, faz meia volta e some no adiante. 
Ele brinca, me venda os olhos e empresta a sensação de sua chegada. É mestre no jogo do óbvio ulterior, derrama suspeitas que depois do escorregar do tempo se transformam em lembranças evidentes.

Olho fundo no espelho, reviro pensamentos, busco conexões. Espio o nada que ele é e me recolho sem resposta, me falta a veia estrategista, o saber da leitura e da projeção.

Mais valia ter sexto sentido inexistente que descalibrado desse jeito!
Coisas que todas as minhas sensibilidades provadas e conhecidas não alcançam acabam me cutucando de um jeito intuitivo, me dando pistas sem provas de existência e me fazendo ridícula diante do meu existencialismo.

É empresa das piores ter o futuro mostrando cascas de banana, assombrando, ameaçando, esburacando caminhos.
Eu poderia planejar Istambul, casa própria, amor eterno, cabelos ao vento, atenuação de rugas, sol amarelinho. Mas não, essa brisa que me sopra e me arrepia a pele também me amarra e reduz.

As surpresas do amanhã me dão medo. Mas sei, porque é madrugada, há mais medos que perigos. 


sexta-feira, 9 de maio de 2014

domínio público, ignorância privada, dinheiro nosso



Por conta da Coleção MPB para Crianças, há alguns anos me aventuro no prazer de apresentar ao público infantil artistas de nossa música. É trabalho sério, que me proponho porque acredito no que ele representa a respeito da memória, história e da identidade brasileira. É também trabalho cansativo, que precisa de perseverança e força para lidar com o bombardeio que vem em sentido contrário.

De Santa Amélia a Aracaju, de Florianópolis a Brasília, de Londrina a Recife, fui para muitos lugares na labuta de contar sobre Noel Rosa, Pixinguinha, Elis Regina, Tom Jobim... A coleção chegou à Feira do Livro de Paris, se tornou parte de um kit que o Ministério das Relações Exteriores entregou em grande parte de nossos consulados para conhecimento dos brasileirinhos que estão espalhados pelo mundo. E também entrou como material pára-didático em escolas.

A história de cada artista, por si só, é interessante e atrativa: aventuras, contradições, superações. Sei que as crianças gostam porque ficam com os olhos vidrados quando ouvem sobre as maluquices de Ary Barroso ou sobre as dificuldades de Carmem Miranda.
As informações têm filtro, claro, não dá para largar um tijolo de biografia na cabeça dos pequenos. Mas as que constam em visitas, palestras ou nos livros são fieis, verdadeiras.

Na hora de ouvir as músicas, invariavelmente, ocorre um estranhamento geral. Não é fácil, nos dias de hoje, se entregar ao chiado dos bolachões da primeira metade do século passado. Respiro fundo, aumento o som e tasco Noel cantando. Risadas, torce-torce de nariz, piadas e sempre o mesmo fim: por que ele cantava desse jeito?, por que o som está tão ruim? Com isso, nova viagem de informações começa e percorremos juntos as novidades tecnológicas de cada década e chegamos à parafernália que temos hoje. Duas histórias de uma vez só. Contentamento quase unânime.

Há também a dificuldade do vocabulário. Entender tudo o que nosso Ary quis dizer em Aquarela do Brasil, por exemplo, requer esforço. E é isso que fazemos, as crianças e eu nos debruçamos em dicionários para descobertas, para decifrar metáforas, para aumentar o vocabulário e com isso entender que uma música sempre quer contar alguma coisa - é preciso atenção, ouvidos de ouvir.
Essa é a hora da grande oportunidade de sacar um jeito de escutar música, de entender mensagens, de ler em entrelinhas, de fazer a escolha entre “Agora eu fiquei doce igual caramelo
/ Tô tirando onda de Camaro amarelo” ou “Enquanto houver Brasil, na hora da comida / Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu”.    

A tal da Patrícia Secco, de quem não sei mais do que sua vontade de fazer com que um dos nossos maiores nomes da literatura rasteje em sua pouca possibilidade com o ofício que escolheu, poderia gastar seu tempo com a bolação de tática para elevar o nível de ensino e conteúdo.
Uma história não é apenas os fatos, é principalmente, como eles são contados. 

Horrível pensar que o indiscutível Machado, que atravessa os tempos nos dando infinitas aulas de escrita, de técnica literária, de genialidade com a palavra possa se perder na mediocridade de uma escola analfabeta, pior, que para isso conte com os incentivos federais, com a nossa grana.

Perdão, Machado, eles não sabem o que dizem, o que fazem, eles não sabem nada. 


"Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente 
a sua idéia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e 
desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos."
(O Alienista, Machado de Assis)

Por que cargas d'água Patrícia Secco quer mudar isso?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

3X4 - Cris Lemos


Cabelos alvoroçados, aneis nos dedos, chiquérrima em salto ou em biquíni e chinelo, ela diz não à cafonice reinante. A Cris é rainha de todos os espaços. Chega e toma conta do ambiente. Fala por todos, para todos, com todos.

Tem os sentimentos na ponta da língua e acho que por isso canta. E como canta! E só canta aquilo que lhe cai no coração. E quantas coisas lhe tomam: noite clara, vinho, fita e seda, o aceso da paixão e o faz de conta que morre no mar, o revólver e o coqueiro, o verde e o rosa, o general da banda e as mãos de explorador.

O amor tempera sua vida e os impulsos guiam. Se der na veneta, telefona e diz tudo o que sente, depois pensa. Suas vontades gritam insanas, mas passa madrugadas a refletir quietinha sobre a vida, os caminhos, as escolhas.

Cris ri, chora, fala, canta, ergue brinde, tudo ao mesmo tempo. É tempestade que chacoalha quem está por perto. Turbilhão de maluquices e lucidez, ideias e talentos, rock’n’roll e bossa nova, mulher fatal e avó. É muitas e verdadeira em todas. Cris Lemos é uma festa!


sábado, 3 de maio de 2014

troco cárcere privado por gafieira de sábado


Ah! se eu te dissesse sim, tudo estaria resolvido:
sem romance,
frango assado aos domingos,
escuridão à noite,
clima familiar,
nada de relance.

Se eu colocasse o anel, tudo seria encaminhado:
mudaríamos o recenseamento,
humores às últimas conseqüências,
contas a pagar,
televisão e sofá,
novo financiamento.

Se eu caísse na sua, o problema seria outro:
abertura de falência,
horário não respeitado,
visita da família,
disputa pelo controle,
falhas na jurisprudência.

Ah! se eu vestisse o véu, a vida mudaria:
férias em dezembro,
prisão domiciliar, 
rotina ordinária,
chá das cinco,
sem primavera em setembro.





terça-feira, 22 de abril de 2014

posta-restante



Eu sou do tipo que ainda escreve cartas. Gosto de me comunicar assim. Desde sempre.

As vezes esqueço de enviá-las, as vezes transformo-as em email e as vezes as deixo aqui, quietas, caladas: eu remetente e destinatário.

Elas são muitas e escritas quase que diariamente. Antigos amores, amigos distantes, família espalhada. Escrevo para poder continuar dentro de mim mesma sem enlouquecer com a solidão. Escrevo porque tenho coisas a dizer. Escrevo porque é a única forma de continuar.
Minhas cartas são os bonecos de neve que construo da matéria que ainda continua em volta. São o salto na piscina que espalha a água que não acaba. São as notícias de um jornal: amanhã existirão outras, sempre existirão outras e continuarão, mesmo sem novidades.

A saudade é o tema que elas mais visitam. Mas também falam de perdão, de confiança, de amor, de música, do cachorro, da máquina de lavar. Contam de noites de sol, do réveillon, dos dias santos e dos planos do futuro. Levam notícias das férias, do trabalho novo, da receita testada, do vizinho bonito do outro lado da rua.

Em dias de clareza com a vida e os sentimentos, escrevo pra mim mesma com o aviso para serem lidas daqui cinco, dez, até 20 anos, para que lá na frente eu receba as novidades do meu passado. Fico contente quando o carteiro chama com uma carta pra mim, mesmo que seja eu a ocupar todos os lados da linha.

Tenho pilhas e pilhas de cartas aqui. E uma preguiça do tamanho do mundo de tomar as providências cabíveis: correio, lixo, fogueira.
Elas vão ficando, a tomar espaço e a se espalhar em gavetas, armários e bolsas. Objetos identificados e endereçados. Mensagens de amor que não podem esperar, o amor nunca pode esperar!, mas ficam aqui, em silêncio, aguardando a pátina do tempo, amareladas. Quem sabe um dia?

Neurose que me cura, me adoece, me mantém viva e em contato, nem que seja comigo mesma. Porque nem tudo está perdido, assim, eu entrego meu coração.




quinta-feira, 17 de abril de 2014

yo no vengo a decir un discurso



Ainda menina queria ser Gabriel Garcia Marquez quando crescesse. Não tinha propósito com a escrita, mas buscava um jeito de me aventurar em histórias bem contadas, tiradas de vida rica, olhar atento e devaneios por decisão.

Fui conhecendo-o aos poucos e me apaixonando na medida. Teve uma época que renunciei a todo pretendente porque bordava-o na cabeça minha metade – sonhava, arquitetava planos, planejava viagens, decorava no espelho falas completas.
Eu amei Marquez e no dia em que li no jornal uma gracinha dele pra cima da Shakira, o odiei com o ciúme mais doentio e maluco que se tem. Perdoei. Porque cabia a mim dar o passo para reconciliação.
Brigava sempre que ele visitava Fidel e falava aquelas besteiras. Soube relevar, porque até o mais inteligente dos homens tem direito às próprias bobagens.  
Ah! tive os tormentos noturnos, as vontades de Cartagena, Paris, México, o desejo de persegui-lo e guiá-lo. Quanto charme, quanto saber do humano, quanta percepção...  

Ele me convenceu com suas pretinhas deitadas no branco que o melhor do mundo está no papel e a maior de todas as artes é dominar a linguagem, quem tem esse poder convence qualquer um das mais impossíveis histórias. 
Fui Firmina Daza com cabeleira de Sierva Maria Todos los Ángeles, caminhei por Macondo, experimentei gelo, virei Buendia, escrevi ao coronel, odiei Angela Vicário e sua dupla de irmãos. Vivi mil histórias, sempre de mãos dadas com ele, homem que me foi prometido e nunca entregue.  

Agora, meus olhos arregalados me dizem que acumulo cem anos de solidão. A história de toda a  humanidade louca de Marquez está aqui dentro, comigo, a fazer barulho de velório.

Meu grande companheiro dessa vida foi embora – realismo. Viverá para sempre em meus pensamentos e minhas vontades e todas as vezes em que abrir um livro e sentir aquele cheiro ele se materializará de volta pra mim, fantástico.   


segunda-feira, 7 de abril de 2014

um pouco encantado, um pouco real



Existe, está no mapa, tem rádio, prefeito, igreja, bordel, escola, restaurante. Tem ruas, praça, calçada e até semáforo – um só, mas está lá: atenção, pare, siga. Tem lojas, farmácia, peixaria e mercado. Tem música, lendas, apelidos e carnaval. Tem água, barcos, porto, trilhos, árvores e flores.
Tudo muito tátil, muito ao alcance das mãos, dos olhos. Mas a léguas do entendimento possível em outros sítios.

Há um ritmo. E ele acaba por ditar tudo aquilo que não se explica. No compasso de seus ventos, de sua gente, de seu comércio, de seus sinos a vida se instala e mostra quais são os intervalos entre uma atividade e outra.

O primeiro galo canta ainda quando o dia não rompeu. Mas esse galo não mora lá, ele canta a 80 quilômetros de distância, o som de seu cacarejo viaja devagar, desce ladeiras, escorrega caminhos, quebra veredas, banha-se em rios, faz arruaça pelas vizinhanças e quando chega na cidade para acordar os pares, o relógio marca nove horas da manhã. Lá os galos se acordam e acordam os outros a partir das nove da matina, madrugada. É quando o dia começa, quando o primeiro cachorro se espreguiça, quando as flores do dia se abrem e os passarinhos saem dos ninhos.
As nove da manhã o primeiro homem, acordado pelo primeiro galo local, corta a primeira lenha para o primeiro café. O sol começa a subir. E sua primeira xícara desce preguiçosa, chacoalha o metabolismo em câmera lenta para que o trabalho comece: olhos na baía, coceira pelo corpo dormente, preguiça.

Os cachorros se arrastam pelo caminho para atravessar a rua e achar o ponto de parada e soneca do dia. Os passarinhos vêm, cantam devagar, nota por nota, pios vadios, sem alvoroço.

Todo o trabalho dos homens, das mulheres, do comércio, das casas, em todos os lugares e a qualquer tempo é slow, vagaroso, moroso. Uns chamam de preguiça outros de vida besta mas eles não têm urgências – o grande acontecimento é a morte e ninguém se precipita pra ela.

A igreja, a música e a televisão emburrecem. A natureza faz contra-ponto e como ela também procrastina, ensina a viver como os galos, como o sol, como a passarinhada e mantém um povo inteirinho dia após dia, chuva após chuva em cadência sem horizonte, sem motor, sem progresso.

A pressa não existe, Inês já é morta, a vida segue de qualquer maneira e amanhã o canto do galo viajará como luz de estrela que não existe mais para recomeçar o dia, reabrir as janelas e continuar o eterno domingo.


rivotril em 3, 2, 1...



Eu queria fechar os olhos e ir. Rodar feito João Gilberto na direção do Monza. Deixar cair prum lado e outro, vela na brisa.

Corpo solto no mar, estendido de norte a sul, mãos leste a oeste.

Leveza de gaivota, pensamentos soltos, pés descalços.

Queria mais, queria ser pluma no gesto, palavra e ação. Queria ter a beleza etérea das bailarinas a hipnotizar no primeiro olhar.

Como seria bom flutuar por aí, passear de sítio em sítio e ser confundida com miragem, fantasma, sereia. Ilusão que se materializaria com voz suave. Quem me olhasse acharia que eu, suspensa, dominava a gravidade e fazia de todos os lugares a minha lua particular.

Assim, suave, branda, calma talvez me fosse permitido adormecer.


A insônia me provoca, me maltrata, me pinta o rosto.


Ela apura os sentidos: audição de morcego, biossonar, a captar qualquer decibel da rua, da madeira da casa estalando, de um carro a quadras de distância; visão de rapina, que enxerga longe, de felina, que desvenda formas no escuro, pupilas dilatas; olfato de perdigueiro, alguém fumando no andar de baixo, pétalas florescendo na praça da esquina, o vidro de perfume aberto. Fico à flor da pele, calor, frio, arrepio... 
Tudo em escala.

Não dormir é como aquelas drogas inglesas que se vendem com a promessa de ativar tudo. É estar entorpecida ao contrário, no antônimo. É o corpo a gritar na calada, é abrir os olhos para o escuro.

Não dormir é uma praga que revira a alma, causa dependência e estraga a noite, que é o melhor do dia.    
   


quinta-feira, 3 de abril de 2014

amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada...



Dos serviços que pioraram muito na última década, os emprestados pelos Correios estão lá a figurar incompetência e atormentar a gente.

Atenção, companheiro, acompanhe o caso: a encomenda foi postada em São Paulo, aqui do ladinho, estado vizinho, coisa pouca de distância, no remoto dia 24 do mês passado.
Lembra o que você estava fazendo às 13:19 do dia 24 de março? Não, nem eu, já faz tanto tempo... Pois minha encomenda começou sua viagem nesse horário, naquele dia. Eu não gosto nem de imaginar por quanta coisa ela tem passado nesse período – mãos descuidadas, solavancos, todo tipo de intempéries e riscos...

Não sei porque cargas d’água o lance não chega aqui! A incompetência do serviço promove a picaretagem institucionalizada: como não assumem a inabilidade, eles a justificam como “motivos operacionais”. Ora bolas!, motivos operacionais, o que é isso, companheiro?
Acompanho pelo site o caminho do meu pacote. Desde segunda-feira a rodar pela cidade sem chegar à minha casa por “motivos operacionais”. Como a explicação não esclarece o que aconteceu, o Correio não fala comigo por telefone sobre o caso e pessoalmente ninguém sabe explicar, eu fico a tentar adivinhar as causas e a torcer para que elas se solucionem, sejam quais forem.

E tudo que ofereço é meu calor, meu endereço? Não. Não mesmo! Paguei direitinho. Adiantado, o que eles me pediram, sem negociação.

Pô, companheiros!? Até os Correios? Até lá onde tudo dava certo? Pô!