Poucas vezes pisei doente. Aprendi a conhecer o corpo e dar água ou chá ou gelo quando ele me conta seus sinais. Mais não sei.
Já recorri a médico: emergências noturnas, paradas vespertinas ou convencionalidades matinais.
Também me tratei com curandeiros, benzedeiras, feiticeiras, simpatias e bruxarias.
Para cada tipo de ziquizira uma comidinha diferente: sopa, água e sal, purê, sorvete...
Observei algumas coisas: corpo em curto não combina com pés no chão, friagem ou agitação; aperto no peito muitas vezes é sintoma de saudade; o cotovelo só dói se provocado e nenhum entrave moral resiste a dor de dente.
Tomei vacinas, tive caxumba, varicela e pneumonia. Tenho ciclo regular, bom fôlego e resistência impressionante.
Conheci as consequências de comer ostra estragada e de beber rum em demasia.
Tenho coração galopante, arrítmico, apressado. Fui diagnosticada com pré-síncope, código I-49 e extrassístoles supraventriculares.
Algumas ideias passeiam pelo corpo e inspiram arrepios, dores de estômago e coceira na pele.
O nervo ciático conversa com todas as tribos e desencadeia reação em massa.
Faço acupuntura, tomo remédio, sou míope e conto com 254 mil incansáveis plaquetas.
Sílvio, você foi um grande homem! Cabeça rápida, memória de mil elefantes, mente aberta. Sempre uma história, uma música, um poema... Quanta coisa coube no seu coração!!! Gatilho certeiro para piadas e para relembrar histórias engraçadíssimas. Humor refinado. Você sempre dizia que queria saber de vida e de alegria quando chegasse sua hora, mas não dá! Não cabe aqui, amigo. É impossível obedecer seu desejo, não há como esboçar sorriso sabendo de sua partida. Fácil é agradecer a sorte de ter tido a graça de conviver com uma criatura como você! Isso foi um privilégio! Sabe o que eu descobri no meio desse momento horroroso? Como o amor é concreto, palpável... dá para segurá-lo, tocá-lo, senti-lo no tato. Quando estava de mãos dadas com a Dona Iaiá, quando estava abraçada com a Tuti, enganchada no Sérgio ou passando a mão pelos cabelos da Lu, o amor corria por ali, se aconchegava em nós, esquentava o corpo. O amor por você se materializou pra nós. Guardarei comigo pra sempre, e assim que puder lerei em voz alta, “Os Olhos de Adriana”, meu troféu em cor jabuticaba dessa vida tão ingrata que leva os amigos da gente... Sua voz a fazer firula, narrando jogos em espanhol e tirando onda com nossos hermanos, para sempre me alegrarão. As horas infinitas de conversas sobre todos os temas; a partilha dos sentimentos; os conselhos; os copos; as comidas... Vai ser difícil esquecer como seus pés estavam gelados, seus soluços pela vida e aquela cena final de hospital. Não se preocupe com a Tuti, ela faz parte da gente, ela é da nossa turma, e a amamos por ter feito parte de sua vida de maneira tão soberana, e por sabermos quem ela é. Seus irmãos têm a força moral para sustentar o mundo. E a Dona Iaiá? Essa tem a sabedoria de mil homens... A nossa sorte é que não há morte capaz de te matar! Para sempre você ficará por aqui... Vai em paz, amigo.
Os acontecimentos mais importantes da minha vida têm relação direta com vocês.
Todos os dias, todos!, eu os observo em sigilo. E vou trazendo para minha vida as lições que aprendo com vocês. O nosso amor é ponte, que leva e traz coisas. De todos tipos, todas as cores, todos os sentidos.
É privilégio dos maiores sentir o amor no grau mais alto, mais puro, mais libertador... Ter na vida um amor maior que a própria vida! As mães sentem isso.
Mas eu, eu tenho mais. Tenho vocês dois como filhos, que são pessoas muito interessantes, cada um do seu jeito, cada qual com suas especialidades. Não há sorte maior!
Não tenho crenças, mas até chego a rezar para agradecer a beleza de ser mãe de pessoas tão bacanas.
Braço de ouro vale dez milhões!
É impressionante como o jogo mudou e hoje eu encontro em vocês amparo, conselho, ajuda, proteção e mais uma penca de coisas que até pouco tempo era ainda via de mão única.
Lívia, você me concede, diariamente, bom humor, inteligência, transparência, beleza, carinho. Sentidos abertos para a leveza!
Dé, todos os dias você me emociona, me alerta, me acalma, me intriga, me coloca em debates. Mente atenta para as mais profundas reflexões!
Vocês dois são complementares - duas vidas que dão sentido e completam a minha.
Não sei o que seria se não fosse mãe. Teria mais dinheiro, mais silêncio, mais tempo. Coisas que gosto e prezo. Mas me faltaria a maior experiência que uma mulher como eu pode ter. Me faltaria sentido, amor, pensamentos. Me faltaria luta, persistência.
Seria árvore sem galhos, sem frutos, sem flores.
O bom disso tudo, é que não acaba. Termina na hora de recomeçar!
Vocês carimbaram minha existência com o melhor que uma pessoa pode ter. E por isso, só por isso, a vida já vale todas as penas.
Você é uma criaturinha tão incrível! Eu sei
que já disse isso um milhão de vezes, mas me faz feliz reparar e repetir à
exaustão: se eu não fosse sua mãe, queria ser sua colega de escola, sua amiga
de conversas, sua companhia de shopping, sua vizinha ou qualquer outra coisa
que permitisse estar bem perto de você e para desfrutar a maravilha de humor
que você tem, sua precoce sensibilidade para as coisas do mundo e seu gatilho
tão rápido...
Estar perto de você e observá-la me comove e
me impulsiona, me orgulha e me acalma, me alegra e dá esperanças na humanidade.
O mundo precisa mesmo de pessoas como você!
Apesar de sempre lhe falar da minha
admiração, gosto de escrever aqui no blog para que você perceba o tamanho do
meu amor de outra forma, quietinha, aí, no silêncio do seu quarto...
música de Luiz Tatit, tão linda quanto tudo que ele faz.
Sempre que alguém Daqui vai embora Dói bastante Mas depois melhora E com o tempo Vira um sentimento Que nem sempre aflora Mas que fica na memória Depois vira um sofrimento Que corrói tudo por dentro Que penetra no organismo Que devora Mas depois também melhora
Sempre que alguém Daqui vai embora Dói bastante Mas depois melhora E com o tempo Torna-se um tormento Que castiga, deteriora Feito ave predatória Depois vira um instrumento De martírio duro e lento Uma queda num abismo Que apavora Mas depois também melhora
E vira então Uma força inexplicável Que deixa todo mundo Mais amável Um pouco é conseqüência Da saudade Um pouco é que voltou A felicidade Um pouco é que também Já era hora Um pouco é pra ninguém Mais ir embora Vira uma esperança Cresce de um jeito Que a gente até balança Enfim Às vezes dói bastante Mas melhora Enfim É só felicidade Aqui agora É bom É bom não falar muito Que piora Enfim É só felicidade
Lembro pouco dos meus dias passados. Acho que
a memória coloca barreiras pra gente poder continuar. É empresa complicada
ficar carregando pra cima e pra baixo os dias de felicidade e é também difícil
percorrer as avenidas da vida com o peso das mágoas cotidianas.
Tenho acontecimentos que, por alguma razão,
ficaram na vitrine da cabeça e volta e meia dou uma olhadinha neles.
Ontem à noite, antes de pegar no sono, um dos
pedacinhos que me trouxeram até aqui se exibiu pra mim.
Já desisti de entender as conexões que a
cabeça da gente faz. Mas nesse lance de um pensamento levar pro outro e esse
outro conduzir para um terceiro, eu cheguei a um dia em que deveria ter uns
oito anos.
Eu fazia ballet três vezes por semana. Tudo
nos conformes: sapatilhas, meia rosa, collant, rede para o cabelo em coque,
gestos delicados e passada suave. Menina esbelta, ágil, disciplinada e
flexível, tinha quase tudo pra ser bailarina. Me faltava o interesse. E ele me
faltava tanto que eu nem decorar demi-pliê conseguia. Minha cabeça sempre
estava no álbum de figurinhas ou no cachorro quente da cantina ou no jogo de
caçador do recreio ou no papel de carta da coleção ou em qualquer outra coisa
que não se relacionasse ou misturasse às aulas para meninas bem comportadas e
dotadas daquele ar etéreo que sempre me faltou...
Pois bem, num final de tarde, entre a
tentativa mal sucedida de uma meia-ponta e o fracasso em um tendu, eu espiava
pelo vidro da porta os guris do judô. Por algum motivo eles não estavam em aula
e brincavam, corriam, investiam em todo tipo de algazarra, conseguindo até
fazer bola com a faixa-patente amarela para um futebolzinho improvisado.
Fingi vontade de banheiro e saí da sala. Como teco-teco na bola de
gude era o meu viver, logo me meti na fuzarca dos meninos e, feliz da vida,
dividia corre-corre e gritaria. Vez ou outra uma espiadela na porta de vidro
para, pelo reflexo do espelho, sacar em que momento da aula estavam as gurias
flutuantes.
Quando o tempo regulamentar se aproximava do
final, era hora de voltar da gazeta. Com pressa, não calculei bem e não pensei
na dificuldade que seria frear uma sapatilha em alta velocidade e me espatifei
na porta de vidro. Cacos para todos os lados – cacos meus e cacos da porta. Por
sorte, fiz minha entrada triunfante de joelhos e foram eles os premiados no
acidente. Levei um milhão de pontos que demoraram a fechar e mais ainda a me
devolver a liberdade primeira de ir e vir.
Toda vez que lembro desse
episódio, vou às gargalhadas quando penso numa menina no pronto socorro do
Pequeno Príncipe, que, horrorizada com meu estado disparou: “Guria, como você
rasgou a sua meia-calça?”.
89 anos bem vividos, bem aproveitados, bem gastos! A existência de Paulo Vanzolini foi de total contribuição aos meios que decidiu dedicar tempo e esforços. Na ciência, organizou vida e cabeça para se especializar zoólogo. Tornou-se doutor pela Universidade de Harvard; organizou coleção de 130 mil bichos, entre répteis e anfíbios; montou biblioteca pessoal com mais de 50 mil volumes, que carrega o título de a maior da America Latina; idealizou um sem-fim de projetos; encabeçou estudos e colaborou com a atenção de quem compõe, encaixando nota por nota, acorde por acorde, com o desenvolvimento de pesquisas tão importantes que hoje há uma coleção de táxons em sua homenagem. É ótimo ver e saber um nome nacional cheio de respeito e de admiração na ciência mundial. Na música, não colecionou obra extensa. Mas tudo, absolutamente tudo, tem o cuidado microscópico que aprendeu na outra atividade. É fundamental citá-lo como representante (ao lado de Adoniran) do samba paulistano, da narração dos costumes, lugares e situações das gentes tão misturadas da grande cidade do Brasil. Vanzolini é dono daquelas maravilhas sutis que embalam a alma e despertam os sentidos. Seja no drama de “Ronda”, no conselho de “Volta por Cima”, nas reflexões de “Samba Erudito” ou no humor de “Praça Clóvis”, a sofisticação de música e letra dá ideia das 65 maravilhas que compõem o conjunto de sua obra musical. A ciência e a arte ganharam um grande trabalhador. Hoje não perdem, mas colhem frutos plantados durante quase um século de vida. Feliz do país que pode ter em sua relação de grandes homens, uma figura tão rica como Paulo Vanzolini, um cientista do samba, como passou a ser chamado.
As vezes levanto sonhando. Tem manhãs que nem
acordo.
Às seis desperto, as sete caio, às oito tenho
vontade de voltar.
Me delicio com os dias de preguiça e as noites
de grande disposição.
De dia eu faço graça, à noite dou bandeira.
Bobeira!
Lençol fresquinho, coberta quente e travesseiro
fofo são meu passaporte. Relógio é inferno. Inverno é verão e o escurinho cai
bem a qualquer hora.
Meia-luz, meia lua, meia noite, mais meia hora, meia volta, volta e meia,
pés sem meia.
Gosto de pijamas. Pijamas curtos, longos,
macios, sem manga, que cobrem, que despem, que deixam em pêlo.
Gosto de água. Ao lado, fresquinha. Antes, no
banho. Pra beber, pra benzer, pra banhar...
Gosto de silêncio. Silêncio de passarinho
pela manhã. Silêncio de sussurros à noite. Silêncio de boas conversas a
qualquer hora.
Na cama a realidade não tem vez. Na cama os
prazeres do corpo e dos sonhos; dos sonhos de dormir e dos sonhos de acordar.
Na cama até o sol raiar, até a lua subir, até o outro dia. E o outro.
Poucas vozes me comovem tanto quanto a do Renato Braz. Já o vi mil vezes em show, ele só melhora. Todos os seus discos (aqui em casa em dobro, porque minha Lívia também os tem) estão escangalhados de tanto rodar, de tanto entrar e sair do carro, passear e voltar das casas dos amigos, ir e vir... Como se não bastasse ter essa voz e essa afinação toda, ele é ótima pessoa! Pai dedicado, amigo generoso, criatura bem humorada. Leve, bacana, bom sujeito. Decente! Já escrevi sobre ele tantas vezes, que pode dar a impressão de não haver mais nada a ser dito – só escutado. Mas, eu sei, ainda não consegui arrumar as palavras de modo que fique claro o tanto que gosto dele e de sua arte. Lembro da primeira vez que fui à sua casa (ele nem lembra, aposto), faz muito tempo, mais de década. Conversávamos uma groselha qualquer e de repente ele sacou o violão e cantou. Eu quietinha, sentada no sofá, nem chorar consegui. Acho que nem respirar eu respirei. Nos meus momentos de solidão, ele me acompanha de jeitos interessantes. As vezes me aumenta o sofrimento, as vezes alivia, as vezes traduz. Faz alguns meses que não nos vemos. Tempo muito grande para a amizade e o bem querer, mas o trago aqui, bem aqui dentro: na lembrança dele cantando na sala da sua casa ou na maloqueirice dele deitado na rede da minha. Ei, Braz, é muito bom tê-lo aqui!
Tentei postar videozinho lindo, mas não rolou. Então, olha link:
O bom de ter um blog é que eu posso publicar qualquer tipo de farofa que me venha à mente. Um dia desses, a Laís Mann me convidou para participar do seu programa “Discoteca Particular”. Trata-se de contar um pouquinho sobre o que algumas pessoas ouvem em casa ou sobre o que colecionam ou sobre o que preferem ou soube suas referências. A resumir: é uma escolha de dez músicas utilizando um critério muito particular do entrevistado. Pois bem, lá fui eu, escolher dez músicas. Claro que uma coisa assim não pode dar certo! Na primeira tentativa, eu exageradamente cheguei a 87 músicas que considerei imprescindíveis na minha discoteca. Parei, respirei, peneirei e tudo ficou igual, com algumas possibilidades de acréscimo. Fiquei a pensar sobre os motivos que me fazem gostar ou não de alguma música. Estou a falar daqueles motivos que superam tudo que a gente sabe de qualidade técnica, de virtuose, de construção, de interpretação, etc.. Sim, porque algumas músicas são meio pobres, meio cafonas, meio mais ou menos, meio menos e mesmo assim dá uma coisa tão boa ouvir... Ah! A memória afetiva, a resposta rápida pra acabar com esse papo. Não acho que seja diagnóstico certeiro. As vezes sim, mas as vezes não. Nos meus momentos de cafonice absurda canto, com voz solta e gestos largos, a sentir cada pedaço da composição de gosto duvidoso, letra simplista, arranjo pobre e instrumental bobo. Serei eu uma cafona enrustida? Aqui três versões de "La Barca", de Roberto Cantoral, que amo, mas sei ser um grande marco da cafonice...
O Caetano dá uma sofisticada no lance.
Com a Maysa tem mais drama, mais trama
Los Tres Caballeros, o trio "dono" de La Barca. O Cantoral, se não me engano, é o do meio.
Como até cafonice tem limite, não coube aqui o inacreditável Luís Miguel.
Li na revista Ideias uma lista feita por Fábio Campana sobre coisas que ele considera abomináveis. A divertida leitura (que pode ser feita aqui) me inspirou a duas listas: uma positiva e outra negativa.
Foi uma delícia fazê-las!
+ Gosto de flores. Gosto quando recebo flores: em buquês, vasinhos, paisagens ou lembranças. Adoro bilhetinhos de amor, diário novo, lápis de cor e fotografias antigas. Papo com os filhos, passeios diurnos, viagens bem planejadas e risadas espontâneas me fazem feliz. Tenho imenso prazer com boas conversas, mão estendida, presentes, surpresas e quando sinto gratidão. Muita simpatia pelo movimento das nuvens, pelo colorido que o sol deixa no céu nos finais de tarde, ventos moderados e temperatura agradável. Gosto de pessoas generosas, dispostas, de boa vontade, solidárias e com bom humor. Aprecio aneis, mas somente um por mão. Gosto de abraço apertado, beijo no rosto, na mão, na boca. Fico leve com perfumes suaves e elegância. Acho chiquérrimo homem gentil, inteligente, paciente, intrigante, vigoroso e responsável. Amo dançar na chuva, tomar banho de mar, de sol, de chuveiro, de banheira, de loja, de sal grosso. É fundamental comer bem, beber bem, ter paladar apurado. Gosto de meia-luz, de música boa, de textos surpreendentes. Fico orgulhosa quando saio com meus filhos, quando alguém que respeito admira meu trabalho, quando cozinho para os amigos e quando troco de carro. Adoro bolo de fubá, de chocolate, de doce de leite. Adoro bolo e as sobremesas da Thaís e da Beatriz! E adoro também cheirinho de pão caseiro saindo do forno, aroma de chá de capim-limão e a comidinha da minha mãe. Fico em paz em tardes de sábado, dias de dezembro e vésperas de feriado.
Há muitas coisas que me movem, me divertem e me alegram. Muitas delas não precisam de grana, outras precisam. Vou vivendo... Ah! Na vida e na arte, em casa e na rua, no trabalho e no passeio, no trânsito e no mercado, na TV e no rádio, sempre, sempre, sempre é preciso leveza!
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Por ordem de lembrança, nunca de relevância:
Não gosto de extremos. Não gosto de gosto amargo na boca nem de doce que arranha a garganta. Não gosto de nada muito gelado nem muito quente. Detesto quem vê ameaça em tudo e quem nada teme. Tenho certo desprezo por funcionário de banco, despachante, caixa de casa lotérica, bibliotecária mal amada, roupa de contador e atendente de telemarketing. Me irrito profundamente com música alta, música ruim, música fora de hora, de contexto, de contrato, de controle. Odeio filas, todas as filas. Me incomodo com cachorros barulhentos, gatos deslizantes e sapos cantores. Não quero perto de mim pastor de igreja evangélica e seus seguidores alucinados, padre hipócrita e suas beatas de plantão, líder hare krishna e seus instrumentistas carequinhas. Não gosto de quem quer salvar o planeta. Odeio quem se leva a sério, quem leva tudo a sério e quem não leva e não traz nada. Fico constrangida na presença de preconceituosos, falsos moralistas e quem diz que nunca mente. Desconsidero quem ainda consegue falar, contra ou a favor, sobre Paulo Coelho, Rede Globo, rock’n’roll, telenovela, feminismo, Hollywood, Fidel e imperialismo norte-americano. Acho trocadilho algo insuportável, assim como piadas fora de hora, citações descabidas, carona em destaque alheio e papagaio de pirata. Odeio gente mesquinha, gente que confere a conta, que conta o troco, que economiza na gorjeta. Tenho raiva de veranista, de churrasco, de happy hour, de confraternizações de empresa. Abomino grosserias, tom de voz alto e cotovelos na mesa. Sinto aversão por quem não tem humor, por quem é ignorante, por quem é medíocre, médio, morno, fraco. Acho horrível saia acima do joelho, lingerie a mostra, calça apertada e sapato desconfortável. Não gosto de reclamações excessivas nem de críticas gratuitas.
Minha lista é imensa. E eu ainda nem comecei a falar sobre contas a pagar, a receber e a perder... nem citei banheiros de aeroporto, sinal da TIM ou aranha marrom. Também não lembrei de churrascarias aos domingos, salões de beleza, shoppings centers ou nervo ciático. Melhor parar por aqui...