segunda-feira, 29 de abril de 2013

quando eu for, eu vou sem pena


89 anos bem vividos, bem aproveitados, bem gastos! A existência de Paulo Vanzolini foi de total contribuição aos meios que decidiu dedicar tempo e esforços. 

Na ciência, organizou vida e cabeça para se especializar zoólogo. Tornou-se doutor pela Universidade de Harvard; organizou coleção de 130 mil bichos, entre répteis e anfíbios; montou biblioteca pessoal com mais de 50 mil volumes, que carrega o título de a maior da America Latina; idealizou um sem-fim de projetos; encabeçou estudos e colaborou com a atenção de quem compõe, encaixando nota por nota, acorde por acorde, com o desenvolvimento de pesquisas tão importantes que hoje há uma coleção de táxons em sua homenagem. É ótimo ver e saber um nome nacional cheio de respeito e de admiração na ciência mundial.

Na música, não colecionou obra extensa. Mas tudo, absolutamente tudo, tem o cuidado microscópico que aprendeu na outra atividade. É fundamental citá-lo como representante (ao lado de Adoniran) do samba paulistano, da narração dos costumes, lugares e situações das gentes tão misturadas da grande cidade do Brasil. 

Vanzolini é dono daquelas maravilhas sutis que embalam a alma e despertam os sentidos. Seja no drama de “Ronda”, no conselho de “Volta por Cima”, nas reflexões de “Samba Erudito” ou no humor de “Praça Clóvis”, a sofisticação de música e letra dá ideia das 65 maravilhas que compõem o conjunto de sua obra musical.

A ciência e a arte ganharam um grande trabalhador. Hoje não perdem, mas colhem frutos plantados durante quase um século de vida. Feliz do país que pode ter em sua relação de grandes homens, uma figura tão rica como Paulo Vanzolini, um cientista do samba, como passou a ser chamado. 



Quando eu for, eu vou sem pena
Pena vai ter quem ficar

Morena tão desamada e tão precisada de amar
Açucena delicada sem a mão lhe cuidar
Curva de rio de sereno sem proa pra navegar
E tanta beira de estrada sem um moço pra pousar

O que eu fiz é muito pouco
Mas é meu e vai comigo
Deixo muito inimigo
Porque sempre andei direito
Agasalhei neste peito muita cabeça chorando
Morena minha até quando você de mim vai lembrar

Quando eu for, eu vou sem pena
Pena vai ter quem ficar





quinta-feira, 25 de abril de 2013

na cama, eu fico pensando


As vezes levanto sonhando. Tem manhãs que nem acordo.
Às seis desperto, as sete caio, às oito tenho vontade de voltar.
Me delicio com os dias de preguiça e as noites de grande disposição. 
De dia eu faço graça, à noite dou bandeira.
Bobeira!
Lençol fresquinho, coberta quente e travesseiro fofo são meu passaporte. Relógio é inferno. Inverno é verão e o escurinho cai bem a qualquer hora.
Meia-luz, meia lua, meia noite, mais meia hora, meia volta, volta e meia, pés sem meia.
Gosto de pijamas. Pijamas curtos, longos, macios, sem manga, que cobrem, que despem, que deixam em pêlo.
Gosto de água. Ao lado, fresquinha. Antes, no banho. Pra beber, pra benzer, pra banhar...
Gosto de silêncio. Silêncio de passarinho pela manhã. Silêncio de sussurros à noite. Silêncio de boas conversas a qualquer hora.
Na cama a realidade não tem vez. Na cama os prazeres do corpo e dos sonhos; dos sonhos de dormir e dos sonhos de acordar. Na cama até o sol raiar, até a lua subir, até o outro dia. E o outro.
Na cama, pés, beijos, braços. Luta. Flores.
É na cama que a vida acontece!


quarta-feira, 17 de abril de 2013

sempre por aqui


Poucas vozes me comovem tanto quanto a do Renato Braz. Já o vi mil vezes em show, ele só melhora. Todos os seus discos (aqui em casa em dobro, porque minha Lívia também os tem) estão escangalhados de tanto rodar, de tanto entrar e sair do carro, passear e voltar das casas dos amigos, ir e vir... 

Como se não bastasse ter essa voz e essa afinação toda, ele é ótima pessoa! Pai dedicado, amigo generoso, criatura bem humorada. Leve, bacana, bom sujeito. Decente!

Já escrevi sobre ele tantas vezes, que pode dar a impressão de não haver mais nada a ser dito – só escutado. Mas, eu sei, ainda não consegui arrumar as palavras de modo que fique claro o tanto que gosto dele e de sua arte.

Lembro da primeira vez que fui à sua casa (ele nem lembra, aposto), faz muito tempo, mais de década. Conversávamos uma groselha qualquer e de repente ele sacou o violão e cantou. Eu quietinha, sentada no sofá, nem chorar consegui. Acho que nem respirar eu respirei. 

Nos meus momentos de solidão, ele me acompanha de jeitos interessantes. As vezes me aumenta o sofrimento, as vezes alivia, as vezes traduz.

Faz alguns meses que não nos vemos. Tempo muito grande para a amizade e o bem querer, mas o trago aqui, bem aqui dentro: na lembrança dele cantando na sala da sua casa ou na maloqueirice dele deitado na rede da minha.

Ei, Braz, é muito bom tê-lo aqui!



Tentei postar videozinho lindo, mas não rolou. Então, olha link:

http://www.youtube.com/watch?v=FzP_lMtxyY0




terça-feira, 16 de abril de 2013

cafona, eu?


O bom de ter um blog é que eu posso publicar qualquer tipo de farofa que me venha à mente.

Um dia desses, a Laís Mann me convidou para participar do seu programa “Discoteca Particular”. Trata-se de contar um pouquinho sobre o que algumas pessoas ouvem em casa ou sobre o que colecionam ou sobre o que preferem ou soube suas referências. A resumir: é uma escolha de dez músicas utilizando um critério muito particular do entrevistado.

Pois bem, lá fui eu, escolher dez músicas. Claro que uma coisa assim não pode dar certo! Na primeira tentativa, eu exageradamente cheguei a 87 músicas que considerei imprescindíveis na minha discoteca. Parei, respirei, peneirei e tudo ficou igual, com algumas possibilidades de acréscimo. 

Fiquei a pensar sobre os motivos que me fazem gostar ou não de alguma música. Estou a falar daqueles motivos que superam tudo que a gente sabe de qualidade técnica, de virtuose, de construção, de interpretação, etc.. Sim, porque algumas músicas são meio pobres, meio cafonas, meio mais ou menos, meio menos e mesmo assim dá uma coisa tão boa ouvir... 
Ah! A memória afetiva, a resposta rápida pra acabar com esse papo. Não acho que seja diagnóstico certeiro. As vezes sim, mas as vezes não.  

Nos meus momentos de cafonice absurda canto, com voz solta e gestos largos, a sentir cada pedaço da composição de gosto duvidoso, letra simplista, arranjo pobre e instrumental bobo. Serei eu uma cafona enrustida?   

Aqui três versões de "La Barca", de Roberto Cantoral, que amo, mas sei ser um grande marco da cafonice... 


O Caetano dá uma sofisticada no lance.

Com a Maysa tem mais drama, mais trama

Los Tres Caballeros, o trio "dono" de La Barca. O Cantoral, se não me engano, é o do meio.


Como até cafonice tem limite, não coube aqui o inacreditável Luís Miguel.


quinta-feira, 11 de abril de 2013

contra e a favor

Li na revista Ideias uma lista feita por Fábio Campana sobre coisas que ele considera abomináveis. A divertida leitura (que pode ser feita aqui) me inspirou a duas listas: uma positiva e outra negativa.

Foi uma delícia fazê-las!

+ 

Gosto de flores. Gosto quando recebo flores: em buquês, vasinhos, paisagens ou lembranças. Adoro bilhetinhos de amor, diário novo, lápis de cor e fotografias antigas. Papo com os filhos, passeios diurnos, viagens bem planejadas e risadas espontâneas me fazem feliz. Tenho imenso prazer com boas conversas, mão estendida, presentes, surpresas e quando sinto gratidão. Muita simpatia pelo movimento das nuvens, pelo colorido que o sol deixa no céu nos finais de tarde, ventos moderados e temperatura agradável. Gosto de pessoas generosas, dispostas, de boa vontade, solidárias e com bom humor. Aprecio aneis, mas somente um por mão. Gosto de abraço apertado, beijo no rosto, na mão, na boca. Fico leve com perfumes suaves e elegância. Acho chiquérrimo homem gentil, inteligente, paciente, intrigante, vigoroso e responsável. Amo dançar na chuva, tomar banho de mar, de sol, de chuveiro, de banheira, de loja, de sal grosso. É fundamental comer bem, beber bem, ter paladar apurado. Gosto de meia-luz, de música boa, de textos surpreendentes. Fico orgulhosa quando saio com meus filhos, quando alguém que respeito admira meu trabalho, quando cozinho para os amigos e quando troco de carro. Adoro bolo de fubá, de chocolate, de doce de leite. Adoro bolo e as sobremesas da Thaís e da Beatriz! E adoro também cheirinho de pão caseiro saindo do forno, aroma de chá de capim-limão e a comidinha da minha mãe. Fico em paz em tardes de sábado, dias de dezembro e vésperas de feriado.

Há muitas coisas que me movem, me divertem e me alegram. Muitas delas não precisam de grana, outras precisam. Vou vivendo... Ah! Na vida e na arte, em casa e na rua, no trabalho e no passeio, no trânsito e no mercado, na TV e no rádio, sempre, sempre, sempre é preciso leveza!








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Por ordem de lembrança, nunca de relevância: 

Não gosto de extremos. Não gosto de gosto amargo na boca nem de doce que arranha a garganta. Não gosto de nada muito gelado nem muito quente. Detesto quem vê ameaça em tudo e quem nada teme. Tenho certo desprezo por funcionário de banco, despachante, caixa de casa lotérica, bibliotecária mal amada, roupa de contador e atendente de telemarketing. Me irrito profundamente com música alta, música ruim, música fora de hora, de contexto, de contrato, de controle. Odeio filas, todas as filas. Me incomodo com cachorros barulhentos, gatos deslizantes e sapos cantores. Não quero perto de mim pastor de igreja evangélica e seus seguidores alucinados, padre hipócrita e suas beatas de plantão, líder hare krishna e seus instrumentistas carequinhas. Não gosto de quem quer salvar o planeta. Odeio quem se leva a sério, quem leva tudo a sério e quem não leva e não traz nada. Fico constrangida na presença de preconceituosos, falsos moralistas e quem diz que nunca mente. Desconsidero quem ainda consegue falar, contra ou a favor, sobre Paulo Coelho, Rede Globo, rock’n’roll, telenovela, feminismo, Hollywood, Fidel e imperialismo norte-americano. Acho trocadilho algo insuportável, assim como piadas fora de hora, citações descabidas, carona em destaque alheio e papagaio de pirata. Odeio gente mesquinha, gente que confere a conta, que conta o troco, que economiza na gorjeta. Tenho raiva de veranista, de churrasco, de happy hour, de confraternizações de empresa. Abomino grosserias, tom de voz alto e cotovelos na mesa. Sinto aversão por quem não tem humor, por quem é ignorante, por quem é medíocre, médio, morno, fraco. Acho horrível saia acima do joelho, lingerie a mostra, calça apertada e sapato desconfortável. Não gosto de reclamações excessivas nem de críticas gratuitas. 

Minha lista é imensa. E eu ainda nem comecei a falar sobre contas a pagar, a receber e a perder... nem citei banheiros de aeroporto, sinal da TIM ou aranha marrom. Também não lembrei de churrascarias aos domingos, salões de beleza, shoppings centers ou nervo ciático. Melhor parar por aqui... 


sexta-feira, 5 de abril de 2013

devagar e urgentemente

eu sou feita de silêncio! falante, gosto de ficar quietinha. 

as palavras soltas, livres, aladas me jogam pra dentro do nada. e o nada é quieto.

os olhos marejam, a garganta seca, os gestos ficam pequenos e a boca fala o que o coração nega.
todos os meus silêncios dizem muita coisa. mais do que todas as minhas palavras.

quando me meto a escrever, é do silêncio que os textos tratam.  

eu queria cometer uma carta de amor. uma carta de outro país. uma longa carta que falasse sobre tudo. daquelas, cheias de perigos e de certezas. uma carta que consumasse todo sentimento. 

lápis afiado, papel em branco: me calo!


domingo, 31 de março de 2013

feliz

quando era criança, minha mãe sempre organizou imensas festas de aniversário. ano após ano, a casa cheia, a vida em festa. gostava. não podia escolher meus convidados, não podia palpitar na comida, não podia me vestir do jeito que queria... mas gostava. sempre entendi aquela movimentação toda da minha mãe, como uma atenção especial, coisa exclusiva, um dia meu em que minha mãe fazia coisas pra mim. exclusividade - gosto muito!
cresci um pouco e comecei a sacar que se não podia palpitar em nada, era porque a festa não era minha e nem pra mim.
passei a detestar meu aniversário.

pulei para um tempo em que eu nao gostava de comemorar aniversário, me escondia das pessoas, procurava ficar quieta, sozinha.

percebi que os meus se chateavam em não poder festejar o meu dia. e abri concessões. pequenos encontros, reuniões particulares, almoços para poucos.

o tempo passou e comecei a sentir falta de algumas pessoas em minhas comemorações. e estendi convites, ofereci casa, fiz bolos, salgadinhos, bebidas.

hoje, amo receber as mensagens de longe e de perto. de gente que conheço bem, outros só de vista... estou num tempo que se houvesse condiçõe$ faria grandes festas, para encontrar cada um daqueles que fazem parte da minha caminhada... 

recebi mais de 300 felicitações: por email, pelo FB, por mensagem, por telefone, pela memória e até pessoalmente. 
a permissão para que o amor circule, para ser abraçada, beijada, querida é uma maravilha, inunda a alma!

quem sabe, ano que vem consigo reunir em espaço físico grandes pessoas, que admiro e quero perto, bem perto!
tim-tim! 




terça-feira, 26 de março de 2013

sal


Eu nunca me cansei do mar. O eterno avanço e recuo me levam e me trazem com a fome de pensar e repensar, de partir e voltar, de ter e soltar.

Nas minhas horas malsãs é com o sal que me curo. Na comemoração de grandes alegrias brindo com espuma.

No ritmo das ondas, no batuque do mar eu sinto meu corpo, o pulsar da vida, a coragem de desbravador, a calma de pescador e a solidão de marinheiro. No indo e vindo infinito é que reconheço meus ciclos.

Gosto das coisas do mar: ventos, sabores, saberes, mistérios, viagens – partidas e chegadas. 

Nunca pensei em me lançar em grande navio, nem em canoa furada. Nunca me senti capaz de abandono do cais, mas sou experiente em longas despedidas. 

Nem tudo que o mar me traz, eu devolvo. Nem sempre lhe encaminho oferendas. Todas as garrafas já foram lançadas, mas continuo a renovar esse compromisso e faço votos de novas ondas. 

Espelho do céu, dono de mistérios, depósito de esperanças. Como bem disse o grande Mia Couto, quem nunca viu o mar, não sabe o que é chorar! 


sábado, 23 de março de 2013

quimeras mil


Tempo atrás o diabo me visitou. Sedutor, tratou de fazer graça, jogar charme, preparar terreno. Trouxe flores, cantou a mais bonita das músicas, me tirou pra dançar. Preparou drinks, fez comidinhas e me desafiou para misterioso jogo.


O fascínio desta visita é o perigo, o risco, a corda bamba. O diabo não gosta de certezas, não inspira confiança, emite prazo de validade para as situações, mas não o revela. E quem abre a porta e permite sua entrada, vive com a guilhotina a apontar, sedenta, para o pescocinho.

Eu nem quis deixá-lo entrar. Também não tratei de evitá-lo. Fui observando-o, adivinhando-o, assistindo-o. Mas ele conhece as receitas de sereia, sabe muito sobre  fascínio. O jogo se estabelece rápido, ágil, agressivamente agradável. Explode em prazeres e se tranca na alma.

No dia em que o diabo me soube sorridente, me olhou nos olhos, fundo nos olhos, e eu entendi que estava perdida. Silêncio.

Com chicote no olhar, nenhum perdão e garras afiadas, o diabo espera a hora precisa e conta a que veio: esmigalha rosas, pisa em sonhos, lança flecha envenenada, apaga luzes. Ri satisfeito e vai embora.

Mas o pior, o pior de tudo, é que ele muda de nome, de figura, de papel. Te procura distraída em situações diferentes, dá um tempo e quando você está se colocando de pé, ele bate à porta, sorridente e sedutor, não pede licença e se instala para te puxar pela mão e te convidar a nova viagem.

Quem resiste? 





sexta-feira, 15 de março de 2013

o bom da vida vai prosseguir


A primeira notícia que vi no jornal hoje cedinho dava conta do coma irreversível de Dominguinhos. 

Eu tive a sorte, a grande sorte, de conhecê-lo e de me tornar sua amiga e, mais que isso, de tê-lo como amigo. Muitas vezes o recebi em minha casa; tive a honra de dividir café da manhã, almoço e jantar; pude partilhá-lo com minha família; ouvi seus conselhos, sábios conselhos; palpitei em sua vida...


com minha mãe, em almoço surpresa para ele e para ela.

Domingos é uma pessoa muito importante pra mim! Desde a primeira hora de convívio sempre me acompanhou a sensação de que nunca mais ficaria sozinha em algum tropeço...  Ele já me tirou de frias, encrencas, dificuldades algumas vezes. 
De um jeito manso, doce e absolutamente surpreendente ele me ligava e com a voz sertaneja disparava:
- Adriana! O que está acontecendo? Me conte que dou jeito. 
Eu, do outro da linha, sempre fiquei chocada com essa capacidade. Nos meus desertos, ele me adivinhou muitas vezes e, boa parte delas, me ajudou só com a força de sua palavra, a coragem de pensamentos diferentes de uma cabeça livre e pronta pra tudo. Em outras, tratou de maneira prática minhas pendengas financeiras, minhas dificuldades cotidianas. 

É uma sorte muito grande ter alguém assim na vida! E o meu sentimento de amor e de gratidão por ele é uma das coisas mais bonitas e puras que mora dentro de mim. (Também é uma sorte muito grande poder sentir isso.) 


no tempo em que eu ainda tinha covinha...
Mesmo correndo o risco do post ficar imenso, quero muito contar uma história. 

Em 2011, o João Egashira me procurou com a ideia de que sua Orquestra à Base de Cordas e as rádios fizessem homenagem ao Domingos, que a TV gravasse DVD e que chamássemos algumas pessoas para assistir isso tudo. Pois bem, assim foi. 

A combinação dos músicos da Orquestra, mais as músicas de Domingos, mais seus músicos e mais o próprio empunhando a sanfona a cantar e tratar das belezas da alma, foi incrivelmente emocionante e comovente. 
Lá pelas tantas, depois de “De Volta pro Aconchego” eu tinha que entrar no palco, com flores, placa e discurso para surpreendê-lo. Mas eu estava tão emocionada com tudo que já tinha rolado até ali (outra hora eu conto), que já subi no palco muito emocionada e o que era pra ser uma homenagem da instituição, virou um testemunho pessoal sobre tudo que penso dele. Falei de tudo: amor, gratidão, respeito, bondade, generosidade, cuidado e até de sua música... Chorei. Ele chorou. Sabíamos bem. Quando voltei pro meu lugarzinho, ele começou a tocar uma música linda. Não uma que mostrava sua habilidade de sanfoneiro com dedos espertos e velozes, mas uma que revelava sua grande arte de melodista, de entendedor da alma. Uma valsa tão cheia de beleza, que eu e João ficamos quietos, ouvindo, chorando. Nenhum de nós conhecia, mas tinha uma coisa tão grande na música que dava vontade de ficar o resto da vida ouvindo-a. Quando acabou, ele revelou: “O nome dessa música é Adriana, eu acabei de fazer!”.

Hoje, o que sei, é que quero muito vê-lo, reencontrá-lo. Não acredito que o jornal esteja certo, que os médicos estejam certos... Eu acho que ele vai mesmo tratar de colocar em prática aquela coragem nordestina, aquela sobrevivência sertaneja, aquela teimosia de sanfoneiro e daqui a pouco pinta por aqui, com sorriso sincero, com abraço, proteção e tudo, tudo, tudo que compõe uma das maiores existências que conheço. 





sexta-feira, 8 de março de 2013

você tem medo de quê?

Eu tenho muitos medos!
Medo de aranha, do escuro e da falta de grana
Medo de assalto, de tristeza sem fim e de lugares pequenos
Tenho medo de ficar doente, de magoar pessoas, de engasgar
Medo que me machuquem, de escorregar, de cortar o cabelo
Tenho medo de multidões, de água gelada, de andar descalça...

Tenho um milhão de medos, mas me acompanha, desde as primeiras horas, coragem para enfrentar todos! 
E o melhor: sorrindo! Que assim me conserve...

domingo, 3 de março de 2013

a arte da reversão


Aos quatro anos aprendi a amarrar meus cadarços.

Minha vida mudou!

Variações da mesma habilidade me servem até hoje para prender laço no cabelo, fechar cintura da saia, segurar biquíni, guardar o carregador do telefone, iniciar costura, fabricar penduricalhos, moldar fitas, ajeitar gravata, fabricar buquês, fingir de marinheiro, emendar corda bamba, dar nó em pingo d’água...

O que eu ainda não sei é afrouxar o que não precisa de tanta força.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

minha casa, minha vida




As vezes fico escondida em casa. Aqui ninguém me acha. O cobertor é o manto da invisibilidade!

Aprendi que quando a gente está muito triste, sem vontade de conversar, sem querer saber do mundo, é melhor se enfiar em casa. Porque ninguém tem muita paciência ou boa vontade com deprê alheia – há de se cuidar das próprias antes.

Por isso, quando não quero dar explicações, forçar sorrisos, fingir interesse, me tranco em casa.

O engraçado disso, é que acho que não por acaso, casa tem asa na grafia. Trancada a sete chaves, eu vôo por aí... percorro os lugares da minha memória, visito meu passado, caminho pelo futuro. Vou e volto. Vou, não volto. 

No silêncio da minha casa faço descobertas impressionantes, conheço possibilidades estonteantes, desenterro tesouros, coloco pá de cal em besteiras.

No conforto da minha casa, piso em espinhos, alongo pensamentos, choro sem testemunhas.

Na proteção da minha casa, caminho sem roupa, penso sem censura, tiro a maquiagem.

É em casa, bem dentro de casa, que meus vôos vão mais longe, mais alto, mais pra fora.

E em dia de faxina, então? Afff! Aí ninguém me segura.  


sábado, 16 de fevereiro de 2013

a olhar pra dentro


As vezes me encaixo na frase de Vinícius de Moraes, “tenho tudo pra ser feliz, mas acontece que sou triste”. Em dias melhores, a alegria me invade.

Vivo de acordo com a maré, deixo que os ventos soprem e já desisti de agarrar a vida e domá-la. Mas me seguro firme em minhas poucas certezas e só navego em mar transparente. 

Gosto das palavras, mas ameaçada me calo. Tenho segredos que encheriam um livro e algumas portas a serem abertas. Frestas para uns lados, cadeados para outros. 

Adoro o sol, flerto com as estrelas, desenho em nuvens, parte de mim mora na lua. 

Acho bom quando intervalos de silêncio são preenchidos com música e gosto mais ainda quando a paisagem se enche de flores.

Há tanta realidade em meus sonhos que já nem ouso mais fechar os olhos. Mas vez ou outra me distraio, deixo as amarras e salto pro lado de lá.

Não sei quantos anos tenho, tudo em mim é incompleto e faço voar as folhas do calendário.

Acendo velas, faço orações secretas, lanço moedas em fontes, garrafas ao mar.

Cada novo dia vale por todos e as vezes perco a noção do presente.

Boa alma, não mereço castigos.

Não tenho calos, meus pés correm o mundo.

Cada cicatriz se mistura à pele a fazer parte de mim como qualquer outro pedaço não quebrado. 

Não comprei casa, não doutorei, não fiz fortuna. Tenho filhos, árvores e livros.





terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

"o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente." - Mário Quintana


De vez em quando meu passado vem me visitar. Chega, bate à porta, nem espera resposta e entra. Não diz a que veio, mas me revira, chacoalha, joga pro alto e espera, que como gata, eu caia em pé. 

Coisas que não lembrava mais, sentimentos que julgava perdidos, peças desse tabuleiro que é minha vida ressurgem. 

Quem é que pode se separar da própria vida? Ninguém! A nebulosa que a distância cria dos fatos, não os apagam. 

O mais engraçado de tudo é que mover uma peça significa rever o tabuleiro inteiro e num repente há uma vida toda para reconhecer por cima do ombro, com o canto dos olhos, dentro do receio das lembranças.

Tenho medo do passado. Medo que mostre que eu já não sou eu mesma ou, ao contrário, que me revele que eu ainda sou a mesma. 

Não há em mim a vontade de voltar a ser criança; a vida adulta me deu liberdade, autonomia, independência e outras ilusões que uso pra me consolar (meu mundo é hoje!)... mas há alguma coisa da época em que vivia sem pensar, medir ou ponderar que gostaria muito de ainda reconhecer em mim. Hoje, tudo tem consequência, tem motivo, tem razão, razão, razão. 




domingo, 10 de fevereiro de 2013

confissões


Há alguns anos eu estava em São Paulo, na Livraria da Vila, a fazer hora para uma matéria que um programa da TV Cultura faria comigo. Como estava um bocadinho nervosa, não dei conta de ler (o que seria o mais óbvio para deixar que os ponteiros cumprissem o seu papel e o pessoal da produção ajeitasse tudo). Fui para as estantes infantis vasculhar. Puxei um livro, sem ver título ou autor e abri em página qualquer, a frase, grande, inteira, cheia, jogou-se em mim “Quem nunca viu o mar, não sabe o que é chorar”, bem na hora o pessoal apressado da TV me chamou. Guardei o livro imediatamente, tomei meu lugar e fiz meu trabalho. Outro compromisso em seguida não me deixou voltar à estante, mas a frase ficou cravada em mim. Tive sossego muito tempo depois, quando decifrei, tratava-se de “O Beijo da Palavrinha”, de Mia Couto. Comprei-o uma, duas, três, dez vezes e o fiz rodar por aí, sempre em mãos adultas – porque acho que as crianças, de alguma maneira, já conhecem sua mensagem. 



Entre ontem e hoje pela manhã dei conta do “A Confissão da Leoa”, do mesmo Mia Couto, mas este exclusivamente para adultos. 

Um livro tão lindo! Não só pela beleza da literatura, pela habilidade do autor com as palavras, pela história tão fantástica e real, pela excelente escolha de narrativa. Mas, principalmente, pela jornada interna que proporciona. 

Ouvi alguns comentários de leitores, e até do próprio Mia, a falar que a obra se refere a direitos humanos, à repressão social, sexual, à condição da mulher africana, ao confronto entre mito e realidade... 

Eu não consegui pensar assim. Na minha leitura, o livro tratou dos enfrentamentos pessoais, das situações complexas que aprendemos todos os dias a driblar, das voltas que a cabeça da gente tem que dar para poder prosseguir, de um mar de coisas e sentimentos muito íntimos que não cabem ser revelados assim, aqui.  

Comprarei tantos “A Confissão da Leoa” quanto possa e presentearei meus companheiros de leitura. 

Ah! um pouquinho do que pode o delicioso Mia Couto, um tiquinho da poesia que habita sua prosa:

- “Como há espaço dentro de nós para enterrarmos as nossas pequenas mortes!”
- “Escutar já é falar.”
- “Ninguém mais do que eu amava as palavras. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha medo da escrita, tinha medo de ser outra e, depois, não caber mais em mim.”
- “Todo o nosso presente era feito de passado.”
- “... viajo contra o destino, mas a favor da corrente.”
- “Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amarmos alguém.”
- “Essa aprendizagem fez-me sem plano mas com propósito.”





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

uma pausa para o Paulinho


Logo que assumi a diretoria das rádios e-Paraná alguém falou que minha gestão seria um atraso para emissora porque eu sabia até a data de batismo do Paulinho da Viola. Que falha, a minha. Bem que gostaria, mas não sei. 

Eu amo o Paulinho da Viola. Adoro tudo: a voz, o jeito, as músicas, suas maneiras chiques, seu jeito educado, fino, requintado... tudo que conheci nele, gostei. Apesar de achar que ele deveria tocar em todas as rádios do país, não imponho aos programadores sua presença, mas ao seguirem as orientações artísticas da emissora, o Paulinho é naturalmente tocado...  


O dia hoje começou de um jeito muito, muito, muito bom. Acompanhe: na cabeceira direita da minha cama há um rádio sintonizado na Educativa FM, na esquerda, na AM. 

Pois bem, acordei cedinho e como de costume bati no rádio da direita pra ver se estava no ar, com boa transmissão, etc. Tudo certinho, som limpo, rolando Marisa Monte a cantar “Para Ver as Meninas”, do queridíssimo Paulinho. ouvi até o fim, porque adoro essa música e ela estava a soar tão bem naquele horário, naquele volume, daquele jeito. Me acomodei melhor e fiquei a pensar sobre “uma pausa de mil compassos / um samba sobre o infinito...”. 

Desliguei o radinho e girei o botão do outro aparelho, o da esquerda. AM em alto e bom som, a tocar o próprio Paulinho em “Coisas do Mundo, Minha Nega” (que, é claro, é uma das favoritas de todo mundo), agradeci a sorte e pensei que “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”.

As rádios são bem diferentes, mas elas têm como ponto comum a qualidade da música e vez ou outra o que toca em uma passeia pela outra. Ô sorte! 

Que maravilha começar assim! Nem na Argentina, nem na Itália, nem no Uruguai... em lugar algum do mundo a gente tem Paulinho da Viola quando acorda! 

Para quem está longe ou não ligou o rádio cedinho, um Paulinho mais do que especial. 




domingo, 27 de janeiro de 2013

cara carla


Carla querida,

Você, mais do que eu, sabe bem que a vida dá voltas, que o mundo gira, que a roda anda... 

Você, mais do que eu, conhece os caminhos da mudança, da troca, das novas possibilidades...

Você têm grandes asas, voa para outras paragens, aceita desafios, se joga. Troca de roupa, de endereço, de trabalho, de vida. Tem a coragem dos mergulhadores e a sensibilidade de enxergar nas profundezas.

Que essa sua nova vida seja cheia de grandes descobertas, não só as profissionais, mas as pessoais, aquelas que dão novo sentido aos pensamentos, que fazem a gente olhar no espelho e entender um pouco mais desse complexo todo. 

Esse tempo que passamos juntas foi muito bacana, apesar das suas maluquices, apesar das minhas maluquices. Que bom foi tê-la em minha casa a ouvir minhas lamúrias, a beber vinho, a estourar mini-champagne, a discutir posturas, a planejar futuro...

Que delícia vê-la sentadinha no auditório do programa de rádio se divertindo e depois reclamando do espaço...

Que privilégio dividir almoço, jantar, cerveja, histórias, mau humor, bom humor...

Tomara que o reencontro não demore!

Boa sorte, Neguinha!

olhos molhados e narizes vermelhos - nós somos duas molengas mesmo!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

grande experiência!


Eu precisava comprar uma cadeira. Coisa simples, sem estofamento, sem cor, sem truques, sem voltas. Cadeira daquele tipo que antigamente se usava de par com as maravilhosas e úteis e belas escrivaninhas. 

Pois bem, sem grana e com a tarefa a ser vencida, fui ao centro velho ali pelas imediações do Paço da Liberdade: comércio super popular, brechós, bares, biroscas, putas. 

O carro? No estacionamento. E lá aconteceu a primeira surpresa do dia, big surprise, como diria N Pessoa. O carro que estava na minha frente era um desses de oito metros de altura, utilitário importado, super chique e poderoso; quando embicado o manobrista fez sinal que não, ordenou meia-volta e fechou a cara. Pensei que o lugar estivesse lotado, mas ele me acenou para entrar e fiz a manobra. Na placa dizia: “apenas carros pequenos e médios” e uma liçãozinha de moral implícita sobre os novos ricos que entopem as ruas da cidade com suas jamantas. Fui ao delírio!

A andar apressada, ocupando meu horário de almoço, na ida achei ter ouvido, numa dessas lojas populares, numa dessas caixas de som de lojas populares, a guitarra de um amigo, do Maurílio Ribeiro. Tem gente que ouve vozes, eu as vezes ouço música - e como isso é relativamente comum comigo, segui.

Escolhi cadeira, pechinchei, troquei de modelo, paguei, carreguei e voltei. 

Novamente em frente à caixa de som, ouvi “Que reste-t-il de nos amors”. Fiquei por ali, dando um tempo para matar a charada.
Quando a música acabou, entendi. Uma das ruas mais populares da cidade, numa das lojas mais populares da região, em que o forte de dia é a venda de móveis furrecas e de noite o crack, lá, no meio de tudo isso, a rádio Educativa fica ligada durante o dia, “porque o chefe da gente manda e a gente gosta”.

Carros grandes não têm vez e a música é a melhor possível. O mundo tem salvação!

97.1FM
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