terça-feira, 1 de julho de 2014

parasita



Estou na companhia da saudade. Ela é visitante sem jeito, não sabe das boas maneiras, não se comporta na casa alheia. É espaçosa, barulhenta, imensa para os meus cômodos.

Horas atrás eu reclamei que fosse embora, mostrei-lhe o caminho do mundo e pedi que seguisse. Nada. A saudade é teimosa.

Inconveniente, faz livre escolha de quando entra em minha casa. Também determina conteúdo das suas malas.

Inventa histórias, nubla o passado, desdiz o futuro, fala mil bobagens, tem o canto hipnótico das sereias – ela é trapaceira!

A saudade gosta do vento que sopra do sul, se embala com ele e deixa que seu corpãozão seja empurrado até se alojar no coração dos fracos, eu.
E uma vez instalada, ela vira uma praguinha, pequenininha, mesquinha, cupim em madeira, e vai, em gerúndio, roendo todo o agora. Nem dá pra saber direito o que está indo embora e o que está criando raízes.

Os insultos da saudade percorrem o corpo: coçam a pele, escorrem pelos olhos, desabam nos frios do estômago, doem na cabeça.
   
Não há jeito do bom combate, de justiça de armas: pra cada foto rasgada, ela inventa dezessete imagens; em cada música de distração, ela compõe sentidos diferentes; quando queimo uma carta, ela acende a luz da cabeceira. Até um fio de cabelo no chão conta uma história imensa.

A saudade é o veneno da alma, é ela quem nos rouba os melhores dias e as medidas dos quadris: me afundo em pote de brigadeiro!



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