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terça-feira, 1 de julho de 2014

parasita



Estou na companhia da saudade. Ela é visitante sem jeito, não sabe das boas maneiras, não se comporta na casa alheia. É espaçosa, barulhenta, imensa para os meus cômodos.

Horas atrás eu reclamei que fosse embora, mostrei-lhe o caminho do mundo e pedi que seguisse. Nada. A saudade é teimosa.

Inconveniente, faz livre escolha de quando entra em minha casa. Também determina conteúdo das suas malas.

Inventa histórias, nubla o passado, desdiz o futuro, fala mil bobagens, tem o canto hipnótico das sereias – ela é trapaceira!

A saudade gosta do vento que sopra do sul, se embala com ele e deixa que seu corpãozão seja empurrado até se alojar no coração dos fracos, eu.
E uma vez instalada, ela vira uma praguinha, pequenininha, mesquinha, cupim em madeira, e vai, em gerúndio, roendo todo o agora. Nem dá pra saber direito o que está indo embora e o que está criando raízes.

Os insultos da saudade percorrem o corpo: coçam a pele, escorrem pelos olhos, desabam nos frios do estômago, doem na cabeça.
   
Não há jeito do bom combate, de justiça de armas: pra cada foto rasgada, ela inventa dezessete imagens; em cada música de distração, ela compõe sentidos diferentes; quando queimo uma carta, ela acende a luz da cabeceira. Até um fio de cabelo no chão conta uma história imensa.

A saudade é o veneno da alma, é ela quem nos rouba os melhores dias e as medidas dos quadris: me afundo em pote de brigadeiro!



segunda-feira, 30 de junho de 2014

a falta e a presença


Silvio,
Tenho lembrado muito de você!
Estamos todos aqui, a roer unhas, palpitar loucamente, vestir a amarelinha e sacudir bandeiras.
É época de Copa do Mundo!

Você me faz falta. Seus comentários sempre tão pertinentes e elegantes, seu jeito de contar as coisas “a bola rola na relva”, seu olhar cheio de poesia, suas mil piadas, o portunhol nas narrações...

Nem sei quantas vezes discutiríamos ou concordaríamos sobre mordidas, vaias, choros, craques e escalações. Você calmo, eu exaltada. Você sério, eu zombeteira. Você cheio de saberes, eu sua ouvinte. Você educadérrimo, eu mil palavrões.
Não sei se nos encontraríamos para as partidas ou se dividiríamos as opiniões pós-jogos no Stuart.

Sei que de uma forma ou de outra, nos recordaríamos de poesias e de músicas, de filmes e livros, de frases e versos.
Sei que levantaríamos brinde pelo amor da amizade e que gargalharíamos e choraríamos e teríamos emoção correndo solta.  

Por tua memória e homenagem, convocarei o escrete da velha família para assistir jogo na sexta-feira. E para você, brindaremos com sorrisos e nó na garganta e saudade sem fim.

Sinto sua falta. Também porque é época de Copa do Mundo!



domingo, 14 de julho de 2013

saudade


“Saudade é a nossa alma dizendo pra onde ela quer voltar”, por muito tempo concordei com Rubem Alves nessa sentença. Mas hoje, a pensar sobre pessoas, lugares, situações, objetos e toda uma fatia agradável do meu passado, discordei do mestre.

Quem sente saudade nem sempre quer voltar. A saudade nem sempre é descontentamento com o presente. E eu, que sou a rainha das listas, relacionei minhas saudades que não me torturam, só contam de um jeito gostoso a vida que vivi até hoje, e que ficou pra trás lá naquele tempo sem evocação:

Eu sinto saudade: 
- da Tia Lourdinha, minha professora da terceira série e seus chiliques de uma vida de dedicação ao magistério;
- de ir pra escola me sacudindo no ônibus tipo chaleirinha;
- dos Corcel II do meu pai trocados a cada dois anos;
- do inverno com geada pesada e as brincadeiras de cortar gelo;
- da coleção de papel de carta;
- dos cinemas do centro da cidade;
- das viagens para São Paulo – a família toda empoleirada no carro;
- da obrigação de comprar leite todos os dias na venda da esquina;
- das intermináveis voltas de bicicleta pelo bairro;
- da torração da mesada em LPs recém-lançados;
- de assistir, quieta e fascinada, meu irmão a montar seus aviões Revell;
- das saídas às escondidas para assistir shows de rock;
- da emoção do primeiro salário do primeiro emprego;
- das tardes de códigos e farras com minha irmã – BNU;
- de ver o Dé com o primeiro uniforme escolar;
- de fazer chuquinhas nos cabelinhos alvoroçados da Lívia;
- de estar grávida, com barrigão imenso e disposição proporcional para a vida; 
- de viajar sem mala, destino ou hora de chegada.

É claro que essa lista não acaba. Ela é a própria vida, os bons momentos que a compõem, o retrato do cotidiano comum que não marca época nem desassossega o peito quando passeia pela memória. 

É bom olhar pra trás e saber que se foi feliz. Feliz sem saber, como cantou Gonzagão em letra de Humberto Teixeira...

 Se a gente lembra só por lembrar...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

de asas e raízes, como diriam fábio e vânia



Meu filho mais velho vai viajar. Um ano fora. Tivemos a ideia juntos e ele foi tratando de desenrolar todos os novelos sozinho. Se saiu muito bem com o mar de burocracia, estranha e desnecessária, que foi se revelando ao longo da jornada.


Vi tantos sorrisos e inseguranças, tanta comemoração e dúvida, tanta expectativa e cansaço. Mas nunca um sinal de recuo.

É bacana quando alguém está realmente a fim de que uma coisa dê certo! A compra de malas novas é motivo de comemoração. Um champagne para cada ida ao consulado. Calendário com contagem regressiva. Até um braço super quebrado ele deu jeito de curar em tempo recorde.



Por esses dias tenho segurado todas as barras familiares: minha mãe, meu pai, meu irmão, minha irmã, minha filha... todo mundo se entristece um pouco com o lance de ficar um ano sem ele. Parem – a Oropa é logo ali! Calma – ele ta indo fazer uma coisa legal! Ei, vocês podem ir visitá-lo! Omba – há skype, face, msn, correio, e-mail, pombos e, até, telefone!

Mas quando descobri que dia é hoje, quando olhei pra folhinha e percebi que temos menos de uma semana juntos, quando acordei pra coisa, me deu vontade de parar tudo! Poxa! Que que é isso? Quer dizer que os filhos crescem mesmo? Quer dizer que eles têm asas?
Ainda não me dei ao desfrute de aproveitar minha condição de mãe e fazer o dramalhão típico, mas estou perto disso.

o dé fez uma mona cubista quando tinha 11 anos

Ele tem 19 anos, formar-se-ia (!) em História esse ano, se não tivesse feito a opção de cursar cadeiras adicionais fora. Trabalha. Estuda pra chuchu. Junta dinheiro. É bem humorado. Já tem suas tristezas e superações. Aff! Que homem está se tornando...  

sábado, 18 de fevereiro de 2012

17 anos depois


um dia desses um amigo me perguntou sobre como estava curitiba eu respondi assim:


Não sei com qual freqüência você vem à cidade; em 17 anos muita coisa certamente mudou, para o bem e para o mal... Mas ainda dá para andar pela Rua XV a caminho da Confeitaria das Famílias e ouvir “borboleta 13, corre hoje, federal”. A pastelaria Brasileira e a pizzaria Itália continuam maravilhando as imediações da Biblioteca Pública.

O Teatro Guaíra à noite tem aquela iluminação linda, mas a melhor agenda ainda fica por conta do Paiol...
O Acrótona continua servindo sopas em endereço suspeito, mas a dissidência rica, A Pamplhylia, impera no Batel, fazendo brindes com vinho ruim da casa a casaizinhos de noivos da classe média-média. E por falar em Batel, sabe-se lá por que, agora há uma variação nas imediações da Praça Espanha, o local chama-se Batel Soho.
No antigo e eterno restaurante São Francisco, na rua de nome igual e bairro idem, o tempo parou e todos os meses ouço as mesmas histórias, dos mesmos garçons de quando era criança. O Bife Sujo virou um buffet por quilo (com 15 tipos de salada); o Stuart atende no mesmo local há mais de um século, os garçons de 30 anos de bar, continuam por lá, mas com algumas variações no público, cardápio, bar e ambiente...
A Boca Maldita ainda ferve aos sábados pela manhã.
A noite do Largo da Ordem não existe mais.
O trânsito está caótico.
O sotaque mudou um pouco.
Os parques se multiplicaram.
Mais de 2 milhões de pessoas vão pra lá e pra cá nos raios metropolitanos da cidade, que não têm mais aqueles terrenos enormes das periferias, foram trocados por condomínios com dezenas de casas, muros altos, cercas elétricas e vigias...
Ah! E como a cidade cresceu muito, pra tudo quanto é lado, a Estrada da Graciosa é logo ali e as vezes até dá tempo de se dar ao luxo de durante a semana comer um pastel por lá e voltar rapidinho para o batente...
17 anos é (e não é!) tempo suficiente para mudar muita coisa!
Apesar de tudo, eu gosto muito daqui... acho que se tivesse uma brisa salgada e um mar batendo na minha janela, jamais sairia.

Um abraço,
Adriana