sábado, 22 de março de 2014

as pobres rimas de outros tempos...


Ei, você?
Você que não sai de casa,
que não deixa a casca,
que não abre a  mente

Você que não lê pra dentro
que se acha o centro
que divaga dormente

Você que não sabe do amor
que se põe manipulador
que empesta ambiente

Ei, você?
que irrita, que chateia e maltrata
vai aí um conselho, é batata!:  
cresça e desapareça, urgente 

sexta-feira, 21 de março de 2014

pega na mentira



Durante a vida conheci vários tipos de mentiras: as que servem ao seu inventor, as que protegem os destinatários, as que promovem paz no ambiente, as que derrubam estruturas, as de amor, de ódio, de sossego, as de vingança. Conheci mentiras sem pé nem cabeça e outras que nem um detector seria capaz de tirar-lhes crença. 

Também elaborei e contei mentiras. Passei pela humilhação sem fim de ser pega e aprendi que mentir nem é tão difícil, afinal quase tudo nos encaminha para isso desde as primeiras experiências, mais trabalhoso é sustentar mentira. Muitas vezes outras têm que ser contadas para mantê-la e lá pelas tantas há tanta história no meio da vida que já nem se sabe mais o que é o que.  

Cresci.

Há um bom tempo só tasco uma mentira ou outra quando ela será realmente muito útil e delicadamente entrará na vida de quem a ouve sem causar prejuízo, a servir de proteção. Necessidade do mundo civilizado.

Mas tem gente que mente pra valer, mente o tempo todo, mente sem precisar, mente por covardia.
Eu estou cansada de gente que mente pra mim. Pior, gente que fica mentindo pra mim.
O mais doído dos gerúndios é o do verbo mentir. Porque quando você persegue um fio de embromação e acaba chegando à conclusão de que tudo, todas as histórias, os planos, as conversas, tudo, tudo, tudo faz parte de uma mesma meada, não há muito o que fazer. O mentiroso não confessa, se confessar você não acredita, se acreditar não perdoa, se perdoar morre de vergonha.

É ruim ser enganada, fazer papel, virar boba. É péssimo enlouquecer atrás da verdade, pensar em tudo, lupa nos olhos. Não é vida andar por aí com sede de vingança e deixar o sangue ferver na mesma temperatura do agora inimigo.

Mas a grande tragédia está em falar sobre assunto tão sério e lembrar do Erasmo Carlos... é-pá-cabá!


segunda-feira, 17 de março de 2014

para o meu, para o meu amor passar



Queria outro nome para minha rua e que de alguma forma ele resumisse tudo de lindo que se deve ter no endereço de morada.

Se ela fosse minha, eu mandaria ladrilhar cores de sol por todo o caminho e todo mundo desfilaria distraidamente em astros de todos os sistemas.

Crianças brincariam nos verdes e teriam esconderijos em copas. Bancos de praça se espalhariam em frente às casas. À leste uma vivenda protegida da chuva e aberta ao público com livros de todos os tipos – ninguém e todo mundo iria organizá-los. À oeste outra com discos de todas as épocas.  

Na minha rua haveria amarelinha pintada no chão, frutas nas árvores, azul no céu e calma nos olhares.

Os cachorros não latiriam amalucados, dariam avisos simpáticos sobre a fidelidade. Passarinhos assobiariam para ouvidos de Villa-Lobos e um ou outro bichano filhote apareceria para fazer companhia ao menino que caiu da bicicleta.

Roupas esvoaçariam no varal como pendões e o rio ali de trás teria água límpida e pedras brilhantes.

Ipês brancos em tempos de frio, flores nas varandas, caixinhas de correio com nomes pintados, rostos sorridentes nas soleiras, hortas nos quintais e um cheirinho de bolo de fubá sem remetente conhecido.   

A minha rua perfeita teria alguns buracos, mas só para formar poça e animar a brincadeira na chuva que cairia depois de um dia de muito calor. 

E lá não morariam vizinhos, todos conjugaríamos a política da boa amizade, a conversar, respeitar espaços e guardar os silêncios necessários.



Mas a rua que eu queria mesmo ter imaginado, é a Rua de Rimas de Guilherme de Almeida, que narro desde menina, a me encantar com ritmo e imagens:

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata…);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE…



domingo, 16 de março de 2014

dos caminhos



Por conta de umas questões paralelas fui para um lado da cidade que não conheço direito. Para chegar, segui ao pé da letra o que riscou o mapa. Nenhuma rua a mais, nenhuma curva a menos. Sucesso.

Na volta, decidi por minha conta e risco fazer caminho próprio. Ora! Nasci nessa cidade, cresci aqui e por aqui estou a tratar dos tempos grisalhos. Dona do meu destino, maior, vacinada, sem dever quase nada a quase ninguém, tratei de fazer o que me deu na cabeça: primeira a direita, segunda a esquerda, sempre reto, descida, subida, semáforo, me perdi.

Me perdi mesmo e tratei a questão como ponto de honra: encontrar sozinha o caminho de casa era preciso! Quase sequei o tanque e nada. A paisagem só tratava de mudar a me causar estranhamento, me revoltei.

Me revoltei mesmo e larguei o carro. Mau humor em nível perigoso, saí a caminhar. Chaves nas mãos, tênis nos pés e fui à terapia do estirão. Andei, andei, andei. E a cada passo, um pensamento; a cada metro, uma lembrança; a cada esquina, uma decisão. Cabeça cheia, maldisse minhas cicatrizes, pisei forte no chão. Exploradora em campos inóspitos, visitei minhas piores memórias, revi difíceis passagens e suei pelo corpo os males do mundo. Me acalmei.

Me acalmei e desesperei quando percebi que não sabia mais onde estava o carro. Na ida poucas coisas da paisagem de fora me chamaram atenção e fui buscar por elas como migalhas deixadas no caminho: uma casinha de madeira recém pintada, uma árvore imensa que não sei o nome, crianças a bater bola com a supervisão dos pais sentados em cadeiras de praia na calçada, jardim com florzinhas bem cultivadas, muro baixo de outros tempos. Me achei.

Me achei e concluí que olhar para fora é necessário, que poder enxergar e ver o que está em volta é fundamental para sobrevivência, que o caminho é tão bom quanto o chegar e que, as vezes, a volta é melhor que a ida.


quarta-feira, 12 de março de 2014

se fizer bom tempo amanhã...



Chove muito aqui. Quase todos os dias. E quando não chove, tudo é meio acinzentado durante o dia e um tanto iluminado a noite. É raro tempo sem nuvens, terra seca, corpo ao sol.

O bom, é que todas as gramas são tão verdinhas que a do vizinho não causa inveja. O chato, é ter que andar sempre com acessório: se não é capa, é sombrinha; se não é galocha, é guarda-chuva.
Raro que as meninas ousem em vestidos floridos e sandálias abertas.

Nunca há aquele cheirinho gostoso de terra aos primeiros pingos, ela está sempre encharcada a contar que existe nas pegadas que deixamos pelo corredor.

Mesmo assim passo protetor solar todos os dias. Dizem que o sol atravessa o lençol e pega na gente. Eu duvido que aqui tenha sol, bola de fogo a boiar no céu, mas passo o protetor feito reza que se pratica antes de sair para as primeiras aventuras.

Me disseram que os homens aqui não são bonitos porque sempre estão na condição de sapo. O dia em que o sol fizer vista eles largarão essa vida de banhado e se transformarão em príncipes.

Há também o problema de não olhar direito para as pessoas. É difícil porque a gente sempre tem que estar a prestar atenção no chão para não pisar em poça ou escorregar em lama e quando a cabeça se ergue, os olhos cerram involuntários para se proteger da água. Não se vê direito quem vem.
As mãos, ocupadas com a parafernália que forma armadura ou, em instinto, cruzadas diante do corpo a proteger sabe-se lá o quê,  não se estendem em felicitação.

Por aqui, sempre damos um passo pra trás, tudo é ameaça constante: o carro que passa na água acumulada, a sombrinha que insiste embaixo da marquise, o vento que arrepia todos os fios, a goteira que sempre cai e é sempre inesperada.  
Esperamos pelo dia de sol, tem vezes que ele chega a noite, a nos proporcionar estrelas; noutras cai num domingo e permite estender as roupas no varal. 

Em terras que há sol as mulheres, os homens, as crianças e até os velhos ficam cor de bronze. Nós vamos ganhando um tom amarelado, pálido, pastel.
Nos lugares de céu azul as os velhos, as crianças, as mulheres e até os homens se deitam em parques e redes e riem e conversam e fazem novos amigos. O clima nos provoca, chovemos nossas angústias diárias, trancamos as janelas, despedaçamos as soleiras, transformamos praças em ruas.

Quase não há lixos nas ruas porque não andamos por elas e as janelas dos carros estão sempre fechadas, todo o despejo é feito pra dentro.

Colecionamos objetos inseparáveis, a cada ano uma novidade chega para o grande museu molhado: galo no telhado, ponteiros na parede, limpador de pára-brisa, umbrela, desembaçador de vidros e espelhos, anti-mofo, secadora de roupa.

Trabalhamos muito, trabalhamos o tempo inteiro, trabalhamos pelo mundo, trabalhamos sobretudo para ver se o tempo passa rápido e se uma migalha de raio dourado nos chega para nos esquentar o rosto e aliviar a alma.
Mas enquanto isso não acontece, trabalhamos e reluzimos e refletimos em pingos, gotas, somos orvalhos constantes.


wonderful



Gosto de homens com traços fortes, bem marcados, que digam logo de uma vez sobre tudo. Homem com rosto de homem! Sem muitas vaidades e sem desleixo.

Como sou de outro século, gosto de homens com comportamento masculino. Não me refiro às gentilezas habituais, que essas já nem  noto porque elas têm que estar naturalmente no comportamento humano – quem não as tem, faz parte do time dos selvagens, com esses não me relaciono. As maneiras masculinas que aprecio têm relação direta com o trabalho, a força moral, o poder de decisão, as vontades de provedor. Homens frágeis e que precisam de proteção não me agradam, não me seduzem; eles me dão preguiça e uma certa pena.

O homem tem que estar disposto às minhas causas, sejam elas quais forem: família, trabalho, amigos, presepadas, viagens, silêncios, espaços, mudanças. E tem que me deixar estar abraçada às dele, ainda que isso envolva meus palpites, comentários e conversas.

É imprescindível que ele saiba cozinhar uma coisinha ou outra e me agrade com surpresas gastronômicas mesmo as que sejam em restaurantes. Ele também não pode ter muitas expectativas sobre minhas possibilidades diante das panelas.

O galã em questão tem que ser livre para fazer o que bem quiser, mas tem que querer exclusivamente comigo. E, importante, saber que liberdade é meu nome e que ele não combina com promiscuidade. Homem perfeitinho não quer provocar ciúme, não fica por aí a jogar charme em outras, não risca traço de insegurança. Mostra as suas preciosidades em ações cotidianas e elas despertam aquela sensação de sorte, vontade de tê-lo sempre ao lado, cuidado permanente.

Os sonhos são importantes. Eu cuido bem deles e é fundamental ter parceiro que seja capaz de também os querer dividir, planejar, colocar em prática.  

Homem de verdade sabe que um ombro em silêncio ou uma piada inesperada são riquezas a serem usadas nas horas mais precisas. Sabe que os amigos são preciosidade da vida e não concorrência de atenção. E que mandar uma florzinha ou um Jaguar pode ter o mesmo efeito.

Meus defeitos não devem se enfileirar em listas, nem virarem armas usadas contra mim. Eles têm que ter espaço em seu coração de perdão e se transformarem em grão de areia diante de minhas qualidades.

O meu homem tem que ter humor inglês, preparar surpresas, lembrar das minhas coisas, cantarolar uma outra musiquinha, entender dos pequenos consertos domésticos, se portar educadamente à mesa, ter muita paciência, um pouco de fôlego para pequenos dramas e ser sabedor de várias siglas: TPM, DR, MPB, etc.

Ele tem que me amar, claro!, mas ele precisa mais, tem que amar me amar. Tem que gostar e estar entregue aos tormentos e maravilhas do amor.

E, por fim, tem que se mostrar em carne e osso.

Né que ele existe?


sábado, 8 de março de 2014

sobre tudo que existe


Há meses procuro uma cadeira para acomodar o esqueleto com conforto e sem colecionar os prejuízos de horas na frente do computador. Faço meticuloso test-drive em todas: altura, coluna, pernas, braços, boniteza, cor, estado, história.

Encontrei na minha memória o modelo ideal, coisa antiga, do tempo que meu pai tratava de suas lições do Colégio Estadual. Madeira, pés fixos, assento arredondado e parte de trás com leve curva para pegar as costas de leste a oeste. Objeto da Cimo, a velha e boa Cimo que começou em Rio Negrinho em 1913 e veio falir aqui em Curitiba em 1982.


Escolher o modelo é um tormento a menos num mundo em que há milhares de variações. Mas é início de outro. Não é fácil encontrar uma Cimo em bom estado e num preço razoável. Como a questão envolve saúde e estética da casa, larguei mão de pensar em valor e me joguei na busca.

Hoje recebi informação do Mercado das Pulgas que o que eu queria estava lá. Coloquei meus apetrechos de escafandrista, carreguei as armas, ergui as mangas, tomei os anti-histamínicos e fui à causa.  

Para minha sorte encontrei mais, não uma, mas quatro belezinhas. Três do jeito que eu havia decidido e uma melhor, muito melhor: giratória, com descanso de braço, encosto pros lados e também de norte a sul. Fiquei louca e queria já montar jogo para sala de jantar, acomodar a família, as visitas, o cão... pensei em fazer coleção, ajustar a casa em museu interativo onde os visitantes aproveitam os objetos.


A realidade veio galopante no código dos preços. Eu precisava escolher uma. Deixei a compra para segunda-feira e voltei pra casa com a cabeça a ferver em contas. E no caminho a dúvida: quais bumbuns ocuparam a minha giratória? As pessoas que se sentaram ali, fizeram o que? Leram? Escreveram? Traçaram planos? Criaram guerras? Desenharam? Colocaram almofada para servir de cama ao gato velho chamado Mitchuca? Por onde andou minha cadeira?
Na ciranda da história os objetos são a testemunha ocular. Eles presenciaram, como criados mudos, todas as modificações da vida privada, as trocas de costumes, brigas, reconciliações, projetos de invasão. Crianças cresceram, adolesceram, casaram, se multiplicaram diante das coisas nossas de cada dia.

Por que será que mesmo assim quando estava chegando em casa vi, apoiado em poste, a derramar lágrimas de ser desprezado, um sofá abandonado a esperar por adoção? É muito desapego pro meu gosto! Ei, vizinho, recolha o seu sofá, não o transforme em entulho de calçada, arrume um lar para ele continuar seu trabalho.

sexta-feira, 7 de março de 2014

X e Y


Todo ano, 8 de março, eu recebo um vasinho de flores com o cartão “Feliz dia da mulher!”. Tem exclamação, é pontual na data, a letra muda, mas nunca tem assinatura.
Não é coisa super rara eu ganhar flores. Gosto, todo mundo sabe que gosto e por isso vez ou outra um buquê pinta por aqui, a colorir os cantos, alegrar a casa e perfumar a alma. É incomum não ter remetente, mas já passei por isso.
Mas, francamente, eu acho de um mau gosto espalhafatoso ganhar flores 8 de março. Eu que não sou machista nem feminista, eu que não sou nada, que não carrego bandeiras e que vou vivendo a vida assim, todos os dias, nas batalhas habituais, não consigo compreender o motivo para que haja um dia para comemorar a sorte de ser mulher. Se eu tivesse escolhido isso, ainda vá lá, mas assim, coisa espontânea, sem pensar, não faz o menor sentido.  

Eu nasci mulher. Pra minha sorte nasci mulher! Gosto e afirmo minha mulheridade e feminilidade munida pela naturalidade de ser do sexo feminino. Não entrei na fila para ter menos pelos, para menstruar, para ter seios, para ter útero. Não foi opção minha, mas tive a ventura de que o X do meu pai encontrou o X da minha mãe bem na minha hora e me fizeram assim.
Mas sou mais que mulher, sou gente, sou eu.
Tenho cá, como todo mundo tem, as minhas coisas, meus casos particulares a favor e contra. Vou, como todo mundo vai, todos os dias à luta. Colho, como todo mundo colhe, o que planto.
O meu sucesso ou o meu infortúnio não vem do fato de estar nessa pele, não acho que a vida seria mais fácil se tivesse nascido Y.
A grande coisa pra mim, a que me faz crer que mereço ganhar cores e perfumes é o que sou e aprendi a ser durante a vida: inteligente, do bem, bacana, solidária... Quando ganho um vasinho no 8 de março tudo escorre pelo ralo e o remetente secreto está a me dizer que nada disso importa, ele me conta em cartão exclamado que se eu fosse uma pilantra, ladra, mentirosa, trapaceira, ainda assim, ganharia flores, só porque sou mulher.

Ah! A luta por direitos? Sim, por direitos humanos, por respeito particular, por reverência a qualidade de gente, por saudação a condição civilizada que vivemos ou deveríamos viver.   
Nada, além disso, importa pra mim. Então, um favor para não provocar quem veste cor de rosa choque mas sabe que isso não interessa: esqueça do 8 de março, esqueça da mulher, esqueça de mim. Pense em todos os dias do ano, com respeito ao próximo e a admiração pelas particularidades de cada um. 


lacunas


das cores que não gosto, a púrpura é minha preferida;
dos hobbys que não tenho, nadar é o que mais me dá prazer;
dos lugares que não conheço, Helsinki é onde me sinto em casa;
dos restaurantes que nunca pisei, o Rules é o que faz a comida do jeito que gosto;
dos banhos que não tomei, o inesquecível foi o de Oludeniz;
dos instrumentos que não toco, sou virtuose em piano;
das flores que não plantei, a que desabrochou mais bela foi a Vine Jade;
das línguas que não falo, sou fluente em balúchi;
das fotos que não tirei, a que está no porta-retrato é a de 1957;
das árvores que não plantei, a que cresce frondosa está na Plaza Hidalgo;
dos sonhos que não tive, o que realizei foi o de flutuar na lua;
de tudo que não tenho, o que mais gosto é a imaginação.

domingo, 2 de março de 2014

o cachimbo é de ouro

Eu queria que todos os dias amanhecessem assim, como manhã de domingo. 
A brisa entrando suave na janela, um violão vadio na agulha, ao longe as risadas das crianças. 

Queria também que esse solzinho fraco, leve, quase de outono, que beija as plantas e doura o chão da sala continuasse igual por todo o dia, por toda a noite, por toda a vida.

Queria a possibilidade das janelas do prédio ao lado abertas e que a alma de meus vizinhos permitissem saudação rápida, sem palavras, traduzida em sorriso e aceno. 

Queria mais, queria que essa poltrona ficasse me abraçando assim em seu colo por muito tempo e que esse livro não acabasse já. 

Queria ter voz rouca e sensual para poder declamar em cor de carmim toda a poesia do mundo.

Queria que essa manhã de domingo tivesse o canto de passarinhos e o cheiro do mar. 

Queria ainda que se misturasse a essa leveza, que é metade vivida e outra metade sonhada, a certeza da paz permanente de que esses dias melhores que tenho hoje se desdobrarão em muitos outros. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

da chegada do sublime


Eu não formei muitos pares. A inclinação de interesse na vida alheia sempre me fez preferir relacionamentos longos, com mergulho na vida do parceiro, conhecimento das particularidades, essas coisas.
Mas me envolvi com tipos variados.

Tive namorado que era perfeito para os programas de música. Se eu não lembrava o nome de um compositor, ele revelava certeiro: Vicente Barreto! Antes de eu saber dos shows que aconteceriam na cidade, ele chegava com as entradas. Disco novo no mercado?, eu conhecia todos antes do lançamento. Mas ninguém ama uma pessoa só porque ela também é fã do Tom Jobim.

Um outro me ensinou a me divertir. Me levava para dançar, saracoteávamos até o corpo não aguentar mais. Teatro, cinema, parques... a vida acontecia na hora do recreio. Mas ninguém ama um homem só porque ele sabe curtir os prazeres.

Depois veio aquele das conversas intermináveis sobre assuntos inesgotáveis. Falávamos sobre tudo e tudo nos interessava. Horas e horas de papo. Mas na prática, ninguém ama ninguém por conta de suas teorias.

Também passei pela fase de ser mantenedora da felicidade alheia. Jactância de papel importante: sem mim, a criatura não poderia ser feliz. E me esforçava em cuidados, preocupações, abdicava de minhas vontades para lhe ceder meiguices. Mas ninguém ama quem lhe empalidece os cabelos pelo prazer de ser cuidado.

Com tantos tropeços e sem os entendimentos claros na cabeça, o amor chegou. O amor chegou e pronto, se estabeleceu sem explicações, com um monte de informações contraditórias e situações antes insuperáveis. Ele não gosta de Paulo Cesar Pinheiro?, e daí? Ele não vai a festas?, ótimo, ficamos em casa. Não há teorias imensas?, melhor, sobra tempo para os beijos. E assim por diante.

Eu não sei o que define o amor, o amado, o amável, o amante. O que eu entendi é o que ele me causa, no que me transforma e como modifica minha existência. Também saquei que é assim que quero me sentir pro resto da vida e que não há outra forma de viver de agora em diante, a não ser esta, dentro do sublime.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

a vida se repete na estação



Eu mudei de casa recentemente. Como da última vez e da penúltima e da anterior e em todas as vezes, e acho que como acontece com todo mundo, os espaços são diferentes. Outras paredes, outras metragens, outras composições. Mas a coleção de objetos que insisto em carregar é a mesma.

Há coisas que eu sei que sempre me acompanharão e elas vão ganhando a companhia eterna de outras que chegam e se estabelecem como parte da vida, como narrativa das importâncias até aqui e depois.

Minha casa se transformou no cofre da minha memória e tudo tem história sagrada: caixinhas, quadros, girafas, rádios, baús... tudo conta um pouco de mim, dos amigos, da família, das pessoas que quero bem e que bem me querem.

Nesses momentos faço o treino do desapego, de deixar para trás o que serve muito bem para outros e que já não me diz nada. Sofro com o medo do arrependimento, daquele que vivemos quando arrumamos os armários a pensar que iremos emagrecer uns quilos e ainda caber na calça novinha que está à beira de ir pro espaço, ou daquela moda que poderá voltar e permitir que não se saia pelas ruas como se estivéssemos acabado de desembarcar do túnel do tempo, ou ainda a difícil consciência de transformar em pano para limpar os vidros a camiseta toda esburacada...

Parece tarefa boba e desimportante, mas tem nessa mudança de espaço muito de se saber quem é, de se reconhecer nas próprias escolhas, de encontrar a medida da peneira, de olhar pra trás e enumerar a vida.
Foi  isso que aconteceu comigo. Ao ver fotografias; embalar taças; encontrar entradas de cinema, shows e teatro; descobrir diários antigos, anotações em agendas velhas, cartas e bilhetes de outros tempos. O que está na memória muitas vezes tem forma, cor, cheiro, é possível ao tato...

A história da gente é feita de permanências e rupturas! 



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta...



Tela vazia, papel em branco, nada a escrever, nada a declarar.


Mas quando foi que comecei a ficar sem assunto? Em qual esquina eu deixei cair o pacote com as ideias da escrita? Por que que isso acontece assim?

Pensei um milhão de assuntos diferentes e nenhum deles rendeu nem duas ou três linhas. Pensei em seguir em frente dando dois passinhos pra trás e lembrar de qualquer coisa que me fizesse distribuir o passado pelo papel. Nada. Pensei em deixar que um livro de outro, um texto de alguém me inspirasse sobre o que dizer. Nada, nadinha.

Uma vez estava sem tema e acabei escrevendo sobre o que eu tinha na geladeira, parece sem graça, mas como por aqui há algumas coisas guardadas mais por valor sentimental que por consumo propriamente dito, virou texto interessante e divertido. Teve outra vez que minha completa falta do que dizer se transformou na comovente memória de quando dei meu primeiro beijo. E, para exemplificar onde chega o desespero da falta de musa, até sobre os estacionamentos onde deixo o meu carro já escrevi em época não menos desajeitada que essa.

Estar sem discurso até poderia ser facilmente superado: seria só me trancar em casa, ler, ouvir, ver... ou sair por aí, encontrar os amigos, conversar com os amigos, ouvir os amigos... ou qualquer coisa e pronto. Mas eu tenho a necessidade da escrita. Preciso.

Não ter sobre o que batucar é como tomar o veneno da monotonia. É perder a garantia da sanidade. É o começo do fim, ou é o fim.

Não conseguir escrever uma linha interessante é tão difícil quanto comer cachorro-quente com salsicha de soja em pão integral com maionese light. Não ter assunto é como olhar lua, estrelas, árvores, flores e não repará-las. Não conseguir conversar sobre nada é como se nada do que vivi até aqui tivesse acontecido de verdade.  

Eu não sei porque esse tipo de tragédia está a despencar por aqui. E só para não esquecer como se acentuam as palavras contei sobre isso, mas continuo desesperada atrás de ideia... enquanto ela não chega, vou lavar roupa.