domingo, 31 de março de 2013

feliz

quando era criança, minha mãe sempre organizou imensas festas de aniversário. ano após ano, a casa cheia, a vida em festa. gostava. não podia escolher meus convidados, não podia palpitar na comida, não podia me vestir do jeito que queria... mas gostava. sempre entendi aquela movimentação toda da minha mãe, como uma atenção especial, coisa exclusiva, um dia meu em que minha mãe fazia coisas pra mim. exclusividade - gosto muito!
cresci um pouco e comecei a sacar que se não podia palpitar em nada, era porque a festa não era minha e nem pra mim.
passei a detestar meu aniversário.

pulei para um tempo em que eu nao gostava de comemorar aniversário, me escondia das pessoas, procurava ficar quieta, sozinha.

percebi que os meus se chateavam em não poder festejar o meu dia. e abri concessões. pequenos encontros, reuniões particulares, almoços para poucos.

o tempo passou e comecei a sentir falta de algumas pessoas em minhas comemorações. e estendi convites, ofereci casa, fiz bolos, salgadinhos, bebidas.

hoje, amo receber as mensagens de longe e de perto. de gente que conheço bem, outros só de vista... estou num tempo que se houvesse condiçõe$ faria grandes festas, para encontrar cada um daqueles que fazem parte da minha caminhada... 

recebi mais de 300 felicitações: por email, pelo FB, por mensagem, por telefone, pela memória e até pessoalmente. 
a permissão para que o amor circule, para ser abraçada, beijada, querida é uma maravilha, inunda a alma!

quem sabe, ano que vem consigo reunir em espaço físico grandes pessoas, que admiro e quero perto, bem perto!
tim-tim! 




terça-feira, 26 de março de 2013

sal


Eu nunca me cansei do mar. O eterno avanço e recuo me levam e me trazem com a fome de pensar e repensar, de partir e voltar, de ter e soltar.

Nas minhas horas malsãs é com o sal que me curo. Na comemoração de grandes alegrias brindo com espuma.

No ritmo das ondas, no batuque do mar eu sinto meu corpo, o pulsar da vida, a coragem de desbravador, a calma de pescador e a solidão de marinheiro. No indo e vindo infinito é que reconheço meus ciclos.

Gosto das coisas do mar: ventos, sabores, saberes, mistérios, viagens – partidas e chegadas. 

Nunca pensei em me lançar em grande navio, nem em canoa furada. Nunca me senti capaz de abandono do cais, mas sou experiente em longas despedidas. 

Nem tudo que o mar me traz, eu devolvo. Nem sempre lhe encaminho oferendas. Todas as garrafas já foram lançadas, mas continuo a renovar esse compromisso e faço votos de novas ondas. 

Espelho do céu, dono de mistérios, depósito de esperanças. Como bem disse o grande Mia Couto, quem nunca viu o mar, não sabe o que é chorar! 


sábado, 23 de março de 2013

quimeras mil


Tempo atrás o diabo me visitou. Sedutor, tratou de fazer graça, jogar charme, preparar terreno. Trouxe flores, cantou a mais bonita das músicas, me tirou pra dançar. Preparou drinks, fez comidinhas e me desafiou para misterioso jogo.


O fascínio desta visita é o perigo, o risco, a corda bamba. O diabo não gosta de certezas, não inspira confiança, emite prazo de validade para as situações, mas não o revela. E quem abre a porta e permite sua entrada, vive com a guilhotina a apontar, sedenta, para o pescocinho.

Eu nem quis deixá-lo entrar. Também não tratei de evitá-lo. Fui observando-o, adivinhando-o, assistindo-o. Mas ele conhece as receitas de sereia, sabe muito sobre  fascínio. O jogo se estabelece rápido, ágil, agressivamente agradável. Explode em prazeres e se tranca na alma.

No dia em que o diabo me soube sorridente, me olhou nos olhos, fundo nos olhos, e eu entendi que estava perdida. Silêncio.

Com chicote no olhar, nenhum perdão e garras afiadas, o diabo espera a hora precisa e conta a que veio: esmigalha rosas, pisa em sonhos, lança flecha envenenada, apaga luzes. Ri satisfeito e vai embora.

Mas o pior, o pior de tudo, é que ele muda de nome, de figura, de papel. Te procura distraída em situações diferentes, dá um tempo e quando você está se colocando de pé, ele bate à porta, sorridente e sedutor, não pede licença e se instala para te puxar pela mão e te convidar a nova viagem.

Quem resiste? 





sexta-feira, 15 de março de 2013

o bom da vida vai prosseguir


A primeira notícia que vi no jornal hoje cedinho dava conta do coma irreversível de Dominguinhos. 

Eu tive a sorte, a grande sorte, de conhecê-lo e de me tornar sua amiga e, mais que isso, de tê-lo como amigo. Muitas vezes o recebi em minha casa; tive a honra de dividir café da manhã, almoço e jantar; pude partilhá-lo com minha família; ouvi seus conselhos, sábios conselhos; palpitei em sua vida...


com minha mãe, em almoço surpresa para ele e para ela.

Domingos é uma pessoa muito importante pra mim! Desde a primeira hora de convívio sempre me acompanhou a sensação de que nunca mais ficaria sozinha em algum tropeço...  Ele já me tirou de frias, encrencas, dificuldades algumas vezes. 
De um jeito manso, doce e absolutamente surpreendente ele me ligava e com a voz sertaneja disparava:
- Adriana! O que está acontecendo? Me conte que dou jeito. 
Eu, do outro da linha, sempre fiquei chocada com essa capacidade. Nos meus desertos, ele me adivinhou muitas vezes e, boa parte delas, me ajudou só com a força de sua palavra, a coragem de pensamentos diferentes de uma cabeça livre e pronta pra tudo. Em outras, tratou de maneira prática minhas pendengas financeiras, minhas dificuldades cotidianas. 

É uma sorte muito grande ter alguém assim na vida! E o meu sentimento de amor e de gratidão por ele é uma das coisas mais bonitas e puras que mora dentro de mim. (Também é uma sorte muito grande poder sentir isso.) 


no tempo em que eu ainda tinha covinha...
Mesmo correndo o risco do post ficar imenso, quero muito contar uma história. 

Em 2011, o João Egashira me procurou com a ideia de que sua Orquestra à Base de Cordas e as rádios fizessem homenagem ao Domingos, que a TV gravasse DVD e que chamássemos algumas pessoas para assistir isso tudo. Pois bem, assim foi. 

A combinação dos músicos da Orquestra, mais as músicas de Domingos, mais seus músicos e mais o próprio empunhando a sanfona a cantar e tratar das belezas da alma, foi incrivelmente emocionante e comovente. 
Lá pelas tantas, depois de “De Volta pro Aconchego” eu tinha que entrar no palco, com flores, placa e discurso para surpreendê-lo. Mas eu estava tão emocionada com tudo que já tinha rolado até ali (outra hora eu conto), que já subi no palco muito emocionada e o que era pra ser uma homenagem da instituição, virou um testemunho pessoal sobre tudo que penso dele. Falei de tudo: amor, gratidão, respeito, bondade, generosidade, cuidado e até de sua música... Chorei. Ele chorou. Sabíamos bem. Quando voltei pro meu lugarzinho, ele começou a tocar uma música linda. Não uma que mostrava sua habilidade de sanfoneiro com dedos espertos e velozes, mas uma que revelava sua grande arte de melodista, de entendedor da alma. Uma valsa tão cheia de beleza, que eu e João ficamos quietos, ouvindo, chorando. Nenhum de nós conhecia, mas tinha uma coisa tão grande na música que dava vontade de ficar o resto da vida ouvindo-a. Quando acabou, ele revelou: “O nome dessa música é Adriana, eu acabei de fazer!”.

Hoje, o que sei, é que quero muito vê-lo, reencontrá-lo. Não acredito que o jornal esteja certo, que os médicos estejam certos... Eu acho que ele vai mesmo tratar de colocar em prática aquela coragem nordestina, aquela sobrevivência sertaneja, aquela teimosia de sanfoneiro e daqui a pouco pinta por aqui, com sorriso sincero, com abraço, proteção e tudo, tudo, tudo que compõe uma das maiores existências que conheço. 





sexta-feira, 8 de março de 2013

você tem medo de quê?

Eu tenho muitos medos!
Medo de aranha, do escuro e da falta de grana
Medo de assalto, de tristeza sem fim e de lugares pequenos
Tenho medo de ficar doente, de magoar pessoas, de engasgar
Medo que me machuquem, de escorregar, de cortar o cabelo
Tenho medo de multidões, de água gelada, de andar descalça...

Tenho um milhão de medos, mas me acompanha, desde as primeiras horas, coragem para enfrentar todos! 
E o melhor: sorrindo! Que assim me conserve...

domingo, 3 de março de 2013

a arte da reversão


Aos quatro anos aprendi a amarrar meus cadarços.

Minha vida mudou!

Variações da mesma habilidade me servem até hoje para prender laço no cabelo, fechar cintura da saia, segurar biquíni, guardar o carregador do telefone, iniciar costura, fabricar penduricalhos, moldar fitas, ajeitar gravata, fabricar buquês, fingir de marinheiro, emendar corda bamba, dar nó em pingo d’água...

O que eu ainda não sei é afrouxar o que não precisa de tanta força.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

minha casa, minha vida




As vezes fico escondida em casa. Aqui ninguém me acha. O cobertor é o manto da invisibilidade!

Aprendi que quando a gente está muito triste, sem vontade de conversar, sem querer saber do mundo, é melhor se enfiar em casa. Porque ninguém tem muita paciência ou boa vontade com deprê alheia – há de se cuidar das próprias antes.

Por isso, quando não quero dar explicações, forçar sorrisos, fingir interesse, me tranco em casa.

O engraçado disso, é que acho que não por acaso, casa tem asa na grafia. Trancada a sete chaves, eu vôo por aí... percorro os lugares da minha memória, visito meu passado, caminho pelo futuro. Vou e volto. Vou, não volto. 

No silêncio da minha casa faço descobertas impressionantes, conheço possibilidades estonteantes, desenterro tesouros, coloco pá de cal em besteiras.

No conforto da minha casa, piso em espinhos, alongo pensamentos, choro sem testemunhas.

Na proteção da minha casa, caminho sem roupa, penso sem censura, tiro a maquiagem.

É em casa, bem dentro de casa, que meus vôos vão mais longe, mais alto, mais pra fora.

E em dia de faxina, então? Afff! Aí ninguém me segura.  


sábado, 16 de fevereiro de 2013

a olhar pra dentro


As vezes me encaixo na frase de Vinícius de Moraes, “tenho tudo pra ser feliz, mas acontece que sou triste”. Em dias melhores, a alegria me invade.

Vivo de acordo com a maré, deixo que os ventos soprem e já desisti de agarrar a vida e domá-la. Mas me seguro firme em minhas poucas certezas e só navego em mar transparente. 

Gosto das palavras, mas ameaçada me calo. Tenho segredos que encheriam um livro e algumas portas a serem abertas. Frestas para uns lados, cadeados para outros. 

Adoro o sol, flerto com as estrelas, desenho em nuvens, parte de mim mora na lua. 

Acho bom quando intervalos de silêncio são preenchidos com música e gosto mais ainda quando a paisagem se enche de flores.

Há tanta realidade em meus sonhos que já nem ouso mais fechar os olhos. Mas vez ou outra me distraio, deixo as amarras e salto pro lado de lá.

Não sei quantos anos tenho, tudo em mim é incompleto e faço voar as folhas do calendário.

Acendo velas, faço orações secretas, lanço moedas em fontes, garrafas ao mar.

Cada novo dia vale por todos e as vezes perco a noção do presente.

Boa alma, não mereço castigos.

Não tenho calos, meus pés correm o mundo.

Cada cicatriz se mistura à pele a fazer parte de mim como qualquer outro pedaço não quebrado. 

Não comprei casa, não doutorei, não fiz fortuna. Tenho filhos, árvores e livros.





terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

"o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente." - Mário Quintana


De vez em quando meu passado vem me visitar. Chega, bate à porta, nem espera resposta e entra. Não diz a que veio, mas me revira, chacoalha, joga pro alto e espera, que como gata, eu caia em pé. 

Coisas que não lembrava mais, sentimentos que julgava perdidos, peças desse tabuleiro que é minha vida ressurgem. 

Quem é que pode se separar da própria vida? Ninguém! A nebulosa que a distância cria dos fatos, não os apagam. 

O mais engraçado de tudo é que mover uma peça significa rever o tabuleiro inteiro e num repente há uma vida toda para reconhecer por cima do ombro, com o canto dos olhos, dentro do receio das lembranças.

Tenho medo do passado. Medo que mostre que eu já não sou eu mesma ou, ao contrário, que me revele que eu ainda sou a mesma. 

Não há em mim a vontade de voltar a ser criança; a vida adulta me deu liberdade, autonomia, independência e outras ilusões que uso pra me consolar (meu mundo é hoje!)... mas há alguma coisa da época em que vivia sem pensar, medir ou ponderar que gostaria muito de ainda reconhecer em mim. Hoje, tudo tem consequência, tem motivo, tem razão, razão, razão. 




domingo, 10 de fevereiro de 2013

confissões


Há alguns anos eu estava em São Paulo, na Livraria da Vila, a fazer hora para uma matéria que um programa da TV Cultura faria comigo. Como estava um bocadinho nervosa, não dei conta de ler (o que seria o mais óbvio para deixar que os ponteiros cumprissem o seu papel e o pessoal da produção ajeitasse tudo). Fui para as estantes infantis vasculhar. Puxei um livro, sem ver título ou autor e abri em página qualquer, a frase, grande, inteira, cheia, jogou-se em mim “Quem nunca viu o mar, não sabe o que é chorar”, bem na hora o pessoal apressado da TV me chamou. Guardei o livro imediatamente, tomei meu lugar e fiz meu trabalho. Outro compromisso em seguida não me deixou voltar à estante, mas a frase ficou cravada em mim. Tive sossego muito tempo depois, quando decifrei, tratava-se de “O Beijo da Palavrinha”, de Mia Couto. Comprei-o uma, duas, três, dez vezes e o fiz rodar por aí, sempre em mãos adultas – porque acho que as crianças, de alguma maneira, já conhecem sua mensagem. 



Entre ontem e hoje pela manhã dei conta do “A Confissão da Leoa”, do mesmo Mia Couto, mas este exclusivamente para adultos. 

Um livro tão lindo! Não só pela beleza da literatura, pela habilidade do autor com as palavras, pela história tão fantástica e real, pela excelente escolha de narrativa. Mas, principalmente, pela jornada interna que proporciona. 

Ouvi alguns comentários de leitores, e até do próprio Mia, a falar que a obra se refere a direitos humanos, à repressão social, sexual, à condição da mulher africana, ao confronto entre mito e realidade... 

Eu não consegui pensar assim. Na minha leitura, o livro tratou dos enfrentamentos pessoais, das situações complexas que aprendemos todos os dias a driblar, das voltas que a cabeça da gente tem que dar para poder prosseguir, de um mar de coisas e sentimentos muito íntimos que não cabem ser revelados assim, aqui.  

Comprarei tantos “A Confissão da Leoa” quanto possa e presentearei meus companheiros de leitura. 

Ah! um pouquinho do que pode o delicioso Mia Couto, um tiquinho da poesia que habita sua prosa:

- “Como há espaço dentro de nós para enterrarmos as nossas pequenas mortes!”
- “Escutar já é falar.”
- “Ninguém mais do que eu amava as palavras. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha medo da escrita, tinha medo de ser outra e, depois, não caber mais em mim.”
- “Todo o nosso presente era feito de passado.”
- “... viajo contra o destino, mas a favor da corrente.”
- “Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amarmos alguém.”
- “Essa aprendizagem fez-me sem plano mas com propósito.”





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

uma pausa para o Paulinho


Logo que assumi a diretoria das rádios e-Paraná alguém falou que minha gestão seria um atraso para emissora porque eu sabia até a data de batismo do Paulinho da Viola. Que falha, a minha. Bem que gostaria, mas não sei. 

Eu amo o Paulinho da Viola. Adoro tudo: a voz, o jeito, as músicas, suas maneiras chiques, seu jeito educado, fino, requintado... tudo que conheci nele, gostei. Apesar de achar que ele deveria tocar em todas as rádios do país, não imponho aos programadores sua presença, mas ao seguirem as orientações artísticas da emissora, o Paulinho é naturalmente tocado...  


O dia hoje começou de um jeito muito, muito, muito bom. Acompanhe: na cabeceira direita da minha cama há um rádio sintonizado na Educativa FM, na esquerda, na AM. 

Pois bem, acordei cedinho e como de costume bati no rádio da direita pra ver se estava no ar, com boa transmissão, etc. Tudo certinho, som limpo, rolando Marisa Monte a cantar “Para Ver as Meninas”, do queridíssimo Paulinho. ouvi até o fim, porque adoro essa música e ela estava a soar tão bem naquele horário, naquele volume, daquele jeito. Me acomodei melhor e fiquei a pensar sobre “uma pausa de mil compassos / um samba sobre o infinito...”. 

Desliguei o radinho e girei o botão do outro aparelho, o da esquerda. AM em alto e bom som, a tocar o próprio Paulinho em “Coisas do Mundo, Minha Nega” (que, é claro, é uma das favoritas de todo mundo), agradeci a sorte e pensei que “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”.

As rádios são bem diferentes, mas elas têm como ponto comum a qualidade da música e vez ou outra o que toca em uma passeia pela outra. Ô sorte! 

Que maravilha começar assim! Nem na Argentina, nem na Itália, nem no Uruguai... em lugar algum do mundo a gente tem Paulinho da Viola quando acorda! 

Para quem está longe ou não ligou o rádio cedinho, um Paulinho mais do que especial. 




domingo, 27 de janeiro de 2013

cara carla


Carla querida,

Você, mais do que eu, sabe bem que a vida dá voltas, que o mundo gira, que a roda anda... 

Você, mais do que eu, conhece os caminhos da mudança, da troca, das novas possibilidades...

Você têm grandes asas, voa para outras paragens, aceita desafios, se joga. Troca de roupa, de endereço, de trabalho, de vida. Tem a coragem dos mergulhadores e a sensibilidade de enxergar nas profundezas.

Que essa sua nova vida seja cheia de grandes descobertas, não só as profissionais, mas as pessoais, aquelas que dão novo sentido aos pensamentos, que fazem a gente olhar no espelho e entender um pouco mais desse complexo todo. 

Esse tempo que passamos juntas foi muito bacana, apesar das suas maluquices, apesar das minhas maluquices. Que bom foi tê-la em minha casa a ouvir minhas lamúrias, a beber vinho, a estourar mini-champagne, a discutir posturas, a planejar futuro...

Que delícia vê-la sentadinha no auditório do programa de rádio se divertindo e depois reclamando do espaço...

Que privilégio dividir almoço, jantar, cerveja, histórias, mau humor, bom humor...

Tomara que o reencontro não demore!

Boa sorte, Neguinha!

olhos molhados e narizes vermelhos - nós somos duas molengas mesmo!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

grande experiência!


Eu precisava comprar uma cadeira. Coisa simples, sem estofamento, sem cor, sem truques, sem voltas. Cadeira daquele tipo que antigamente se usava de par com as maravilhosas e úteis e belas escrivaninhas. 

Pois bem, sem grana e com a tarefa a ser vencida, fui ao centro velho ali pelas imediações do Paço da Liberdade: comércio super popular, brechós, bares, biroscas, putas. 

O carro? No estacionamento. E lá aconteceu a primeira surpresa do dia, big surprise, como diria N Pessoa. O carro que estava na minha frente era um desses de oito metros de altura, utilitário importado, super chique e poderoso; quando embicado o manobrista fez sinal que não, ordenou meia-volta e fechou a cara. Pensei que o lugar estivesse lotado, mas ele me acenou para entrar e fiz a manobra. Na placa dizia: “apenas carros pequenos e médios” e uma liçãozinha de moral implícita sobre os novos ricos que entopem as ruas da cidade com suas jamantas. Fui ao delírio!

A andar apressada, ocupando meu horário de almoço, na ida achei ter ouvido, numa dessas lojas populares, numa dessas caixas de som de lojas populares, a guitarra de um amigo, do Maurílio Ribeiro. Tem gente que ouve vozes, eu as vezes ouço música - e como isso é relativamente comum comigo, segui.

Escolhi cadeira, pechinchei, troquei de modelo, paguei, carreguei e voltei. 

Novamente em frente à caixa de som, ouvi “Que reste-t-il de nos amors”. Fiquei por ali, dando um tempo para matar a charada.
Quando a música acabou, entendi. Uma das ruas mais populares da cidade, numa das lojas mais populares da região, em que o forte de dia é a venda de móveis furrecas e de noite o crack, lá, no meio de tudo isso, a rádio Educativa fica ligada durante o dia, “porque o chefe da gente manda e a gente gosta”.

Carros grandes não têm vez e a música é a melhor possível. O mundo tem salvação!

97.1FM
www.rtve.pr.gov.br
www.facebook.com/radioeparana

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

gabarito&explicações

Como expliquei no post anterior, e no post anterior ao anterior, o que aqui eu chamo de “Qual É a Música?”, é parte de um trabalho muito bacana iniciado lá na tecnologia educacional da Positivo Informática, chamado “Pitadas de MPB”, que ficava dentro de algo maior chamado “Um Gostinho de MPB”, que ficava dentro de algo maior ainda chamado “Central de Projetos” (vou parar porque Positivo é uma empresa muito grande). 

Pois bem, o Noel Rosa ganhou destaque em 2010, por conta de seu centenário. Foi bem bacana! Estudantes do Brasil inteiro (numa quantidade menor do que gostaríamos, é claro!) conheceram o Poeta da Vila, sua biografia, músicas, pensamentos, etc, etc, etc.

No “Pitadas...” os alunos recebiam mais que as dicas. Recebiam áudios com os trechos das músicas e textos com pedacinhos de suas letras. Com todo o material na mão, eles faziam as associações necessárias para chegar ao fim da charada – o que garantia, além de diversão, certa reflexão sobre o que dizia cada letra... 

Aqui, um pouco por preguiça um pouco por incompetência, não coloquei os áudios, e achei que as estrofes facilitariam muito a vida dos barbados que freqüentam o blog...
Para o gabarito, no entanto, acho bacana inserir o trecho da letra...    




dica
trecho da letra
música e autor
1
Pessoa quer mudar sua maneira de viver porque considera que com o comportamento atual não conseguirá alcançar seus objetivos.
Eu hoje vou mudar minha conduta / Eu vou à luta, pois eu quero me aprumar / Vou tratar você na força bruta / Que é pra poder me reabilitar / Pois esta vida não está sopa...
Com que Roupa?
(Noel Rosa)

2
As considerações a respeito do gênero musical mais popular do Brasil.
Batuque é um privilégio /  Ninguém aprende samba no colégio / Sambar é chorar de alegria / É sorrir de nostalgia dentro da melodia
Feitio de Oração
(Noel Rosa e Vadico)

3
Simpatizante da Vila Izabel, bairro e escola de samba carioca, faz referência a outras escolas e critica quem não consegue entender todas as possibilidades da sua escola preferida.
Quem é você que não sabe o que diz? / Meu Deus do Céu, que palpite infeliz! /
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, / Oswaldo Cruz e Matriz / Que sempre souberam muito bem / Que a Vila Não quer abafar ninguém, / Só quer mostrar que faz samba também
Palpite Infeliz
(Noel Rosa)
4
Pessoa assume que não consegue manter suas decisões, mesmo sabendo-se prejudicada com esse comportamento.
Jurei não mais amar pela décima vez / Jurei não perdoar o que ela me fez / O costume é a força que fala mais forte do que a natureza / E nos faz dar provas de fraqueza
Pela Décima Vez
(Noel Rosa)

5
Rapaz apaixonado sofre com o comportamento da amada e com as lembranças que giram em torno dela.
Quando o apito da fábrica de tecidos / Vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você / Mas você anda sem dúvida bem zangada / Ou está interessada em fingir que não me vê
Três Apitos
(Noel Rosa)
6
Cliente que aparenta ter muita intimidade com atendente de estabelecimento comercial faz inúmeros pedidos.
Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa / Uma boa média que não seja requentada / Um pão bem quente com manteiga à beça / Um guardanapo e um copo d'água bem gelada / Fecha a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol / Vá perguntar ao seu freguês do lado / Qual foi o resultado do futebol
Conversa de Botequim
(Noel Rosa e Vadico)
7
Após reflexões sobre a melhor maneira de conduzir a vida, pessoa chega a uma conclusão que a protege dos comentários alheios.
Mas a filosofia hoje me auxilia / A viver indiferente assim / Nesta prontidão sem fim / Vou fingindo que sou rico / Pra ninguém zombar de mim
Filosofia
(Noel Rosa e André Filho)
8
Pessoa que quando alterada apresenta dificuldade de articulação, repetindo sílabas das palavras ao falar.
Mu... mu... mulher, em mim / fi... zeste um estrago
Eu de nervoso esto... tou
fi... ficando gago / Não po... posso com a     cru... crueldade / Da saudade, Que... que mal... maldade /
Vi... vivo sem afago
Gago Apaixonado
(Noel Rosa)
9
História de amor e desencontro entre personagens da Commedia dell’Arte (Itália, século XVI) que se tornaram comuns nos bailes de carnaval do Brasil.
Um pierrô apaixonado / Que vivia só cantando / Por causa de uma colombina / Acabou chorando, acabou chorando
Pierrô Apaixonado
(Noel Rosa e Heitor dos Prazeres)
10
Recomendações de como as pessoas devem se comportar em sua ausência definitiva.
Quando eu morrer, não quero choro nem vela / Quero uma fita amarela gravada com o nome dela / Se existe alma, se há outra encarnação / Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão
Fita Amarela
(Noel Rosa)

Muita saudade de fazer esse trabalho!