domingo, 1 de fevereiro de 2015

fé de pescador

Tom querido,

pela primeira vez desde que nos conhecemos esqueci do seu aniversário.

claro, sei que isso não faz a menor diferença pra você nem aí na sua eternidade e nem se estivesse por aqui nesse efêmero nervoso.
mas o acontecido me aborrece.

todo vigésimo quinto de janeiro acordava e pensava: hoje é dia de Tom Jobim! todo ano era assim: colocava disco seu na vitrola, olhava fotos, lia sobre você. ficava num estado de encantamento, te namorando nessa distância que nos cabe: você infindável, eu provisória.

não sei o que me deu nesse tão novo e já complicadíssimo 2015. parece que a vida foi maior que a poesia.
a verdade é que há tantos pormenores por aqui que eu acabei dando mais poder a eles e deixando de lado o que faz a vida sorrir de verdade. não falo do sorriso prático, diário, daqueles que estão ao meu redor e melhoram tudo, esses os tenho e valorizo a cada instante. me refiro mesmo ao modo amplo, ao que tenho disponível sem o esforço da minha calejada existência: olhar pela janela e sacar as flores da imensa árvore da pracinha, respirar fundo e sentir a chuva vindo, ser tocada pela luz do sol das oito da manhã, deixar que o vento brinque com meus cabelos... tudo isso faz parte desse amplo divino que me abranda e entre esses eventos está a sua música. a de outros também, mas no 25 de janeiro, a sua em especial.

não quero que minha vida seja menor, por isso faço questão de manter alguns ritos. no dia do seu aniversário meu compromisso sempre foi com você. experimentei a sensação de tê-lo esquecido e isso me deixou apavorada, porque significa que esqueci de mim, esqueci dos carinhos que acho que mereço e me fiz soldado na obrigação inferior do cotidiano.     

mas como você nos repetiu, vasto é o mar, espelho do céu, querido. e na minha fé de pescador proclamo: a partir de hoje, todo dia é dia de Tom Jobim!



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

leque, palavra engraçada

finalmente aconteceu de eu ter um leque. ando, pra cima e pra baixo, a me abanar. não com a elegância das europeias do século XVII, mas esbaforida pelo calorão das estações, do ano e da idade.

é divertido ter um leque. nesse momento da vida, não há acontecimento em que ele não seja figurino obrigatório.
o lance de tentar afastar as quenturas internas e externas por supuesto é evidente. mas há outras ocasiões em que ele conta em negrito e caixa alta sobre as intenções. exemplos:
- minha irmã a me falar fofoca familiar. diminuo o ritmo da abanação na medida em que as notícias vão ficando mais picantes;
- se estou na loja e repentinamente a atendente acaba com meus sonhos me contando o preço do vestido, fecho-o rápido;
- quando o gerente do banco tenta me convencer a fazer um percurso diferente na minha conta, olho-o sério, leque fechado apoiado no queixo;
- se a notícia é séria, porém não grave, aumento a velocidade do vento;
- se a notícia é séria e grave, fecho-o dramática e jogo-o no canto do sofá.
- ainda, quando estou sozinha olho para o leque e lhe confesso pensamentos particulares, como quem escreve num diário.
não sei mais viver sem leque. fico matutando como vou fazer quando o inverno chegar. o cachecol não permite tantas possibilidades, na primeira fofoca de família, já estarei enforcada.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

pés no chão

Comecei a dar meus primeiros passos quando tinha sete meses. Antes de completar um ano, larguei os apoios e me mandava pra lá e pra cá sozinha, autônoma, dona de minhas perninhas rechonchudas, a comprovar com a testa a dureza dos móveis.

Algum tempo depois, não sei se pelo exercício precoce ou por alguma má formação ou, ainda, só por modismo, o doutor disse à minha mãe que eu precisava usar botas ortopédicas. Foi lá no Dr Scholl que ela fez a compra, um parzinho tão branco quanto horroroso. Nunca usei. Minha mãe relata que em mínima distração, eu arrancava o instrumento de tortura. Com o tempo fui sofisticando o crime: escondia em baixo da mesa, atrás da cortina, até em cima do escorregador do quintal o par de botas foi parar. Minha mãe desistiu e me comprou Melissa.

Na adolescência, dona de quase 1,80m, o número do meu calçado era 38. Tinha vergonha. Pés muito grandes. Burramente algumas vezes tentei me apertar dentro de um mais socialmente tolerável 36. Bolhas e dores me fizeram desistir. Fiz a opção eterna de All Star 39, além de servir, meus dedos ficavam esparramados, abertos, soltos.

Salto alto? Eu já sou salto alto por natureza, então isso nunca deu certo pra mim. Não consigo sustentar elegância sem ter os pés colados no chão. As vezes em que tentei foram tão vexaminosas que me recuso à narração.

Desde o meu primeiro All Star procuro pelo conforto. Isso acabou se tornando uma espécie de estilo, os seus sapatos são tão confortáveis; que delícia esse seu tênis; onde você comprou essa sandália, parece tão molinha...

Na minha trajetória, zanzeio pra lá e pra cá em marcas que me agradam nos quesitos qualidade, conforto e boniteza.
Era louca por uns modelinhos clássicos da Camper, mas a marca enlouqueceu, tratou de se render ao mau gosto reinante e ainda por cima a compra é impraticável no Brasil.

Mas há um tempinho descobri o pote no final do arco-íris. Meus olhos brilham, as mãos tremem, gaguejo, tenho taquicardia. A marca Outer me tira do sério, criança em parque de diversões. Para dificultar meu auto-controle, recebo email com o simpático, sedutor e perigoso recado: 40% off.   


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

entre a salvação e a perdição

Sim, eu sei, tenho tendências ao drama. Desde sempre.
É um drama autêntico, sincero, uma coisa que me pega no contrapé e quando vejo já estou estirada no sofá, mão direita tampando os olhos, lágrimas escorrendo e soluços desenfreados por ter lido uma desgraça no jornal ou por não ter recebido telefonema esperado ou por pensar nas pessoas que estão internadas no hospital aqui da frente.
O contrário também acontece. Me animo diante de uma paisagem bonita, gargalho feliz com uma brincadeira boba, dou um milhão de piruetas, bravo! bravo!, ao ouvir boa música.

Como se já não bastasse, me acompanha também o que chamam com desdém de hipocondria. Eu acho que é uma atenção minuciosa a todos os intempéries que podem me aparecer de surpresa. Prudente, estou sempre de olho em tudo. O meu pesadelo é ser paquerada por um vírus desses que rondam por aí e que ninguém sabe o nome ou lhe conhece a face. Ui, credo, isola.

Esses dois ingredientes associados, drama + hipocondria, formam coquetel molotov poderoso. Produzem cenas incríveis, capazes de amolecer o mais duro dos espectadores.
Mas a agremiação tem fundamento, claro que não precisava chegar aos extremos, encostar no limite da sanidade, mas é apegada a firmes alicerces.

Alguns sabem. Tenho uma doença, coisa congênita e não muito comum. Combato-a da forma que melhor consigo. Só numa raríssima complicação morrerei dela, o mais provável é que iremos as duas juntas para a eternidade, nos fazendo companhia e nos atormentando mutuamente, ela a querer me destruir e eu decidida a acabar com ela.

Pois bem, para se mostrar mais forte, a dita cuja da praga foi buscar recurso. Sacou que eu tinha os médicos como aliados e saiu a cata de doença-cúmplice que se dispusesse a ser misteriosa, mutante, leviana, a fazer ares enigmáticos... uma comparsa capaz da submissão para não ser reconhecida. As duas figurinhas torpes e depravadas deram as mãos, fizeram-se promessas, comungaram usando os meus glóbulos como se fosse sangue e da minha pele fizeram pão.

Drama.

Porque os médicos não souberam como nomear esse casamento, nem reconheciam mais os noivos originais, resolveram investigar. Na qualidade de detetive, uma biópsia.
Rapidinho larguei o drama. Porque concluí que grande sofrência em hora assim poderia me jogar num poço sem fundo.

E eu estava quieta, a ouvir as discussões dos homens de branco até que um deles disparou: Adriana, você tem a cabeça muito boa, qualquer outra pessoa no seu lugar estaria desesperada.
E esse foi o gatilho para o desespero. Abriram-se as cortinas. Eu me joguei com a força de mil Kratos na catástrofe. Desabei. Chorei. Me tranquei no quarto, fiquei no escuro de mim mesma aguardando sentença final.

Repentinamente, quem me chega? A hipocondria. Sorridente, meiga, a me fazer carinhos e a sussurrar no meu ouvido Reage, Adriana, você pode estar tombando numa severa depressão. Como era de costume, obedeci. Sacudi a poeira e resolvi ir à luta, faca nos dentes, olhos concentrados, brincadeiras.

Aqui estou, cheia de dignidade, sorrisos, bom humor, a esperar resultado do exame, salva por minhas tão marcantes características: o drama e a hipocondria. Que me falte tudo nessa vida, menos esses dois.


a beleza de verdade

Tenho visto aqui e ali, e cada vez mais, protestos contra a ditadura da beleza; gente que está cansada de ser apontada, comentada, observada pela mira implacável de quem valoriza muito o envelope.
Também, em movimento contrário, bizarrices sobre a aparência; gente louca a fazer coisas inacreditáveis para enfrentar o espelho e os olhares alheios.

Nunca fiz plástica, por incompetência não consigo emplacar regime, mas sou completamente favorável que as pessoas façam suas moderadas gambiarras para se sentirem melhor.
Eu, por exemplo, passo hena no cabelo porque é muito grisalho e não gosto; se tivesse mais força moral estaria seis quilos mais magra; uso rímel para alongar os cílios e sou adepta à depilação. Pequenos atentados artificiais com o objetivo de dar uma ajudazinha à natureza.   

Acho estranho olhar calendário que tem como estampa pessoas gordas e no título a bandeira de ser “contra o padrão de beleza” ou “se amar e se aceitar” ou, ainda, “ninguém tem nada com isso”.
Tenho cá pra mim, pelo menos até agora, que isso acaba por sublinhar a necessidade do aceite da aparência, seja ela qual for. E nessa balada, acho que a barra deveria ser forçada para outro lado. Ao invés de concentrar esforços em mostrar as evidentes humanidades do lado de fora, que tal se essa ânsia convergisse para o lado de dentro?
Que tal um calendário com o que de melhor modelos gordas ou magras, feias ou bonitas, altas ou baixas têm? E o que de melhor as pessoas têm? Suas humanidades de dentro, espero eu.   
E se no lugar das imagens viessem frases, pensamentos, conceitos, vivências? Isso, vivências. Alguns caracteres a contar sobre alguma coisa que valha pensar quando a gente vira a folhinha e avança mais um mês...
Queria dizer isso, pronto, disse. E agora aguardo as metralhadoras, que me chegam sempre dos lugares mais inesperados.

deseconomia doméstica

de todos os meus eletrodomésticos o que não vivo sem é a máquina de lavar roupas. tudo menos ter que enfrentar o tanque. o aspirador de pó também está entre os queridinhos, mas não é páreo para a guerreira da área de serviço.

há alguns anos, grana curta, problemas grandes, minha máquina parou de funcionar. esse tipo de coisa sempre acontece nos piores momentos, se bem que sempre é um pior momento para evento desse porte.
as roupas todas a viver a orgia do cesto onde camisa se abraçava com vestido, calça fazia juras à meia, calcinhas assanhadas se exibiam para tímida blusa... e nessa promiscuidade sem nenhum tipo de contracepção, elas se multiplicavam. onde antes uma camiseta reinava, em poucas horas, duas, três, até quatro apareciam incontrolavelmente.
como não dava para reprimir a algazarra da roupa suja, também não era possível esperar por ventos melhores. fiz uma traficância no orçamento doméstico e chamei o técnico. 

ele chegou com poses de doutor. uniforme, maleta, ferramentas, olhar sério. me perguntou sobre o problema. eu não conseguia diagnóstico, fui direto à conclusão, que era também sintoma: não funciona. simplesmente parou de funcionar, sem aviso prévio, sem um gemido antes, sem nenhum sinal. só parou.
o senhor do inesquecível nome Alcebíades olhou para máquina, abriu a tampa e antes de reunir forças para removê-la de lugar, quis testar. eu ainda avisei mais uma vez sobre a inutilidade daquela ação, enquanto girava os botões e apertava-os como quem conversa com um bicho de pelúcia: é bicho, tem formato, mas não vive.
ele me pediu licença, buscou o cabo de energia e ligou a branquinha na tomada. movimento quase instantâneo, a obedecer a velocidade da luz, a máquina começou a se encher de água.

era esse o problema, estava fora da tomada e eu, ligada em 220, nem me dei conta do pormenor, mas a conta da visita do Alcebíades ficou ecoando na minha economia doméstica...

lembrei da história por conta dessa tirinha que a Cassandra Szuberski dividiu em sua tl.